domingo, 2 de novembro de 2008

Beleza e tristeza

Pancadas no coração. Movimento. Intenso. Tanto, tanto e tanto que não poderia ser normal. – Meu coração só pode ter alguma deficiência, pensou Joana. Bate rasgando. - É melhor consultar um médico. A batida cardíaca dói demais nas noites de insônia, quando o olhar vigilante fita as estrelas e as sombras da noite entendem que já se anuncia a hora de começar a partida. A sombra vai fugindo aos pouquinhos, devagarzinho cedendo generosamente seu lugar para outro dia nascer, a luz que chega de mansinho e vai dissolvendo a noite, colorindo o céu de laranja, púrpura e verde, até que fica tudo cerúleo e uniforme e vai perdendo um pouco a graça. Joana gosta mesmo é de contemplar os minutos da transformação do dia em noite e da noite em dia. Joana gosta do movimento. O sol que nasce, que parece nascer, só existe por causa do movimento. Outro dia foi ao enterro do pai de uma amiga. A família da amiga aos prantos, "ele deveria ser um bom pai", pensou. Solidarizou-se com a perda, mas o ritmo do coração parecia normal, nada de punhal atravessando a carne de dentro. O padre rezou a missa, desespero da família, lacram o caixão. – Sei o que é isso, já enterrei gente demais! Comenta uma senhora gorda ao lado dela. - Essa sempre parece ser a pior hora, pois a gente ainda fica querendo se agarrar àquele corpo que já é um corpo sem vida. A pessoa não está mais ali. As pessoas caminhavam seguindo o carrinho que levava o caixão, até que pararam no local do túmulo, muitas flores coloridas e tristes, mas o céu! O céu escolheu ficar lindo num dia triste. Beleza e tristeza podem caminhar juntas? Joana nunca tinha visto um céu tão espetacular. O azul que findava mesclava-se com laranja, ocre e carmim, em pequenos fragmentos de cor, preenchendo em retalhos uma perfeição de mistura no firmamento que nunca nenhum artista nessa vida conseguiria repetir. E então chega o punhal no coração de Joana, não um, muitos, tantos quanto as cores que se manifestavam na despedida do dia que também era a despedida daquele pai. Joana chorou muito, o coração sangrando, apertado no peito, as pancadas tão agudas, uma dor tão fina que beirava a agonia. Aquelas cores atravessavam o olhar de Joana com a violência de uma barragem que se rompe. Com a violência que tinge a despedida de um ser amado, com a força do amor que transforma céu em arte. Tanto, tanto, tanto.

Um comentário:

aluisio martins disse...

Um olhar criança, portanto artista, busca o que a vista não alcança. Não quer dizer que se desista. Graças em movimento. E as palavras? Ludibriam o esquecimento de ser criança - artista.