terça-feira, 18 de novembro de 2008

Revelação


A revelação aconteceu sem espetáculo algum da natureza, após um dia banal de trabalho, desses estupidamente corriqueiros. Joana marcou sua saída no relógio de ponto e foi caminhando para o carro, levando o saco com as provas nas mãos. A descoberta não veio como impacto, não houve choro nem desespero, aconteceu simplesmente no intervalo entre um passo e outro. Um pouco antes do acontecido, Joana ainda inquietava-se com os mistérios do mundo alheio, perdendo-se nos momentos, tentando agarrar as palavras. Seu desejo maior era a captação do sentido, procurando, sedenta, o segredo do cadeado que libertaria seu coração nas palavras proferidas por outras vozes. Rapidamente as palavras foram se dissolvendo como se tivessem sido apagadas no vai-e-vem do mar, as palavras que Joana buscava eram escritas com gravetos na areia úmida, como se nunca tivessem tido sombra de firmeza e sem direito, portanto, a nenhum tipo de registro. As palavras aconteciam com a segurança do desapego no movimento de quem agarra um punhado de terra embalado pela consciência de que sempre essa terra escapará por entre os dedos. Joana buscava permanências na vida enquanto nada permanece, tudo finda para que outro ser nasça do que findou, tudo é transformação, tudo é ventre e túmulo, a morte não é o fim, nem o nascimento é o começo. Joana teimava em encontrar a verdade no momento. Lá dentro de si sabia que aconteceria, pois o que poderia ser o sentimento fundo que inundava seu coração? seriam as lembranças dos momentos? seria a saudade do que foi vivido ou seria o anúncio de alguma sabedoria futura que nasceria das angústias do presente? Joana soube no intervalo entre um passo e outro, no tempo do tic-tac de um relógio que existiam coisas dentro dela que eram indestrutíveis, não se escreveriam na areia da praia, ficariam gravadas na alma, que seu amor seria irremediavelmente cúmplice, independente da vontade de quem quer que seja, um sentimento sentido, que tem morada sólida e é algo muito maior do que ela, transborda, extrapola, atravessa os ciclos, é a única permanência possível, pois é algo que está dentro e não fora. Joana sentia-se despossuída de si, toda ela uma doação completa e sem reservas e foi assim, sem posses, que esteve mais dentro de si, entre um passo e outro adquiriu a consciência que nunca entenderia a alma de outra pessoa e essa foi a grande revelação, assim como nunca ninguém poderia falar para Joana o que ela precisava ouvir, pois entre as almas não existem entendimentos, por isso já recomendou o poeta, “a alma é que estraga o amor” e Joana tinha antes racionalizado essas palavras e agora ela sentia o que realmente significavam. Entre um passo e outro teve a luz do caminho. Joana sabia mais do que nunca que encontraria as palavras que abririam o cadeado. Elas estão escondidas apenas em seu interior e ela agora mergulhará bem no fundo de si mesma para saber o segredo.

3 comentários:

glória disse...

Que "revelação" esse encontro! Olha quem fala, exatamente a mulher que plana diáfana sobre o banal das tantas coisas que nos povoam. Joana, é uma nós, para além dela mesma. Vasta e perplexa. Ana Waleska é tão única e rara, que faz vagar a nossa vontade de criação. Vou te adicionar entre os meus blogs preferidos. bjs

Wellington Pereira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Wellington Pereira disse...

Encontro-me em ti em teus escritos, não como homem, mas como alma.
Vejo em teus escritos: angustia amor e luzes reluzentes.
Luzes que de meu ser desdenham, mas me guiam entre tortuosas trilhas.
Liberta-me do meu vil ser e de minha egoísta pose.
Joana que em cada conto, faz pontos que tecem minha existência.
Joana que sofre, mas a todos liberta,
Em uma busca incessante que não é só de Joana.
Luz que por instantes de apaga, mas recarregada reluz vida.
Tudo passa, diz Joana, mas ela jamais deixará de caminhar em minha estrada...