sábado, 31 de janeiro de 2009

Aniversário 20 anos vida e arte

Durante 7 dias (25 a 31 de janeiro) o caderno vida e arte do jornal O Povo trouxe obras de 7 artistas visuais, cada dia uma obra abria o caderno. A sequência foi essa:
  • Siegbert Frankiln
  • Eduardo Eloy
  • Maíra Ortins
  • Ana Cristina Mendes
  • Herbert Rolim
  • Marina de Botas
  • Grupo Acidum

Fiz a curadoria dessa "exposição em papel jornal". Fazer curadoria não é fácil, pois a escolha sempre deixa de fora gente muito boa. Incluo abaixo o texto de encerramento da proposta, que circulou no jornal de hoje.

Relógio, movimento, compromissos. Vivemos tão presos ao tempo! Mas hoje parei um pouco. Para lembrar de um encontro. Aconteceu em um dia comum, desses que a contemporaneidade tributa, repleto de tarefas a cumprir. Entre um compromisso e outro caminhava pelas ruas de Fortaleza e, de repente, diminui o passo. Estava apressada como normalmente as pessoas estão, mas o que eu via valia a parada. Foi a primeira vez que encontrei a arte deles. Um encantamento invadiu meus olhos e aquelas imagens começaram a me habitar, conseguiram passar algo muito vivo e intenso, algo que a arte sabe fazer: despertar mundos dentro da gente. No intervalo entre um passo e outro, vi pela primeira vez o trabalho do grupo Acidum, nos muros do Centro de Humanidades da UFC. Não entendia quase nada sobre estêncil, stickers ou grafite, mas não importava, pois o principal na arte não é entender, o que verdadeiramente importa é o sentir. Com a lembrança desse encontro fechei os olhos e ganhei asas. Percorri outras terras e em meus caminhos estavam palavras, poemas, vivências e sonhos nos desenhos de Maíra Ortins. Mergulhei no universo da artista como quem se aventura em uma cidade invisível de Ítalo Calvino, disposta a me perder para poder achar o que é preciso achar. E assim, entregue às linhas dos traços de Maíra, entrei no sonho de Ana Cristina Mendes e meus olhos marejaram enquanto sentia a agulha furar o tecido. Afinal, aquela ruptura de pele, necessária para possibilitar o caminho das linhas no tecido era uma pequena violência, mas era fascinante, pois falava de profundidades, falava dos caminhos da vida. A arte pode ser um fio que direciona os passos no labirinto de nós mesmos e o trabalho da Ana Cristina tem a força da energia do movimento tecendo caminhos. Continuei seguindo as linhas de Ana e encontrei o impacto da obra de Marina de Botas, artista inquieta que questiona estereótipos, evidencia o incômodo embutido nos padrões de normalidade, realiza performances irreverentes com seus vestidos longuíssimos e, ao mesmo tempo que cria performances fortes, tem uma linguagem poética que ganha vida e encantamento no traço do desenho ressaltando a inquietação da sua porção anima. Os desenhos de Marina me levam a um universo híbrido, deparo-me com os seres criados por Herbert Rolim, pesquisador incansável, que realiza alquimias, dilui fronteiras erguidas pelo racionalismo humano, experimenta, descontextualiza, mescla mundos e cria um universo orgânico, um corpo híbrido, antenado com as relações entre o humano, a natureza e as novas tecnologias. Um fio da obra de Herbert me encaminha para Siegbert Franklin, artista de cores próprias, técnica apurada e entrelaçamentos férteis entre memória e coração. A obra de Siegbert tem poder de fala porque carrega a autenticidade de quem se arriscou a percorrer todas as profundidades do mundo da arte e então, com naturalidade, ele abre as portas do sonho, e sabemos que os sonhos carregam chaves para as portas que precisamos abrir. Um universo onírico também está presente na obra de Eduardo Eloy, artista de importância incontestável na formação de outros artistas, mestre da gravura que garimpa em seu imaginário seres fantásticos. A arte de Eloy estabelece conexões com a vida, tornando o impossível possível, dando forma e cintilância ao papel com a intervenção de ácidos, buris, goivas, rolos, tintas e softwares. Abro os olhos e sinto que existe uma linha que nos entrelaça, todos nós, e as linhas da vida quando se encontram com as linhas da arte despertam na gente vontades irrefreáveis, às vezes queremos pintar sonhos, em outras derramar lágrimas ou exibir um sorriso farto com a alegria de quem aniversaria e tem nome de encontro: vida e arte.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Sapato fechado


