domingo, 16 de novembro de 2008

Olhar dançarino

Ela sempre pregava a verdade em seus discursos mas tinha um olhar dançarino e aquele olhar dançarino bailava com as traições. Toda as noites, quando a camada de pele diária caía, fugia para não admitir que ela era a maior mentirosa que já existiu nessa vida, apesar de falar sempre a verdade, pois todas as verdades que dela surgiam vinham da fonte comprometida com uma incomensurável mentira. Sempre soube que era feia e covarde e isso era algo que a incomodava terrivelmente. Veio ao mundo com cara de assustada. Precisava disfarçar essa desgraça de susto com a vida e por isso mentia e mentia. Clara já portava a contradição no nome, pois ninguém mais turvo do que ela. Toda ela uma imensa farsa. Os laçarotes, o sorriso aberto, a cuidadosa maquiagem diária, o cabelo escovado, os saltos cada vez mais altos, a bolsa dourada cintilante, o perfume doce e enjoativo, as gargantilhas de ouro H. Stern. Vivia perambulando pelas vitrines das lojas de grife, endividando-se toda, recebendo elogios das vendedoras, então comprava sempre mais para receber mais elogios. Clara vivia seu teatro, disfarçando a cara envergonhada pela covardia que trazia gravada na alma. O olhar não conseguia fixar nada, bailava como o pêndulo de um relógio antigo, para um lado e para o outro. Cumpria religiosamente todos os compromissos sociais patriarcais, o grupo das senhoras, filhos, marido, a empregada desleixada, o boom anti-rugas X grupo dos senhores, quem é a gostosa da vez, qual o time líder do campeonato, qual o investimento de maior rentabilidade no mercado financeiro. Clara civilizou tudo, transformou sua vida em um grande pasto artificial para ser socialmente decente. Seu olhar parava de dançar apenas no momento do banho quente, quando garimpava seu direito à solidão para receber alguns minutos de liberdade. A água quente na banheira acendia o fogo de seu elo ancestral, como um saber que está na sua mente muito antes de seu nascimento, como uma origem sobrenatural do mundo, como uma fêmea, como uma deusa ou simplesmente como uma mulher. Clara fugia da memória herdada, da ligação arquetípica com a grande-mãe mas seu coração tinha fome de floresta. Lá no centro de seu coração sentia a saudade brutal da selvageria, da entrega, da natureza sem piedade, de embrenhar-se na caçada, sem medo da mata desconhecida. Queria um amor de entrega, de abismo, queria algo real na vida, queria ser bicho mas não tinha coragem e tremia de medo só de pensar e mentia e mentia, conformava-se em ser uma coisa, um ser de plástico, ser um objeto era a garantia de continuar vivendo, mesmo sendo mentira, pois a verdade atravessa a alma com um punhal dentado e rasga tudo por dentro e uma vez na vida Clara soube o que isso significava e fugia dessa memória e mentia e mentia, permanecendo fiel ao olhar dançarino. Tic-tac. Tic-tac.

Um comentário:

aluisio martins disse...

bailei com ritmo cadente de tuas palavras, me afoguei na banheira dos pensamentos e me enchi de coragem de, apesar de tudo, e justo por isso, amar tua Clara, ainda quando escura.