sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Asas em movimento




Os olhos encontraram somente o abismo sem fim. Apenas a queda. Joana caía em alta velocidade, como se estivesse na descida de uma montanha-russa desgovernada, sem carrinho, sem trilhos, sem apoio. Sentia seu corpo caindo, indefeso, abandonado, o rosto alterado pela força do vento acontecendo no escuro da queda. Não encontrou nenhum retalho de luz enquanto caía, seu corpo molhado por fora pelo temporal de dentro ao encontrar o vento frio, adoeceu, gripou, teve febre alta, tosse, delírios, tremores. Seus olhos choveram tanta tristeza que Joana cegou, e daquelas águas, daquele transbordamento absoluto, nasceram outros olhos. Elucidado estava, portanto, o mistério da queda. Não havia enigma, apenas a concessão da súplica. Joana pediu para cair, desejou fervorosamente. Afinal, não quis mergulhar? Ela quis assumir o risco de encontrar a voz das profundezas, seu oráculo íntimo, a sibila, a transmissora da mensagem, a chave do segredo. Joana quis mergulhar no caos de si e lá estava nesse momento. A diferença é que o mergulho fez-se queda. Até que Joana chegou. O movimento deu trégua, a queda cessou. Joana na caverna, no útero, no ventre de si. Joana-fênix. A queda foi a morte, a despedida de sua vida-lagarta. Agora, no centro de sua existência, tecia seu casulo, difícil, delicado, uma casa de cinzas, resquícios de lágrimas, ninho de memórias, baú ainda prenhe de sonhos. Assombrou-se ao perceber a mescla dos tempos, a mistura do que vivia e morria. Devagar, foi decantando o essencial, o que merecia viver. O casulo foi anterior à queda, cair foi libertar-se do casulo, cair para morrer, despedir-se do que não tem mais sentido, conservar o que mantém a coerência com sua essência, para que venha o fluxo que possibilite a ressurreição. O segredo é o caminho, são as asas em movimento. Joana acordou e viu o mundo com seus olhos novos e também viu, um pouco turvo ainda, o bater das asas da borboleta azul que saiu de sua boca.




imagem: obra da artista Kiki Smith

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Insensatez


Quase nunca existe silêncio. Sempre sou quase grito...


Ultimamente meus olhos andam chovendo. Não como uma chuva que cai fina enquanto caminho para o trabalho e busco um abrigo próximo para não encharcar a roupa que cuidadosamente vesti. A chuva não chegou com um clima lúdico, como quando era criança e tomar banho de chuva simbolizava alegria. Tenho meus motivos para chorar como barragem que se rompe, um choro com força de dilúvio. Choro como conseqüência da insensatez. Foram tantos amores entrecortados, laços que pareciam firmes desintegrando-se sem nenhum dó das minhas limitações, tudo ruindo, pele, carne e ossos que até as certezas desabaram. Quando as certezas desabam cai o chão junto. O buraco torna-se abismo e nele existem ainda tantas outras certezas, teimosas, inabaláveis em suas convicções, que se perdem, atônitas, na queda sem fim. No sofrimento você tem que lidar com a superação de limites, tentar extrair um resquício de solidez do que despenca ou alguma nota de equilíbrio em meio ao caos. Não nos acostumamos com a crueldade impressa na mais certa de todas as constatações: nada na vida é duradouro. Entretanto, não é esse o problema. A grande tragédia é a insensatez. Você não percebe? Que estamos apressando o que não deveria ter pressa? Esse sol que fugiu de mim, saindo de mansinho, à francesa, deu lugar às pesadas nuvens, que num carrego inimaginável tributaram alagamentos. Não consigo mais achar as pontes que construí com zelo e entrega, a do meu coração, com um singelo “bem-vindo” está submersa pela chuva. Sobreviverá aos estragos? E as minhas plantações? Com o solo tão encharcado e instável? Nascerá algum broto? Crescerá alguma planta? O cenário é dantesco, enxurradas, uma multidão de soterrados, a fúria da natureza que nada mais é do que o atestado da insensatez humana. Eu sou uma cidade que sofre. Eu sou uma mãe que agoniza, pois meus filhos que morreram não precisavam dessa morte. Até quando estaremos cegos pelo mercado? Coniventes com o desmatamento assassino e a queima de combustíveis fósseis? Até quando vamos ignorar que o que acontece no Estado com nome de santa, Catarina, é apenas um anúncio do que está por vir em uma escala maior? No mundo inteiro. Nossos dirigentes são estúpidos, deleitam-se e espalham aos quatro ventos a descoberta de mais um campo de petróleo. Enquanto isso, espero a água baixar, sonhando com um sol que nasça diferente, que clareie a consciência da humanidade enquanto ainda houver tempo. Agora, sou toda grito: clareia, clareia!
Imagem: obra de Camille Claudel, "A onda".