Hoje são pequenos desabafos.
Eu me angustio, confesso.
A vida nos obriga a enfrentar pequenos (de vez em quando grandes) golpes de brutalidade. Ou melhor, pisadas.
Hoje fiquei lembrando das palavras do Ernesto Che Guevara "O capitalismo é o genocida mais respeitado do mundo."
Eu me angustio com alguns pensamentos que me doeram hoje feito unha que encrava e faz inflamar a carne. Você caminha, por que dizem que você não tem tempo para parar, mas a dor vai ficando aguda e você começa a mancar e tem que trocar o sapato fechado por outro aberto, pé também precisa respirar.
Seu pé respira? Por onde você anda pisando com seus sapatos fechados?
Recebi o convite para a entrega do prêmio CNI SESI “Marcantônio Vilaça” artes plásticas 2009/10. Não fui. Disseram que foi uma festa de arromba, cheia de artistas, apresentação do Zeca Camargo, show do Fagner e coquetel farto, como “Fortaleza não costuma ver”. Pensei: ainda bem que não fui!. Sapato fechado.
Fico me perguntando por dentro por que entre os artistas não existe um questionamento mais fluido sobre os mecanismos de legitimação extremamente atrelados aos preceitos de mercado. Estão cegos? É lógico que são freqüentemente muito cruéis. Por que não questionam mais as regras? Isso me angustia profundamente. Sei que todos nós estamos (pouco ou muito) comprometidos com o sistema. Mas porque a boca fechada, meu povo? Li algo no livro do Cristóvão Tezza como “gado balançando a cabeça e contemplando”. É bom ter cuidado com as ilusões. O tecido é imbricado, e, às vezes, teu sapato pode pisar pesado demais, de uma maneira tão eficiente que até tua unha se acostuma e nem encrava mais. E a unha encravada, a dor, afinal, é necessária porque nos chama para a nossa humanidade.
Então lembrei dos golpes grandes, das dores desnecessárias porque exterminam a humanidade, das mulheres que morrem nos crime passionais, do consumo de crack crescendo, de Israel utilizando armas de fósforo contra a população de Gaza, (inventaram agora uma arma nova um tal de flechettes, que a minha unha lateja demais quando leio seus efeitos e não tenho força suficiente para descrever aqui). Lembrei dos arrepios que sinto quando vejo o Lula fazendo discurso do capital-extrema-direita (divisão esquerda-direita, coisa que o Brasil nem tem mais, tudo tão igual que dá calafrios) e tanta coisa que, por hoje, basta.
A hipocrisia se abancou sem dó nem piedade da carne das nossas unhas?
Dos artistas ao presidente, Che tem razão, afinal.
Que uma unha encrave, de vez em quando.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O relicário de Ana Cristina


