sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Vamos para a Capadócia?


Grande feira esse mundo e de tudo se vende. Inclusive prisões. Grades, correntes e mordaças. Será por isso que venho sentido essa mudança em você? Teus olhos grandes estão ainda maiores porque tristes. Transbordam porque clamam. O que petrificou tanto teu movimento? É quase tudo rigidez na tua face, apenas o olhar denuncia o que acontece nos espaços ocultos do teu ser. A Medusa que te atingiu deixou escapar um ponto de fuga: a linguagem do teu olhar. Olhos de estranha ânsia. Pulsantes. Dizem que os olhos são as janelas da alma não é? Os teus andam falando muito e neles vejo portais. Entre. Saia da onda. Liberte-se da rotina e faça aflorar a poesia, que é teu reino. Um título não te cabe, meu amor, será sempre inadequado para o teu tamanho. Honras e homenagens também, se você acreditar nessas bugigangas tua vida fica um desconforto inenarrável. É tudo falso. São pedras de vidro. Quebram fácil em milhares de cacos que podem te ferir. E eu sofro tanto ao te ver seduzido pelas vaidades das sombras do poder, elas te roubam de ti e depois cospem sobras como se fôssemos lixo. Não percebes o jogo perverso? Essas tolas convenções sociais nos vêem descartáveis. Gente não é coisa. Arranque a máscara que te fizeram crer necessária. Chame a tua reserva selvagem. De vez em quando sinto frio e quero o calor do teu abraço real. Venha, me abrace e sejamos poéticos no nosso viver. Ser livre não pode ser apenas uma ameaça, um quase lá ou um talvez algum dia. Há tempos venho sonhando em conhecer as paisagens lunares da Capadócia, lugar de São Jorge, que domou o dragão. Lá tem muita pedra e a vida se infiltra pela terra como semente, mas quando levantamos o olhar sempre podemos ver balões coloridos em um lindo céu azul ao florescer de cada manhã. Teus olhos precisam dessas paisagens. Ver os balões passeando, como se zombassem, risonhos, de nossos medos: viu, bobo? É possível viver colorido! Então, vamos para a Capadócia?

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

ser pessoa

Hoje é dia de ser pessoa.
Ser pessoa é ser no tempo das paisagens, artesão de cores de gente-luz.
Ser pessoa é ser encanto encontrando em contrastes paisagens em passagens de música cor e laço que entrelaçam no olhar a linha da pulsação do sentimento.
Hoje é dia de caminho do coração que conduz cultura e memória para onde mora o momento único no tempo que tem ao mesmo tempo todos os tempos.
Ser pessoa é ser paisagem povoada paisagem solitária presença que quando ausente é sempre presente.
Ser pessoa é ser caminho de terra água ar fogo lua e sol materializado em passos e mistérios que se descortinam por dentro no percurso do viver.
Ser pessoa é querer povoar espaços habitar navegar caminhar unir tecer cores amores formas texturas afetos sabores odores aromas frescores e melodias.
Ser pessoa é ser tradução de experimentar ser no mundo humano
viver crescer aprender para ser
pessoa.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Tempo presente


Vida de gente é ser andarilho – busca – por – fora – busca – por – dentro.
Quase sempre é um desassossego, essa busca mundana pelo fundamental da vida que se esconde.
Algumas vezes é equívoco: situamo-nos como passageiros da vida dos outros.
Muitas vezes é atropelo e decepção: buscamos por fora o que só tem por dentro.
Outras vezes é fuga e mistura: passado e futuro furtando o momento, pensamento escorregando, viajando, fugindo de desfrutar o agora.
O bom da busca é a vez do encontro.
O maior presente do tempo é o tempo presente.
imagem: obra de Salvador Dali

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Para habitar um lugar profundo


Todos temos uma história e uma pré-história.
Portanto seja vigilante.

Para habitar um lugar profundo,
você precisará nadar contra a corrente.
Sem pressa e com persistência.

Portanto caminhe.
Para ser íntimo da vida busque o inimaginável.
Um segredo te espera.