Inspiração


Se ferir, feriu. O que importa é que se viveu.
Teu olhar me inspira para a vida, Luz da minha Luz.
Para subir, descer, caminhar, criar, ajudar, seja o que for.
Teu olhar é movimento.
Bem vindo ao meu coração.
Todo ele é seu.
Boa noite, bailarino.
Imagem: Frida Kahlo, que não teve medo do amor.

Quando te vejo

quando te vejo vem junto um jorro de sensações. friozinho na barriga. borboletas no coração. brilho no olhar. laço invisível.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Amor

Formou-se um grande laço.
O laço das invisibilidades.
Dos silêncios.
Do que não precisa ser dito.
Nós já sabemos de nós.
E isso é tudo.

domingo, 23 de novembro de 2008

Faxina

Devolvi a busca cega do que sempre soube que nunca terei.
Despachei todos os sentimentos desnecessários.
Não quero mais, cansei.
Senti um grande alívio e de mansinho foi chegando a paz.
Afastando a poeira, colocando cada coisa em seu devido lugar.
Faxina é coisa poderosa!

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Tango!


Por gostar do movimento pegava o carro, colocava Artor Piazzolla para embalar os momentos e saía sem rumo, sem destino certo. Cada um tem sua mania e nesses tempos desprovidos de tempo muitos poderiam considerar esse hábito uma grande perda de tempo. Joana aprecia ver o mundo pelas janelas do automóvel, imaginando outras vidas, povoando seu imaginário com entrelaçamentos. Gosta de fazer isso em movimento e foi num desses percursos que viu a placa “aulas de tango”. Coincidência? No exato momento em que ouvia Piazzolla? Sentiu um chamado irrefreável, estacionou o carro e foi assim que começou a ter aulas de tango.
As aulas de tango tem sido fonte de grandes lições para Joana. Por exemplo: o amor. Amar é como dançar tango. Ou você se entrega ou não existe possibilidade de existência compartilhada. O amor, assim como o tango, tem um ritmo próprio, exige entrelaçamento entre corpos e almas, sedução constante, um contínuo aflorar do desejo. Dançando tango Joana entendeu porque seu romance não continuou. A primeira aula de tango foi difícil. Joana tensa, travada, não se deixava levar. Para dançar tango você precisa permitir que o parceiro te conduza e muitas vezes as pessoas estão prisioneiras de seus próprios infernos. No amor e no tango só existe beleza e harmonia com confiança e entrega. Com o tempo, dançando tango, entregando-se aos momentos, foi que a ficha caiu e Joana entendeu. Dançando sentiu como a realidade aconteceu, por mais que tivesse racionalizado antes inúmeras vezes. Somente pelo sentimento que entendemos o sentido de tudo.
Ainda sofria por esse amor. Um amor que parecia ter portas abertas. O problema é que apenas Joana abriu portas. A consciência de que seus passos eram solitários surgiu em um momento tardio, quando todos os passos que marcam o espírito já haviam sido dados. Várias portas foram abertas e não havia mais fórmula alguma capaz de fechá-las. Joana não pensou antes de dar o primeiro passo. Queria muito dançar e foi tudo rápido e intenso, uma vida inteira em um segundo, uma história de amor de corredor, passional, urgente, frenética, que deixa as pupilas dilatadas, que te arranca a consciência, acende tudo por dentro, queima, arde, incendeia. Como um encontro esperado por toda a vida e no momento que você vê a pessoa pela primeira vez, quando os olhares se reconhecem, tudo passa a fazer sentido, tudo o que você viveu antes, todas as dores e alegrias, perdas e ganhos, tudo parece integrar um preparo para que se possa viver plenamente um grande amor e nada mais faz sentido se a vida não for acompanhada daquela pessoa. Você sabe do que eu falo? Já amou alguma vez assim? Já se despediu do medo e se jogou no abismo sem medo da queda? Já amou realmente alguém de verdade? Com todos os anjos e demônios que a pessoa possui? Você já dançou tango com alguém?
Desistiram antes de tentar acertar os passos, de encontrar o ritmo em comum. Algo que só pode acontecer com a cumplicidade do tempo. Não no intervalo de um passo. Dançando tango, entre um passo e outro, Joana soube que todos os castelos construídos eram de areia. Infelizmente teria que arcar com o buraco deixado por uma história abortada. Em sua mão um único grão, que ela teimava em querer explodir, talvez repetir o big-bang, criando outro universo. O grão foi seu sustentáculo na fronteira. Foi o que a impediu de passar para o lado das perdas para sempre perdidas. O grão explodiu, fez-se movimento e Joana começou a dançar.
Assim foi o amor de Joana. Tem seus tons tristes pois, com a mesma urgência que chegou, foi embora. Eles não dançaram juntos. Entretanto, esse amor vivido e sofrido foi essencial para que Joana entendesse o tango. O bom dançarino sabe que sempre haverá uma próxima dança para quem se permitir a entrega.
Joana, mulher que se permite, desejo que sua próxima dança seja compartilhada. Que seja um tango!