O que você está fazendo?
Um relicário imenso deste amor
Nando Reis




Corpo, ritmo, movimento, peso, leveza, dança, batimentos cardíacos, pele, suor, movimento, ritmo, movimento, corpo, corpo-artista, 1, 2, 3, por hoje é só, vamos relaxar. No finalzinho da aula de dança, Ana Cristina sempre garimpava o melhor cantinho da sala. Seguia os instintos para relaxar, por isso procurava os cantinhos. Tinha sede de aconchego e buscava por ele com a determinação de quem consegue retirar todos os véus da saudade. Sentia saudades de relíquias. O cantinho era acolhedor e convidativo como eram os ninhos berços úteros. Ela sempre queria ficar mais, no escurinho, entregue à entrega. E assim, com os músculos exaustos mas inteiramente relaxada, achava-se transportada às coisas, à meninice, ao som dos trovões e da máquina de costura Vigorelli de sua mãe, ao recortes de pano, achava-se novamente entregue ao olhar penetrante da criança de poucos falares, que vivia escondendo-se atrás da porta e queria muito entender o interior das coisas, saber como aconteciam as coisas, desfiava os tecidos para entender a trama das linhas, para compreender os caminhos e alquimias das linhas da vida, para saber como as histórias das pessoas eram costuradas. Com o deslumbramento de quem sente um grande amor pulsando inquieto no peito, ela queria saber.
E então, no cantinho, como se estivesse devolvida integralmente às lembranças esquecidas, as vivenciava com todos os detalhes e a nitidez do agora, do momento presente. Soltava a mão da mão da mãe e corria livre pelos corredores das lojas de tecido, encantava-se com as cores dos rolos, vistos de onde ela estava assemelhavam-se a prédios e ela sentia que estava em uma cidade multicolorida. Agarrava-se às pernas da mãe que pedia recortes de fazenda ao vendedor da loja, 4 m de tafetá azul, 3 m de algodão liso verde, 4 m de brocado branco, 3m de linho creme, por hoje é só e sorriu farto porque viu a performance do vendedor, em segundos sacava o rolo da prateleira, media e cortava os tecidos com uma tesourinha-bem-pequenininha e colocava os recortes em pacotinhos que ela gostava de abrir quando chegava em casa e entregar para a Marleide costurar. Ficava observando a costura por horas, os movimentos repetidos, coreografados, a escolha dos botões, as cores das linhas, o preparo dos bolsos, o pé no pedal auxiliando as mãos e a máquina a unir pedaços, os pedaços de tecido que a máquina juntava. E sentiu, bem no cantinho de suas profundidades mais profundas a intensidade da emoção que entrelaça memória e coração, dessas que só chegam em momentos de repouso enraizado e foi assim que nasceu o relicário, com cúpula de metal prateado, como as agulhas e alfinetes de sua infância; e alto, bem alto e colorido como são seus sonhos, linhas e tecidos, como relíquias em pedaços, mas que ela poderia juntar com o zelo que os detalhes merecem, quando pedem a delicadeza das mãos, alinhavando, arrematando, alisando, abotoando, acolchetando para dar firmeza, para dar firmeza e delicadeza ao seu corpo-artista.

imagem: detalhe da obra de Ana Cristina Mendes, "relicário", (tecidos, aviamentos, cúpula de metal), 8 m x 50cm, 2006.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Mergulhando em outros mundos: Ana Cristina Mendes




É preciso ser leve como um pássaro, e não como uma pluma.
Paul Valéry

Todas nós temos anseio pelo que é selvagem
Clarissa Pinkola Estés



Shakespeare já andou afirmando que existem mais mistérios entre o céu e a terra do que pensa nossa vã filosofia. E eu ultimamente ando mais aguçada nessa arte, observando os mistérios de mim mesma, desconstruindo sabedorias que me limitam para encontrar rumos mais autênticos. Minha própria sabedoria. Meu mundo orgânico e vivo. Pulso demais. Quero viver. Mesmo que assuste ver uma mulher vivendo consciente de suas autenticidades, opto pela vida.
Nesses caminhos encontro umas almas gêmeas, pessoas que me tocam profundamente. É bom saber que não se está só na tessitura dos fios dessa história. Aconteceu um encantamento quando encontrei a arte da Ana Cristina Mendes. Não deixa de ser um encontro de vida, pois a arte e a vida são mundos que se misturam o tempo inteiro, tudo é simbiose, e é tolice querer colocar as linguagens da arte apenas no cubo branco. É querer encaixar o que não se encaixa. Ana Cristina conseguiu a conexão. Os textos que vou postar sobre o trabalho da artista são uma interpretação livre, é o meu mergulho em outros mundos.

