sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Tango!


Por gostar do movimento pegava o carro, colocava Artor Piazzolla para embalar os momentos e saía sem rumo, sem destino certo. Cada um tem sua mania e nesses tempos desprovidos de tempo muitos poderiam considerar esse hábito uma grande perda de tempo. Joana aprecia ver o mundo pelas janelas do automóvel, imaginando outras vidas, povoando seu imaginário com entrelaçamentos. Gosta de fazer isso em movimento e foi num desses percursos que viu a placa “aulas de tango”. Coincidência? No exato momento em que ouvia Piazzolla? Sentiu um chamado irrefreável, estacionou o carro e foi assim que começou a ter aulas de tango.
As aulas de tango tem sido fonte de grandes lições para Joana. Por exemplo: o amor. Amar é como dançar tango. Ou você se entrega ou não existe possibilidade de existência compartilhada. O amor, assim como o tango, tem um ritmo próprio, exige entrelaçamento entre corpos e almas, sedução constante, um contínuo aflorar do desejo. Dançando tango Joana entendeu porque seu romance não continuou. A primeira aula de tango foi difícil. Joana tensa, travada, não se deixava levar. Para dançar tango você precisa permitir que o parceiro te conduza e muitas vezes as pessoas estão prisioneiras de seus próprios infernos. No amor e no tango só existe beleza e harmonia com confiança e entrega. Com o tempo, dançando tango, entregando-se aos momentos, foi que a ficha caiu e Joana entendeu. Dançando sentiu como a realidade aconteceu, por mais que tivesse racionalizado antes inúmeras vezes. Somente pelo sentimento que entendemos o sentido de tudo.
Ainda sofria por esse amor. Um amor que parecia ter portas abertas. O problema é que apenas Joana abriu portas. A consciência de que seus passos eram solitários surgiu em um momento tardio, quando todos os passos que marcam o espírito já haviam sido dados. Várias portas foram abertas e não havia mais fórmula alguma capaz de fechá-las. Joana não pensou antes de dar o primeiro passo. Queria muito dançar e foi tudo rápido e intenso, uma vida inteira em um segundo, uma história de amor de corredor, passional, urgente, frenética, que deixa as pupilas dilatadas, que te arranca a consciência, acende tudo por dentro, queima, arde, incendeia. Como um encontro esperado por toda a vida e no momento que você vê a pessoa pela primeira vez, quando os olhares se reconhecem, tudo passa a fazer sentido, tudo o que você viveu antes, todas as dores e alegrias, perdas e ganhos, tudo parece integrar um preparo para que se possa viver plenamente um grande amor e nada mais faz sentido se a vida não for acompanhada daquela pessoa. Você sabe do que eu falo? Já amou alguma vez assim? Já se despediu do medo e se jogou no abismo sem medo da queda? Já amou realmente alguém de verdade? Com todos os anjos e demônios que a pessoa possui? Você já dançou tango com alguém?
Desistiram antes de tentar acertar os passos, de encontrar o ritmo em comum. Algo que só pode acontecer com a cumplicidade do tempo. Não no intervalo de um passo. Dançando tango, entre um passo e outro, Joana soube que todos os castelos construídos eram de areia. Infelizmente teria que arcar com o buraco deixado por uma história abortada. Em sua mão um único grão, que ela teimava em querer explodir, talvez repetir o big-bang, criando outro universo. O grão foi seu sustentáculo na fronteira. Foi o que a impediu de passar para o lado das perdas para sempre perdidas. O grão explodiu, fez-se movimento e Joana começou a dançar.
Assim foi o amor de Joana. Tem seus tons tristes pois, com a mesma urgência que chegou, foi embora. Eles não dançaram juntos. Entretanto, esse amor vivido e sofrido foi essencial para que Joana entendesse o tango. O bom dançarino sabe que sempre haverá uma próxima dança para quem se permitir a entrega.
Joana, mulher que se permite, desejo que sua próxima dança seja compartilhada. Que seja um tango!

5 comentários:

Aline Lima disse...

Ana linda... que coisa mais linda!!! vamos em busca de uma próxima dança! e, que seja um tango =).

glória disse...

Pois é, imagino assim mesmo o amor, um dueto que já vem cadenciado por um ritmo, como que recebendo e sintomizando o encontro. "Para dançar tango você precisa permitir que o parceiro te conduza e muitas vezes as pessoas estão prisioneiras de seus próprios infernos.". Isso mesmo, os que se jogam, se entregam fazem dançar o seus demônios. Bravo Ana! bjs

Mônica. disse...

Movimento! Na vida, no amor e no Tango! Que venha a próxima dança.
Amei o texto, Ana! Um beijo grande em ti. :)

eDu disse...

Sei que não gosta que te chame de professora, pois isso é muito formal. Ok! vou obedecer ao teu pedido, mas não tire de mim o desejo de te chamar de 'mestra'. Percebo agora que nossas aulas de sexta foram como um maravilhoso tango e admito: vc soube me conduzir bem. Às vezes ainda me pergunto se estou preparado para outra dança, ai li essa parte do texto: “O bom dançarino sabe que sempre haverá uma próxima dança para quem se permitir a entrega.”. Juro vou pensar com mais carinho. Por ora vou ensaiando sozinho a minha dança em frente ao espelho, assim, posso já antecipar o passo perfeito quando estiver acompanhado.

Bjo de seu eterno aprendiz...
eDu

Ana Valeska disse...

Edu, já estou com tanta saudade! não some!