Caminho: aceitar desertos e povoar vazios.
Obstáculo:um por quê sem resposta.
Habite os por quês.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Rap e gênero por uma cultura de paz

Ano passado participei do programa Por Uma Cultura de Paz, da rádio universitária, conduzido por um ser lindo, chamado Marta Aurélia. Na ocasião estava divulgando o lançamento do meu livro “Pulsão Irrefreável – Arte Contemporânea no Feminino” e tivemos uma conversa maravilhosa sobre a questão de gênero nas artes visuais e na sociedade.

Hoje participarei novamente do programa, dessa vez num bate papo interessantíssimo com as rappers integrantes do grupo Mira que fazem parte do Movimento Hip Hop Organizado do Brasil, o MH2O ( http://comunidadehiphop2.zip.net/ ): Fabiana Carvalho, Ana Cristina Sousa, Onara Inácio e Gécyca Lima. “MIRA, além de carregar os significados imediatos registrados em dicionários, aqui é uma sigla que significa Mulheres Informadas Revolucionárias e com Atitude. Feministas, as garotas têm a palavra como meio de atuação artística e conquista de espaço e direitos, especialmente no próprio movimento hip hop”(texto de divulgação do programa).

O programa Por Uma Cultura de Paz vai ao ar às 15 horas, transmitido pela rádio universitária.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Vida acontecendo




Já vi a vida como passageira de trem, observando os instantes, tecendo costuras em meu plano mental pelos emaranhados das paisagens fisgadas através do colorido das janelas.

O trem seguia e eu via a vida acontecendo pela janela.
Vida tecida em momentos.
Em partes.
Partida.
Será a vida um relance?
Um olhar de soslaio?
Um retalho?
Não.
Vida é sentimento.
Por querer ser mais do que apenas observadora da vida, pulei da janela do trem.

Fui brincar de viver.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Marina



Observando a desordem generalizada no país que a terrível mescla de economia neoliberal e política idem faz transbordar para nós, de vez em quando invade meu imaginário um tipo de vislumbre-pesadelo.
Caminho, caminho e os pés ardem de tanto pisar no árduo chão. Deserto. Tudo é uma secura só. A vida agora é busca incessante por umidade nos emaranhados de ranhuras da Terra. Tenho sede e sinto saudade do colorido verde, do aconchego sombra, da carícia brisa e do encantado canto dos pássaros que costumavam pousar por aqui.
Mas de repente acordo em outro lugar e percebo que fui fisgada por novos vislumbres. Meu coração, o do pulsar coletivo, bate inquieto. Começou a esperançar novamente. Que ritmo é esse? Ah, é como a semente rompendo invólucros barreiras obstáculos e crescendo, crescendo, criando alicerce firmeza estrutura, é movimento-raiz, é movimento-árvore, movimento-sonho, movimento-menino, movimento-sensibilidade, movimento-vida, movimento que multiplica movimento e faz do um muitos seres sementes brotando crescendo florescendo rios conchas mares vôos borboletas cascatas fres-cores beija-flores na alegria de ser natureza.
Coração acelerado para acreditar no sonho coletivo, Marina, sou mais uma pessoa tocada pela emoção do anúncio da tua possível candidatura para a Presidência da República.
Sonhando que assim seja.
Um abraço.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Te perturba esse amor?

Talvez não mais per-tur-be. Incomoda. Cria, ainda, certas ansiedades. Isso se dá por querer-te novamente perto e o movimento do encontro apresentar tantas dificuldades, sempre uma promessa, um quase, um entre, um talvez. Sua presença na minha vida, meu amor, foi recheada de tanta espera, e faz sempre meu passado ser rememorado, memória destilando memória, porque sempre no sumo, na essência, no extrato de tudo, existe você transbordando em minhas ações presentes, em meus esbarros, incompreensões e tentativas de recomeço. Quero me lançar em seus braços, falar tudo o que o tempo silenciou, proclamar meus afetos, tantos, por tantos anos sufocados, por-tanto. Tanto, tanto.
Meu querer é forte e agora me coloquei neste desafio de abrir novamente o coração para você, procurando afastar as amarras criadas e grudadas na tola imagem ideal que fiz de ti, você não é desse tipo que se lançará em meus braços, então vou já corrigindo a expectativa, melhor, vou engavetar esse universo de sonhos que teci para nós dois. Quero você possível no meu sentimento e isso significar aceitar você como você é. Não é fácil pra mim, como você, romantizo muito a vida. No possível de ti, doeu você não querer me ver no domingo. Que idéia boba foi aquela de ficar trancado em um quarto de hotel escrevendo discursos? Hoje é o dia que você irá apresentá-los não é? Espero que pelo menos tenham te agradado. Mas não fujamos mais de nós, nossa história ainda é possível. Como na música que você gravou pra mim há duas décadas, ainda no tempo da fita k7, creio que não cabe mais a pergunta ¿Te molesta mi amor? Mas, na mesma força da música, vamos criar um destino apto a tornar nosso amor maior e melhor.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O que vejo hoje?