Era um dia lindo de sol forte. Um passarinho pousou na janela do ateliê de desenho. Sala lotada, os colegas um pouco angustiados com o desafio de ter que desenhar a figura humana. Ela também estava. Ana Cristina viu o passarinho na janela e lembrou da citação de Paul Valéry. Queria voar, ser como o passarinho, mas seu corpo pesava demais. O corpo pesava porque carregava uma força contida. Um peso estagnando o corpo. Sempre soube dessa coisa oculta. A coisa da força. Forte como um filho selvagem. Sim, carregava um filho da floresta, das matas virgens, dos seres primordiais, dos tempos imemoriais, cujo período de gestação não sabia precisar, 1.000, 10.000, 20.000 anos? Qual o tempo de nossa herança? Está gravado em nós tudo o que foi vivido antes? Ela tinha vontade e medo. Desejo de conhecer a memória herdada e um certo medo do que seria revelado. Ela sentia que o corpo acolhe a sabedoria do mundo. Ela sentia que o filho que vai nascer é um filho cósmico. Ela tinha vontade e medo. Mas teve coragem. Criou asas. Saiu da casca. Escolheu cores escuras, cores de depósito, antigas como a humanidade. A composição que ganhava corpo parecia ser o contrário do que ela era, tão leve e luminosa. Mas sua leveza anterior era como pluma. E no peso de seu contrário parecia estar o segredo da liberdade e a real leveza das asas do pássaro. Justamente no seu ser negado.

Doeu, mas pariu. Nasceu Eu.

- Como assim Eu? Mas essa não é você. Você é linda!

Sim, é parte de mim. Sou eu também. Já afirmava seu ser com um breve sorriso e a serenidade dos sábios. Em outros tempos talvez não assumisse. Sabia que a feiúra do filho selvagem desagradaria, e nela antes havia o desejo de agradar, de ser amada por todos. Mas não importava mais. Estava livre dessa prisão. Precisava ser vista além das estéticas, expressar seu eu oculto. O chamado da força da vida é maior do que as convenções. Ela não é uma princesa estereotipada. Não quer viver constantemente se desfolhando sem se mostrar, fazendo ramalhetes artificiais de si. Não. A estética dos adornos é dura demais. Os encaixes limitam a carne e ela quer dançar, como quando era criança e rodopiava, corria, ficava na ponta dos pés. Fechava os olhos e cantarolava uma melodia que só existia nos ritmos de sua cabeça. Rodopiava. Caía tonta. Ria de suas invenções. Maravilhava-se com a descoberta do poder dos movimentos. Repetia coreografias. Caía, caía, para ver o teto ganhar vida e dançar também. Viver é descobrir mundos novos, sempre.

Eu nasceu e dentro dela acordou a criança adormecida. Desde então soube que seu mundo nunca mais seria o mesmo. E mergulhou para poder voar no universo de possibilidades de seu corpo-artista.
E eu embarquei nessa viagem junto com a Ana Cristina. A arte faz isso com a gente, né? O próximo post falará de uma genealogia. A construção do relicário.


imagem: "eu", Ana Cristina Mendes (2005)– Gouache s/ papel - 215 x 120 cm.
(Menção Honrosa XIII Unifor Plática)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

As chaves de casa (parte 3)