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Revelação


A revelação aconteceu sem espetáculo algum da natureza, após um dia banal de trabalho, desses estupidamente corriqueiros. Joana marcou sua saída no relógio de ponto e foi caminhando para o carro, levando o saco com as provas nas mãos. A descoberta não veio como impacto, não houve choro nem desespero, aconteceu simplesmente no intervalo entre um passo e outro. Um pouco antes do acontecido, Joana ainda inquietava-se com os mistérios do mundo alheio, perdendo-se nos momentos, tentando agarrar as palavras. Seu desejo maior era a captação do sentido, procurando, sedenta, o segredo do cadeado que libertaria seu coração nas palavras proferidas por outras vozes. Rapidamente as palavras foram se dissolvendo como se tivessem sido apagadas no vai-e-vem do mar, as palavras que Joana buscava eram escritas com gravetos na areia úmida, como se nunca tivessem tido sombra de firmeza e sem direito, portanto, a nenhum tipo de registro. As palavras aconteciam com a segurança do desapego no movimento de quem agarra um punhado de terra embalado pela consciência de que sempre essa terra escapará por entre os dedos. Joana buscava permanências na vida enquanto nada permanece, tudo finda para que outro ser nasça do que findou, tudo é transformação, tudo é ventre e túmulo, a morte não é o fim, nem o nascimento é o começo. Joana teimava em encontrar a verdade no momento. Lá dentro de si sabia que aconteceria, pois o que poderia ser o sentimento fundo que inundava seu coração? seriam as lembranças dos momentos? seria a saudade do que foi vivido ou seria o anúncio de alguma sabedoria futura que nasceria das angústias do presente? Joana soube no intervalo entre um passo e outro, no tempo do tic-tac de um relógio que existiam coisas dentro dela que eram indestrutíveis, não se escreveriam na areia da praia, ficariam gravadas na alma, que seu amor seria irremediavelmente cúmplice, independente da vontade de quem quer que seja, um sentimento sentido, que tem morada sólida e é algo muito maior do que ela, transborda, extrapola, atravessa os ciclos, é a única permanência possível, pois é algo que está dentro e não fora. Joana sentia-se despossuída de si, toda ela uma doação completa e sem reservas e foi assim, sem posses, que esteve mais dentro de si, entre um passo e outro adquiriu a consciência que nunca entenderia a alma de outra pessoa e essa foi a grande revelação, assim como nunca ninguém poderia falar para Joana o que ela precisava ouvir, pois entre as almas não existem entendimentos, por isso já recomendou o poeta, “a alma é que estraga o amor” e Joana tinha antes racionalizado essas palavras e agora ela sentia o que realmente significavam. Entre um passo e outro teve a luz do caminho. Joana sabia mais do que nunca que encontraria as palavras que abririam o cadeado. Elas estão escondidas apenas em seu interior e ela agora mergulhará bem no fundo de si mesma para saber o segredo.

