terça-feira, 25 de novembro de 2008

Insensatez


Quase nunca existe silêncio. Sempre sou quase grito...


Ultimamente meus olhos andam chovendo. Não como uma chuva que cai fina enquanto caminho para o trabalho e busco um abrigo próximo para não encharcar a roupa que cuidadosamente vesti. A chuva não chegou com um clima lúdico, como quando era criança e tomar banho de chuva simbolizava alegria. Tenho meus motivos para chorar como barragem que se rompe, um choro com força de dilúvio. Choro como conseqüência da insensatez. Foram tantos amores entrecortados, laços que pareciam firmes desintegrando-se sem nenhum dó das minhas limitações, tudo ruindo, pele, carne e ossos que até as certezas desabaram. Quando as certezas desabam cai o chão junto. O buraco torna-se abismo e nele existem ainda tantas outras certezas, teimosas, inabaláveis em suas convicções, que se perdem, atônitas, na queda sem fim. No sofrimento você tem que lidar com a superação de limites, tentar extrair um resquício de solidez do que despenca ou alguma nota de equilíbrio em meio ao caos. Não nos acostumamos com a crueldade impressa na mais certa de todas as constatações: nada na vida é duradouro. Entretanto, não é esse o problema. A grande tragédia é a insensatez. Você não percebe? Que estamos apressando o que não deveria ter pressa? Esse sol que fugiu de mim, saindo de mansinho, à francesa, deu lugar às pesadas nuvens, que num carrego inimaginável tributaram alagamentos. Não consigo mais achar as pontes que construí com zelo e entrega, a do meu coração, com um singelo “bem-vindo” está submersa pela chuva. Sobreviverá aos estragos? E as minhas plantações? Com o solo tão encharcado e instável? Nascerá algum broto? Crescerá alguma planta? O cenário é dantesco, enxurradas, uma multidão de soterrados, a fúria da natureza que nada mais é do que o atestado da insensatez humana. Eu sou uma cidade que sofre. Eu sou uma mãe que agoniza, pois meus filhos que morreram não precisavam dessa morte. Até quando estaremos cegos pelo mercado? Coniventes com o desmatamento assassino e a queima de combustíveis fósseis? Até quando vamos ignorar que o que acontece no Estado com nome de santa, Catarina, é apenas um anúncio do que está por vir em uma escala maior? No mundo inteiro. Nossos dirigentes são estúpidos, deleitam-se e espalham aos quatro ventos a descoberta de mais um campo de petróleo. Enquanto isso, espero a água baixar, sonhando com um sol que nasça diferente, que clareie a consciência da humanidade enquanto ainda houver tempo. Agora, sou toda grito: clareia, clareia!
Imagem: obra de Camille Claudel, "A onda".

7 comentários:

Joice Nunes disse...

que texto lindo!
você escreveu sobre como eu me sinto às vezes.
beijos

Fernanda disse...

ana!
essa escultura da onda é assombrosa. mesmo pequenina, ao vivo. e qual onda não é?
rezemos, eu digo. você reza?
beijo.

glória disse...

Ana, eu sei que somos tão para além de um lugar que chamam corpo. Uma inundaçào de sentimentos que as vezes nos faz temer o que podemos levar nessa correnteza. É assim mesmo, desconhecemos a palavra pouco, nào temos como represar os amores. Nào temos. Por isso, você e outras como nós sào tào belas e assustadoras. Que seja assim! Nào estamos sozinhas.bjs

ana valeska disse...

Glória, você é linda demais. Sim, não estamos sós, as pontes resistem! não é Joice?
Fernandinha, eu rezo!

Aline Lima disse...

Lindona!!!

Eu tbm sonhand com um sol que nasça diferente!!! =)

VEM NASCER!!!
Bjão em tu.

glória disse...

só as pontes resistem, nossos corpos sabem. pontes de afetos. ai se não fossem elas! que se curvam e se erguem sobre as paisagens mais áridas e insólitas. bejim

mayarafeliz disse...

Pontes são instáveis mesmo assim... Bem frágeis, como tudo que conecta, como tudo que enlaça. É tão sutil...
Pensei: Vamos reconstruir!!!!
Sem lágrimas florzinha, a alegria será nossa força!
Estou aqui, sinto-me sua filha...