A rua era um breu só. Acendeu a luz interna do carro, verificou o endereço no cartão, viu que estava correto. Aquele era o local. A casa do chaveiro. Muro baixo descascado, um gramado seco, sem cercas, sem grades. A escuridão da rua fez palpitar o coração. Nunca teve medo de escuro, mas a vida nas grandes cidades vai paulatinamente injetando um tipo particular de temor. Penetra de mansinho, em doses miúdas, para que nos acostumemos com ele, como se fosse natural que a qualquer momento alguém chegasse para arrancar nossas posses, das mínimas às mais preciosas. As pessoas reclamam, mas estranhamente compactuam e contribuem com a ordem imposta. Andam desconfiadas, apressando o passo, se esquivando pelas ruas. As janelas dos automóveis fechadas. Gente com medo de gente. Gente consumindo. Gente ficando hipócrita. Gente ficando corrupta. Gente que, de repente, não é mais gente. Ela sempre estranhou a naturalidade que as pessoas colocavam grades e cercas nas casas e prédios, pareciam até felizes construindo prisões para si mesmas. Para Joana doía constatar: os muros de casa cresceram junto com ela, não é mais possível pular as janelas e estas agora somente permitiam ver o jardim atravessado pelos ferros das grades. Será que crescem grades por dentro das pessoas como crescem por fora? Era uma pergunta recorrente em suas reflexões.
Resolveu enfrentar o medo. Atravessar a rua escura. Era exatamente meia-noite. A hora que as carruagens viram abóboras e o vestido da princesa se torna um trapo qualquer. A hora da transformação. O portão pequeno de ferro não possuía cadeado. Abriu e entrou no jardim da casa. Um jardim ressecado. As flores pedindo-água-pelo-amor-de-deus. Censurou o chaveiro sem o conhecer. O jardim já anunciava sua falta de cuidado. Na porta de entrada apenas uma luz tênue saía do muro, auxiliando a visão. Não havia campainha. Joana bateu palmas, depois fez um toc-toc na porta. Estava aberta. Com o coração aos papoucos, entrou na casa. Começou a tremer. Tudo indicava que ela estava ou em uma situação de extremo perigo, ou estava naquelas horas de grandes achados. Mas não recuaria, de onde estava era impossível voltar.
Uma sala. Um móvel antigo de madeira escura. Abriu uma gaveta. Cheiros deliciosamente familiares tomaram conta de tudo. Manjericão, alecrim, hortelã, artemísia, camomila. Ervas guardadas em potinhos de vidro, que você girava a tampa e o cheiro subia. Cheiro de família. Sentia como se estive no fundo de algum sonho. Uma gaveta-num-móvel-antigo-guardando-ervas-para-chá-idêntica-à-que-sua-avó-tinha. Caminhou pela sala, relógio de pêndulo, aparador com vidros coloridos, discos de vinil, piso de taco, cadeira de balanço de palhinha, sofá de couro marrom, piano do final do século XIX. No quarto, um carpete verde, cama de solteiro, bonecas de pano e uma caixinha com bonecas de papel. Não resistiu. Escolheu uma, pegou uma roupinha para ver se encaixava bem. Dobrou vários papeizinhos e quando percebeu, deixou as bonecas vestidas. Um baú com fotos antigas, um vestido de batizado. Conhecia as pessoas das fotos. De vez em quando ouvia sons, passos alheios, mas tudo tão suave, tão suave... Uma porta. Um quarto repleto de chaves, como o Claviculário da Elida Tessler. Percebeu que cada chave contava uma história. Viu passado e futuro entrecruzarem-se no momento presente. E então viu que chaves também choram. E riem. E viu que o quarto de chaves era a sua própria vida. E que estava em casa. E viu que a casa, o quarto, a sala, a cidade, as pessoas, tudo estava dentro dela. A luz e a sombra. A noite e o dia. Juntos. Viu o Feitiço de Áquila desfeito. Viu o sol e a lua dialogando. E percebeu que o chaveiro era ela. E que as todas as chaves estavam em suas mãos para que ela se conhecesse, para que ela se conhecesse.
Procurou por água. Precisava urgentemente regar o jardim.


imagem: "Claviculário", obra da artista Élida Tessler.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

As chaves de casa (parte 2)