domingo, 16 de novembro de 2008

Olhar dançarino

Ela sempre pregava a verdade em seus discursos mas tinha um olhar dançarino e aquele olhar dançarino bailava com as traições. Toda as noites, quando a camada de pele diária caía, fugia para não admitir que ela era a maior mentirosa que já existiu nessa vida, apesar de falar sempre a verdade, pois todas as verdades que dela surgiam vinham da fonte comprometida com uma incomensurável mentira. Sempre soube que era feia e covarde e isso era algo que a incomodava terrivelmente. Veio ao mundo com cara de assustada. Precisava disfarçar essa desgraça de susto com a vida e por isso mentia e mentia. Clara já portava a contradição no nome, pois ninguém mais turvo do que ela. Toda ela uma imensa farsa. Os laçarotes, o sorriso aberto, a cuidadosa maquiagem diária, o cabelo escovado, os saltos cada vez mais altos, a bolsa dourada cintilante, o perfume doce e enjoativo, as gargantilhas de ouro H. Stern. Vivia perambulando pelas vitrines das lojas de grife, endividando-se toda, recebendo elogios das vendedoras, então comprava sempre mais para receber mais elogios. Clara vivia seu teatro, disfarçando a cara envergonhada pela covardia que trazia gravada na alma. O olhar não conseguia fixar nada, bailava como o pêndulo de um relógio antigo, para um lado e para o outro. Cumpria religiosamente todos os compromissos sociais patriarcais, o grupo das senhoras, filhos, marido, a empregada desleixada, o boom anti-rugas X grupo dos senhores, quem é a gostosa da vez, qual o time líder do campeonato, qual o investimento de maior rentabilidade no mercado financeiro. Clara civilizou tudo, transformou sua vida em um grande pasto artificial para ser socialmente decente. Seu olhar parava de dançar apenas no momento do banho quente, quando garimpava seu direito à solidão para receber alguns minutos de liberdade. A água quente na banheira acendia o fogo de seu elo ancestral, como um saber que está na sua mente muito antes de seu nascimento, como uma origem sobrenatural do mundo, como uma fêmea, como uma deusa ou simplesmente como uma mulher. Clara fugia da memória herdada, da ligação arquetípica com a grande-mãe mas seu coração tinha fome de floresta. Lá no centro de seu coração sentia a saudade brutal da selvageria, da entrega, da natureza sem piedade, de embrenhar-se na caçada, sem medo da mata desconhecida. Queria um amor de entrega, de abismo, queria algo real na vida, queria ser bicho mas não tinha coragem e tremia de medo só de pensar e mentia e mentia, conformava-se em ser uma coisa, um ser de plástico, ser um objeto era a garantia de continuar vivendo, mesmo sendo mentira, pois a verdade atravessa a alma com um punhal dentado e rasga tudo por dentro e uma vez na vida Clara soube o que isso significava e fugia dessa memória e mentia e mentia, permanecendo fiel ao olhar dançarino. Tic-tac. Tic-tac.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Fome ancestral


