sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Asas em movimento




Os olhos encontraram somente o abismo sem fim. Apenas a queda. Joana caía em alta velocidade, como se estivesse na descida de uma montanha-russa desgovernada, sem carrinho, sem trilhos, sem apoio. Sentia seu corpo caindo, indefeso, abandonado, o rosto alterado pela força do vento acontecendo no escuro da queda. Não encontrou nenhum retalho de luz enquanto caía, seu corpo molhado por fora pelo temporal de dentro ao encontrar o vento frio, adoeceu, gripou, teve febre alta, tosse, delírios, tremores. Seus olhos choveram tanta tristeza que Joana cegou, e daquelas águas, daquele transbordamento absoluto, nasceram outros olhos. Elucidado estava, portanto, o mistério da queda. Não havia enigma, apenas a concessão da súplica. Joana pediu para cair, desejou fervorosamente. Afinal, não quis mergulhar? Ela quis assumir o risco de encontrar a voz das profundezas, seu oráculo íntimo, a sibila, a transmissora da mensagem, a chave do segredo. Joana quis mergulhar no caos de si e lá estava nesse momento. A diferença é que o mergulho fez-se queda. Até que Joana chegou. O movimento deu trégua, a queda cessou. Joana na caverna, no útero, no ventre de si. Joana-fênix. A queda foi a morte, a despedida de sua vida-lagarta. Agora, no centro de sua existência, tecia seu casulo, difícil, delicado, uma casa de cinzas, resquícios de lágrimas, ninho de memórias, baú ainda prenhe de sonhos. Assombrou-se ao perceber a mescla dos tempos, a mistura do que vivia e morria. Devagar, foi decantando o essencial, o que merecia viver. O casulo foi anterior à queda, cair foi libertar-se do casulo, cair para morrer, despedir-se do que não tem mais sentido, conservar o que mantém a coerência com sua essência, para que venha o fluxo que possibilite a ressurreição. O segredo é o caminho, são as asas em movimento. Joana acordou e viu o mundo com seus olhos novos e também viu, um pouco turvo ainda, o bater das asas da borboleta azul que saiu de sua boca.




imagem: obra da artista Kiki Smith

2 comentários:

Joice Nunes disse...

as minhas quedas são vertiginosas
mas sempre me surgem, misteriosamente,anteparos.
mãos que me seguram fervorosamente.
amei o texto.
delicado.
como você,tenho certeza!
beijos

glória disse...

belo que dói, que ressoa, feito eco de palavras reverberando de tempo em tempo. tào bom te ler, é uma benção. bjs