Segunda-feira vem com força de começo.
Um começar que indaga: o que vejo hoje?
Alegoria da Caverna, Matrix , Ensaio sobre a Cegueira, “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”, nos aconselha o Livro dos Conselhos. Quantos já falaram, anunciaram, avisaram que estamos cegando, míopes ainda ou já completamente cegos? Em cegueiras escuras ou leitosas andamos a nos arranhar e esbarramos pelo caminho.
Filosofia chinesa, yin e yang, taoísmo, Heráclito, Pascal, Buda, Kant, Leibniz, Spinoza, Marx, Jesus Cristo, Joseph Campbell, Freud, Edgar Morin (esse rol está longe de ser exaustivo), os aqui citados e tantos outros seguem anunciando sentidos, lançando luzes em nossas cavernas e quais as lentes que escolhemos? Normalmente uma que nos permite ver apenas um quadradinho bem pequenininho: a lente do consumo.
Essa é a lógica do saber reducionista, que, por exemplo, isola as emoções do trabalho científico e fomenta um olhar de consumo irresponsável, faz criar um sentido de realidade baseado no dinheiro e no poder como os caminhos que nos conduzirão para o encontro com a felicidade.
A fragmentação do olhar impede de ver a linha que costura os sentidos no tecido de nossa vida. A realidade mutilada cria a ilusão de que estamos mais lúcidos, enquanto cegamos para uma visão sistêmica da existência.
Falar em refugiados ambientais não é novidade para os brasileiros, principalmente para quem nasceu e teve que lidar com a realidade do sertão nordestino. Mas o que está acontecendo um pouco distante de nós, com os habitantes do Atol de Carteret é um anúncio do que está por vir em proporções bem maiores. Durante décadas a população residente lutou contra as águas que subiam e engoliam devagar a vegetação e as casas dos moradores. Agora, não tem mais como administrar o resultado do aquecimento global, das alterações climáticas. A única solução é ir embora enquanto é tempo.
Quantos desertos teremos que atravessar para ver o óbvio? Quantas enchentes teremos que enfrentar? O quanto a lógica do consumo tapa a nossa visão e sabota a nossa sensibilidade? Se nos embrutecemos, como, realmente, viveremos? Não tem saída: a humanização das relações sociais passa pela sensibilidade de um olhar que perceba que os fios de nossas construções, as linhas que utilizamos para construir nosso conhecimento, nossa vida, nossa história, deveriam servir para construir um olhar apto para traçar uma trajetória a nos enlaçar uns com os outros pelas linhas do afeto e conduzir também para uma relação afetuosa com o planeta que nos abriga.
Ainda existe possibilidade de cura para nossa cegueira coletiva. Muitos estão passando a enxergar melhor. Então, te pergunto, o que você vê?

Obs: O Atol de Carteret forma um conjunto de seis ilhas pertencentes a Papua-Nova Guiné. Os 2.600 habitantes do atol deverão ser retirados do local, (a transferência das famílias já começou) pois a previsão é que em 2015 o atol estará totalmente submerso.

Imagem: filme “Blindness”, com direção de Fernando Meirelles e baseado no livro “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Em cumplicidade com a Lua


Ontem caminhava em direção à entrada da Fanor, a aula em breve começaria. Vi a lua imensa e sorri satisfeita: “entramos na fase da Lua Cheia!”.


A Lua estava linda, poderosa, clareando a noite.