Devorei tuas palavras com uma fome ancestral. Aquela fome. Sabe, falo do encontro que te sacode por dentro e de um arranque só revela algo surpreendente, algo que você já sabia mas estava esquecida que sabia. Eu sei, não adianta, quem opta por uma vida destemida e irrefreável tem que arcar com o ônus de enfrentar punhais e estiletes, desses invisíveis, mas que atravessam a alma com uma precisão cirúrgica. Viver tanto comove quanto rasga. Então, quando dói demais, inconscientemente a gente embarca na nau que oferece o bálsamo do esquecimento. Para suportar os dias.
Chegam os dias cinzentos tributando a rotina insípida, obrigações do consenso, ritmo mecânico, relógio de ponto, sorrisos com hora marcada, bom dia, boa tarde, boa noite. Tudo programado, politicamente correto, de acordo com o padrão, afinal a sociedade precisa de ordem. Entretanto meu espírito é visual, inquieto e faminto. Sempre abandono a nau do esquecimento nos primeiros minutos da viagem. Mergulho tão profundamente que agüento tempos sem respirar, sou quase aquática, nem pareço aquela garotinha que sufocava com os passos vacilados pelas pequenas rampas dos desencontros, meus pulmões tem um estoque com tubos de oxigênio e por ter ar para respirar, sigo e vivo.
Amanheci com fome ancestral. Queria engolir a vida. A chuva de hoje parecia um presente como se instigasse meu desejo: vai, vai, Joana! Ultimamente andava taciturna, enfurnada pelas paredes barrocas de casa. Então fui, caminhar pela cidade, observar a rotina pulsante que era tão diferente da minha e quem sabe eu pudesse encontrar o sentido da minha fome vendo a rotina do outro, sentindo o cheiro da terra molhada, conversando sobre as propriedades mágicas das ervas na banquinha do seu Juvenal. Cheirei cravo, canela, - Tá ansiosa, filha? Leve melissa, passiflora, camomila, mulungu, capim-cidreira. – Mas, seu Juvenal, tenho apenas fome, o senhor chama isso de ansiedade, mas não é fome de comida, entende?
Por insistência do seu Juvenal, cedi ao refúgio das plantas, talvez mais tarde um chazinho acalme meu sono, pois sei que esta noite não será fácil, pois me vejo agora perambulando pela cidade como cachorro procurando o dono, e a chuva cai de novo e me faz acordar para aquilo que eu sabia mas esquecia que sabia, da minha fome ancestral, da vontade de aconchego, de saber que no mundo tem alguém que me vê de verdade, de dormir agarradinho, de fazer pequenos mimos, café da manhã na cama, olhar de cumplicidade, doses de felicidade tornado o dia digno de ser vivido por ser um dia compartilhado. Ai, meu Deus, definitivamente, não tenho vocação para a solidão, mas sei demais de mim para dar chance às efemeridades. Por isso estou só, porque não quero esquecer de quem eu sou e só estarei com quem saiba de mim verdadeiramente porque a minha fome ancestral é implacável. E por ter ar para respirar, sigo e vivo.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Turbilhão

Para ele, sentimentos são fugazes.
Palavras são destituídas de sentido.
Não existe conexão com a linguagem do coração.
Eu te amo é tão fácil quanto eu tenho fome.
Sentimentos passam como quem passa a página de um livro distraidamente.

Para ela, sentimentos são profundos.
Palavras são fiéis.
Eu te amo só é falado com consciência.
Ela fica na primeira página, namorando o texto, mergulhando, mergulhando.
Enquanto ele já foi enamorar-se de mil livros.

Ela foi o diamante lapidado por mil anos.
Ele foi o martelo que a estilhaçou.
Ela agora chora por tudo o que foi anunciado e não foi real.
Eu-te-amo. Eu te amo. Eu te amo...
Turbilhão de palavras.
Falsas.

Aprenda a lição, minha amiga.