Joana desceu as escadas com a indignação estampada na face, criando uma marca funda entre as sobrancelhas. Teria que ir sozinha resolver o problema, a mãe de Olívia começou a passar mal e a filha recebeu o telefonema com a notícia e saiu correndo para acudir, lógico que ela correu para acudir, afinal, mãe é mãe, pensava Joana numa espécie de auto-conformação. Enquanto descia as escadas pensava em como seria chegar no chaveiro sozinha àquelas horas, já era quase meia-noite. Tinha medo desses enfrentamentos, mas não queria importunar ninguém. Resolveu assumir a resolução do problema por sua conta e risco. Afinal, a cidade é grande, e no café existiam inúmeros cartões de serviço e dentre eles, o de um chaveiro 24h.
Enquanto caminhava a sensação de incômodo crescia junto com os passos. Perder as chaves significava sair de sua zona de conforto. Por que essa perda justo agora, que ela não estava forte? Desejou com férrea vontade encontrar as chaves pelo caminho. Nada. Nas calçadas, apenas garrafas de cerveja vazias, pontas de cigarro e pessoas caminhando, assim como ela caminhava agora. De onde estava já avistava o carro estacionado. Continuou a caminhar, mas seus passos estavam mais lentos, como acontece com quem reluta em cumprir seu destino porque sabe o que vai enfrentar.
Observou que o movimento dos bares findava e os garçons iniciavam o recolhimento das cadeiras e das mesas, tudo parecia cumprir sua fiel rotina. Menos ela. Menos a sua vida. Apenas Joana estava na contra mão. Sentiu-se tão deslocada que teve vontade de correr dali, correr das chaves e do chaveiro. Correr das responsabilidades. Correr de suas ausências. Correr das decepções. Correr como Lúcia, Lola ou Forrest Gump[1]. Correr com o desespero de quem constata a perda de algo precioso, de algo que não se quer perder. Começou a chorar lágrimas pretas, tinha passado lápis nos olhos, como na música da Pitty, e foi cantarolando ...Você já viu uma mulher derramando lágrimas pretas na face? Lágrimas pretas, Lágrimas pretas, Não fique assustado ao ver a mulher pintada chorando lágrimas pretas, Eu amo tanto, Você já viu uma mulher derramando lágrimas pretas na face? Lágrimas pretas, Lágrimas pretas, Não fique assustado, chorava muito porque pensava nas chaves e lembrava somente de gaiolas, celas, prisões e agora do poema da Mulher vestida de gaiola do João Cabral de Melo Neto.

Mulher vestida de gaiola

Parece que vive sempre
De uma gaiola envolvida,
isenta, numa gaiola,
de uma gaiola vestida,

Será que ela estava engaiolada? Vestida de gaiola como no poema? Voltou a caminhar mais rápido recitando mentalmente a continuação do poema e envolvida na poética dos versos, com as lágrimas pretas caindo ainda, sentiu que algo morria dentro dela para que outra coisa pudesse nascer.


de uma gaiola cortada
em tua exata medida
numa matéria isolante:
gaiola-blusa ou camisa.

E, assim como tu resides
Nessa gaiola, cingida,
O vasto espaço que sobra
de tua gaiola-ilha


é como outra gaiola
igual que o mar: sem medida
e aberto de todos os lados
(menos no que te limita).


Chegou. Abriu a bolsa e a chave do carro ainda estava lá, bem no fundo.


Obs: continua...
[1] Referência aos filmes “Lúcia e o sexo”, “Corra Lola Corra” e “Forrest Gump”.

imagem: filme "Corra Lola Corra"