Os estudantes passavam por mim apressados, como de vez em quando parece passar o tempo que eu quero agarrar, como o tempo daquele momento em cumplicidade com a Lua. Ninguém parecia perceber a presença da Lua iluminando nossas histórias. Sempre me surpreendo porque as pessoas não prestam atenção em como é bonito olhar para o alto, ver o movimento constante da vida. Ver o sol dissolver as sombras da noite, sentir o poder do sol aquecendo o dia, ver as cores únicas aquarelando o céu de turquesa, laranja e rosa quando o astro-rei se despede para iluminar outros cantos do mundo. Também ver as luzes da noite, a Lua, as estrelas. Vi a Lua atravessando signos, percorrendo planetas, alterando humores, percepções, como é magnética a Lua! eleva o nível das águas, o tempo muda, nascem mais bebês na Lua Cheia.
Como a aula da disciplina Teoria Geral do Direito trata, na grade curricular da Fanor, da História do Direito, como aula inaugural falarei sobre o Direito nas sociedades ancestrais. Vendo a Lua Cheia como estava, foi natural me conectar com a força da ancestralidade, com o sentido do mistério que envolvia a vida dos seres humanos que habitaram a Terra muito antes de nossa presença por aqui. Lembrei do sentido da Lua para os sumérios, hebreus, budistas, pensei nas luas dos Maias e, na realidade, enquanto refletia sobre as múltiplas percepções da Lua nas mais variadas culturas e tempos, pensava também no movimento da vida, na construção das normas em sociedade, nas possibilidades de produção de sentido e em como o Direito foi ganhando espaço, estruturando a vida em coletividade e em como é fundamental ter uma re-conexão com nosso sentido ancestral, de mistério de mundo, de olhar para cada dia como se fosse a primeira vez, porque de fato, é. Sei que não é tarefa fácil em nossa tão tecnológica contemporaneidade repleta de brilhos de falsos brilhantes. Enquanto refletia fui abrindo tantas portas, até que chega o momento que temos que dar uma pausa, pois, no meu caso, ouvi um chamado:


- Profeeeessooooora, tá na hora da aula!


Um beijo carinhoso para você.


Imagem: obra de Marc Chagall

terça-feira, 4 de agosto de 2009

O desafio da complexidade na sala de aula

Senti que as aulas começaram realmente ontem. A sala estava LOTADA. Não é fácil administrar a harmonia em uma sala de aula lotada. Além disso, o tema inicial da disciplina de Ciências Humanas e Sociais era um tanto árduo para quem nunca refletiu sobre ele: pensamento complexo.

Sei que não é fácil colocar um questionamento mais incisivo sobre nossos padrões de pensamento, afinal nós estamos acostumados com eles, é familiar, é cômodo!!! Fiquei falando um tempão sobre como a herança cartesiana nos tributou um modo específico para pensar e incentiva em nós uma visão passiva do mundo, esperando receitas prontas. Queremos respostas definitivas. Isso é cômodo, aparentemente facilita nossa vida, mas é importante atentar: também nos limita. Instiguei os integrantes da turma:
- Queremos limitar nosso processo de conhecimento ou queremos abrir novas possibilidades de sentido, desafios e motivações para o nosso pensar?

Argumentei que nesse sentido, a complexidade trata justamente daquilo que o pensamento mutilante não alcança. Edgar Morin alerta que, “se tentamos pensar no fato de que somos seres ao mesmo tempo físicos, biológicos, sociais, culturais, psíquicos e espirituais, é evidente que a complexidade é aquilo que tenta conceber a articulação, a identidade e a diferença de todos esses aspectos, enquanto o pensamento simplificante separa esses diferentes aspectos, ou unifica-os por uma redução mutilante.”
Que tal dar uma chance para pensar relacionalmente? Ter uma percepção de si e do mundo mais integradora?
Ontem, no final da aula, um aluno questionou se minhas aulas seriam “sempre daquele jeito”, pois ele não tinha “entendido nada”. Imediatamente pensei: lógico que não! Em seu questionamento, ele buscava respostas conclusivas no final da aula, queria levar conceitos prontos. Expliquei para ele que essa é a herança cartesiana, coloca a realidade numa fôrma, que o pensamento complexo sugere um método mais abrangente de leitura de mundo e que ele, instigado pelos questionamentos na sala de aula, poderia refletir melhor sobre seu próprio mundo e por esse percurso criar sentidos, perceber novos horizontes.

Pelo semblante, não gostou da minha resposta. Vamos ver o que acontece durante o semestre.
Afinal o próprio Morin reconhece que pensar a complexidade é um desafio.

Abraços a todos.