domingo, 9 de novembro de 2008

Joana e o mar

Joana chegou nesse mundo consciente que o único caminho possível para a liberdade é seguir seu próprio caminho, e esses passos devem ser passos honestos. Na busca de seu caminho Joana precisou encontrar o mar. Esse rumo que se anunciava belo dentro dela, o do mar, era o único que nesse momento delineava algum percurso. Seu espírito clamava pelo mar, para ver seu movimento, ouvir sua música, conhecer seus mistérios, ser amada por ele. Pelo espírito do mar. Saber de sua matéria-prima. Nadar, flutuar, atravessar suas fronteiras. Mergulhar. Aprofundar-se em seus subterrâneos. Em seus navios submersos, em seus corais. Lembrou de uma estória da infância, de uma sereia apaixonada por um humano e que no final da estória, a sereia, após ter seu amor rejeitado pelo humano, torna-se espuma no mar.
Joana sempre ficava emocionada quando lembrava da estória da sereia que se transformou em mar por amor.
Tanto mar, tanto a-mar.
Um dos motivos de sua viagem marcava território: o encontro com o mar. Internamente Joana sabia que esse encontro ensejava apenas um pequeno começo e que grandes começos ainda estavam escondidos, ansiosos para nascer.
Caminhou por horas pela orla, contemplando o mar. Perdeu a noção do tempo até que foi lembrada de sua humanidade pela sede que sentia. Entrou no primeiro restaurante que apareceu, mas não sabia o que queria beber. Água talvez. Procurou uma mesa em um cantinho mais aconchegante e sentou. Antes que pedisse qualquer coisa ele apareceu. Olhou bem fundo nos olhos dela. Sempre mantendo o olhar no olhar, como quem confessa os maiores segredos do mundo, lentamente empurrou o copo na direção de Joana. A distância física entre eles era pouca, a mesa do restaurante bem pequena, feita com uma madeira muito antiga, tão pesada e colorida pela passagem do tempo que ostentava um ar de sabedoria, como se tivesse a consciência que nunca envelhecerá, pois sabe a consistência do material que a compõe. O lugar possuía uma rusticidade estranha, orgânica demais, parecia um lugar vivo. Na mesa, existia apenas uma garrafa de vinho vazia, servindo de luminária, de um verde fechado, com uma vela vermelha acesa, que despejava córregos de parafina por toda a extensão da garrafa.
Então ele olhou para Joana como quem ordenasse: bebe! Joana estremeceu. Ela estava com sede, mas porque ele entregava um copo tão pequeno, com um líquido tão escasso para saciar a sede? A ligação entre eles, recente, recentíssima, parecia tão antiga quanto as cores da mesa que os acolhia e por isso não autorizava rejeições. O primeiro gole foi tímido, como se tratasse de um reconhecimento do que passaria a fazer parte dela. Depois houve apenas o segundo gole, este já cônscio de que aquele líquido transportaria Joana para um lugar profundo e familiar.
Joana viu que também era espuma de mar e passou a ver muito mais: sou peixe, sou alga, sou cais, sou navio, sou jangada, sou pescador, sou golfinho, sou água que jorra fresca no córrego, sou planta nativa, sou besouro, sou lagarta, sou borboleta, sou avestruz, sou árvore, sou chama, sou jacaré, sou pássaro, sou cabra, sou floresta, sou leoa, sou loba, sou partícula e sou universo, sou um profundo coração humano que sabe que não existe separação entre nós, pois nada é fragmentado, tudo está unido por uma força maior que pode receber o nome de Deus e que nesse momento eu chamo amor.
Após saber que tudo está interligado a tudo partiu do restaurante e voltou caminhando pela beira da praia. Tirou as sandálias, para sentir o contato com a areia molhada e de vez em quando receber um banho nos pés. Por um momento parou para observar: entre seus dedos sempre ficava um restinho de espuma do mar. Então uma sede, diferente da anterior, instigou o nascimento de um novo começo, de um desejo em Joana. Uma sede-desejo que se chama vontade de viver.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

O tamanho do meu coração


Acordei e o ar me faltava. Era meu coração. O tamanho dele. Anormal. Dilatado. Maior do que eu. Ele tinha transbordado e estava espalhado pela cama. Grudado nos lençóis feito chiclete. Nessa condição, como poderia meu coração caber em mim? Como eu poderia carregar um coração maior do que eu? Houve um tempo em que eu pedia a Deus para diminuir meu coração, por puro instinto de sobrevivência! - Ai meu Deus, traz meu coração de volta pra dentro de mim! Hoje sei que com paciência ele volta. São apenas os momentos de crescimento, talvez por algum sentimento excessivo, algum amor que extrapola fronteiras..., mas eu sei, para tudo na vida existe seu contrário, vai chegar o momento da expansão ceder seu lugar, de mansinho vai se retirando, aquietando suas angústias, serenando, serenando. – Viu? Já diminuiu, voltou para dentro do corpo.
Houve um tempo em que Joana ainda não sabia de si como hoje sabe e seu coração transbordou pela cama. Joana ficou muito assustada, procurou um médico cardiologista.
– Só pode ser doença, devo estar nas últimas!
O médico receitou exames cardiológicos mais simples, “se indicarem alguma gravidade investigaremos”. Ultrasom, eletrocardiograma, esteira. – Parabéns, Joana, seu coração é absolutamente normal! Joana saiu com aquelas imagens pesadas, as linhas do eletro, a imagem do coração que o ultrasom captou. Colocou tudo em uma colagem, e ficou dias olhando sua normalidade. Ali estava o coração de Joana para a ciência! Algo muito estranho para ela.
Novamente na cama, deitada, foi entrando em sintonia com seus elos invisíveis. E, como quem se desprega do corpo, conseguiu viajar pelas entranhas de si mesma e viu como seu coração realmente é por dentro: meu coração tem um núcleo escuro e quase uniforme, não fosse por uma leve ranhura, resquício de uma cicatriz profunda que faz parte do entorno. O que envolve o núcleo é bem diferente de seu centro. É composto por várias linhas que são mescladas em degradê. Meu coração de longe é bonito de se ver: um núcleo escuro que se dissolve em várias cores. De perto, tirando o núcleo, nada é uniforme, meu coração é uma grande colagem. Existem fendas profundas e ranhuras leves. Existe uma cicatriz que ocupa quase a metade da parte posterior (da cor escura do núcleo) e inúmeras, incontáveis, inesgotáveis costuras.
Caio Fernando, só você para entender essa viagem por esse coração, você que já passeou tanto por essas terras: meu coração busca em desespero as levezas que vão se esvaindo com o tempo. Meu coração sofre porque foca no essencial e o mundo abriu possibilidades demais, visões demais, e não consegue encontrar o que é invisível aos olhos. Meu coração é tecido por tantas invisibilidades e sinto-tudo-muito e vibro ao me encontrar, mas inevitavelmente dói se me aprofundo e mergulho, pois fico mais sábia de mim e menos sou vista e por isso sofro. Meu coração sabe que esse é um caminho sem volta. Meu coração se agarra a uma filigrana de esperança que existam mergulhadores como eu nos oceanos que percorro. Meu coração é uma pintura de Chagal. Meu coração fica chateado em receber crachá de visitante. Meu coração é alegre e tem uma caixinha de música com tapete de veludo onde mora uma bailarina que vive na ponta dos pés, mas tem vontade de aprender sapateado. Meu coração é como Camille Claudel, que não compartilha do consenso, que não aceita ser amada pela metade e que sai pela rua uivando, entupida de cores na face-tela branca, assumindo o risco de ser levada para onde não incomode mais ninguém, e lá seja sepultada em vida por trinta anos. Meu coração não tem maldade. Meu coração sofre com gramados artificiais e tartarugas de plástico. Meu coração é a coluna da Frida Kahlo. Meu coração ama os cachorrinhos sarnentos e os viciados em crack. Meu coração é como o de Carson Mccullers, um grande caçador solitário inconformado com sua condição. Meu coração tem um olhar aberto para as flores da casa, para as pombas no telhado, para as borboletas, para a visita do beija-flor. Meu coração é um filme do Almodóvar, o sonho de Kurosawa, o conjunto de todos os filmes românticos em preto e branco. Meu coração é a sonata ao luar de Beethoven. Meu coração é uma jangada que fica feliz em te receber para acenar para outro alguém. Meu coração tem arranhões, entalhes e esfoladoras e justamente por isso consegue se perceber coração. Meu coração quer tanto-tanto aprender a amar, um amor-humanamente-possível. Meu coração quer sempre ser coração.

domingo, 2 de novembro de 2008

Beleza e tristeza

Pancadas no coração. Movimento. Intenso. Tanto, tanto e tanto que não poderia ser normal. – Meu coração só pode ter alguma deficiência, pensou Joana. Bate rasgando. - É melhor consultar um médico. A batida cardíaca dói demais nas noites de insônia, quando o olhar vigilante fita as estrelas e as sombras da noite entendem que já se anuncia a hora de começar a partida. A sombra vai fugindo aos pouquinhos, devagarzinho cedendo generosamente seu lugar para outro dia nascer, a luz que chega de mansinho e vai dissolvendo a noite, colorindo o céu de laranja, púrpura e verde, até que fica tudo cerúleo e uniforme e vai perdendo um pouco a graça. Joana gosta mesmo é de contemplar os minutos da transformação do dia em noite e da noite em dia. Joana gosta do movimento. O sol que nasce, que parece nascer, só existe por causa do movimento. Outro dia foi ao enterro do pai de uma amiga. A família da amiga aos prantos, "ele deveria ser um bom pai", pensou. Solidarizou-se com a perda, mas o ritmo do coração parecia normal, nada de punhal atravessando a carne de dentro. O padre rezou a missa, desespero da família, lacram o caixão. – Sei o que é isso, já enterrei gente demais! Comenta uma senhora gorda ao lado dela. - Essa sempre parece ser a pior hora, pois a gente ainda fica querendo se agarrar àquele corpo que já é um corpo sem vida. A pessoa não está mais ali. As pessoas caminhavam seguindo o carrinho que levava o caixão, até que pararam no local do túmulo, muitas flores coloridas e tristes, mas o céu! O céu escolheu ficar lindo num dia triste. Beleza e tristeza podem caminhar juntas? Joana nunca tinha visto um céu tão espetacular. O azul que findava mesclava-se com laranja, ocre e carmim, em pequenos fragmentos de cor, preenchendo em retalhos uma perfeição de mistura no firmamento que nunca nenhum artista nessa vida conseguiria repetir. E então chega o punhal no coração de Joana, não um, muitos, tantos quanto as cores que se manifestavam na despedida do dia que também era a despedida daquele pai. Joana chorou muito, o coração sangrando, apertado no peito, as pancadas tão agudas, uma dor tão fina que beirava a agonia. Aquelas cores atravessavam o olhar de Joana com a violência de uma barragem que se rompe. Com a violência que tinge a despedida de um ser amado, com a força do amor que transforma céu em arte. Tanto, tanto, tanto.

Pensar doente dos olhos

Sonntag. Dia do Sol. 星期日 . Zondag. Sunday. Pühapäev. 日曜日. Söndag. Søndag. Diumenge. Dia do Senhor. Domingo. Daina. Dimanĉo. Dimanche. Κυριακή. Domenica. Domingo. Duminică. Niedziela. Domingo. Domingo. Domingo. Domingo. Joana tentava abstrair o peso do domingo, tentando esquecer que era domingo mas não conseguia parar de pensar que era domingo. Pensar. Pensar. Pensar. Alberto Caeiro disse que “pensar é estar doente dos olhos”. Nesse domingo Joana sentiu-se portadora de uma doença grave. Algo que a obrigava a ficar em casa, enquanto os amigos preocupavam-se com ela e o telefone não permitia o descanso da enferma: - Alô? Sim, estou bem, quero apenas ficar só. - Mas não pode, Joana! Não se isole do mundo! E Joana pensava com seus olhos doentes: de qual mundo me isolo? De qual mundo me aproximo?
Conquistou o direito de ficar largada no domingo. Não tomar banho, não colocar lentes de contato, deixar a pele oleosa, ficar com cheiro de gente. Não queria contato. Não estava afim de não ser quem ela era no domingo. E como quem poderia compartilhar do mundo de Joana não dava sinais, ela optou pela solidão. Melhor assim. Mergulhar no caos de si. Joana quer encontrar seus trilhos, apenas com a ressalva que não quer saber o final, quantas paradas, quantas estações. Conseguirá? Mergulhar cada vez mais fundo? O oceano é seu refúgio? Em seu derradeiro mergulho todos os peixes de seu oceano lançaram vôo, criaram asas, talvez para nunca mais voltar, pois Joana não sabe se deu tempo dos peixes criarem um mecanismo de sobrevivência fora da água. Talvez estejam mortos por aí. Mas Joana não sente falta de seus antigos peixes. Seu oceano vazio foi uma vitória. Pois um oceano vazio pode ser povoado por novos peixes. Quem sabe carpas coloridas? Joana ouviu falar que carpa traz sorte, apesar de não saber ainda qual sorte quer. Optou por não selecionar peixes dessa vez e entregar seu oceano para ser habitado pelo irrefreável da vida. Descobrir o que ela ainda não sabe dela mesma. Afastar o boicote da própria vida e o boicote do outro. E se suas asas forem como as de Ícaro e derreterem em seus vôos mais altos? E se morrer asfixiada em seus mergulhos como seus peixes antigos? Não importam os perigos. Viver dói e é perigoso, mas tem um sabor único que deve ser garimpado. Joana quer ser essa coisa viva que agora é e aprender a ter sabedoria para não afastar quem poderia fazê-la feliz e menos só.
Só como nesse domingo em que Joana espera seu amor ouvindo Piazzolla e mergulhando nos perigos de seu abismo. Domingo. Domingo. Domingo. Pensar. Pensar. Pensar doente dos olhos.