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

As chaves de casa


Ouvia um barulhinho todas as vezes que pegava a bolsa. Quando fez-se silêncio na realização do movimento habitual um sinal de perigo provocou um geladinho no coração. Ela então se curvou para ver melhor, enfiou sem cerimônias a cara na intimidade da bolsa e não achou o que procurava. Sacudiu a dita cuja e não houve manifestação do som familiar que buscava. O geladinho virou palpitação com força de iceberg e Joana ficou agitada.
- Ah, não, perdi as chaves de casa!
- E agora, como você vai entrar? procura direitinho nessa bolsa, mulher!
Joana e Olívia marcaram um encontro em um café para conversarem sobre suas vidas. Para colocarem alguns assuntos em dia. O encontro deveria ser rápido, pois ambas estavam atarefadas, mas já havia se estendido por horas. Um assunto foi entrando no outro, como coisas que vão ficando embutidas, como aquelas bonecas russas que parecem ser uma coisa só, mas na realidade nunca são, sempre encontramos outras bonecas dentro. As duas amigas se perderam nas palavras, risos, choros, confissões e pedaços de bolo de chocolate. Quando Joana era adolescente assistiu a um desses filmes tipo sessão da tarde, chamado “Talvez algum dia”, em que a mocinha levava um fora do namorado e, aos prantos, com lápis de olho escorrendo e a sombra do fundo dos olhos junto com as lágrimas, comia um bolo de chocolate compulsivamente. Parece que o inconsciente de Joana apreciou muito essa cena. Olívia conhecia bem algumas reações da amiga. Sempre que Joana ficava triste com algum desafeto amoroso, empanturrava-se de bolo de chocolate, como se a fórmula do bolo tivesse o poder de assombrar fantasmas.
Joana acreditava nas alquimias.
Sem nenhuma elegância nos gestos, virou a bolsa pelo avesso e espalhou tudo pela mesa do café. Carteira, canetas de várias cores, escova, bolsinha de maquiagem, mas nada das chaves de casa. Ficou um tempo olhando desolada para a bolsa e, na seqüência, ficou angustiada, observando os objetos que dela saíram sem sombra alguma do que era seu real querer encontrar. Tentou abstrair das conversas que frutificavam das mesas no entorno, na esperança de conseguir penetrar em alguma brecha de memória, porém nenhum sinal em suas lembranças dos rastros que direcionassem ao percurso perdido de seu chaveiro sonoro. Irritou-se porque não conseguia lembrar de pistas para encontrar o que havia perdido, irritou-se porque aquele momento clamava objetividade de seu ser e Joana novamente achava-se imersa em seus devaneios, só conseguia lembrar da cena de um filme da Maya Deren em que a personagem tirava uma chave de dentro da boca. E então imaginou suas chaves caindo dos céus, a cântaros e lembrou de outro filme, “Magnólia” mas nele choviam sapos, e pensou que esse era um desejo idiota, que suas chaves caíssem multiplicadas chovendo do céu, pois muitas pessoas teriam suas chaves e assim ela estaria desprovida da segurança proporcionada pelas chaves únicas...
Olívia sacudiu o braço de Joana, arrancando-a de seus devaneios fílmicos, anunciando, com a firmeza de um juiz, a sentença peremptória:
- Precisamos encontrar um chaveiro que possa abrir suas portas trancadas, Joana.


Obs: essa história continua...

imagem: trecho do filme de Maya Deren

domingo, 4 de janeiro de 2009

Sobre nomes e vazios


O óbvio é que a dor sabe porque existe. A pontada fina traz o agudo insistente e incômodo da falta do que se quer. A falta é sábia. Sabe de seu oco. Tem sede eterna de preenchimento. Quando em vez ela camufla suas reais razões, a fome de seus vazios, porque enfretamentos interiores doem e somos tão covardes, não suportamos bem os impactos das histórias abortadas. Iludimo-nos com falsos preenchimentos, como se fosse possível afugentar a frustração de querer saborear o gosto das coisas profundas, do néctar essência núcleo, estando tão presos às superfícies. Camille Claudel sabia o que faltava, a coisa ausente. “Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente” – Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta; está lá, registrado nas cartas que escrevia a Rodin.
O que faltava a Camille? O amor? Qual tipo de amor? - E o que posso dizer sobre essa coisa ausente que me atormenta? Esse pensamento não permitia mais à entrega ao corriqueiro da vida. Qual vida? A vida deve ser apenas algo corriqueiro? Então Joana sentiu que talvez fosse necessário suspender um pouco suas certezas. Afinal, elas não davam mais conta do que se passava, do que passou, de seus desejos turbulências ou de suas ausências. Estava cansada do nome das coisas e provavelmente seria bem útil aprender a desaprender nomes. Os nomes limitam. Criam paredes grossas e intransponíveis, lançando um risco de sufocamento no ar. Coisas sem nome são abertas e dão mais clareza às ausências, podem ser resignificadas. Joana quer coisas sem nome. Os nomes entram em combate com a vida, costumam decretar ritmos na contra-mão, agem como ventos soprando em contrafluxo. Os nomes tributam atrasos. Ela estava cheia do olhar carregado de nomes que se abancavam pelo mundo com privilégios de rotina. Os nomes roubam a permanência do impacto inaugural. Vão determinando os fatídicos olhares de acúmulo, vêm estagnar os movimentos, possibilitando redes rígidas e o perigo de algum coágulo preso prestes a estourar. Os nomes determinam volumes sempre altos para ouvidos cada vez mais moucos, tudo sempre tão cheio, repleto de classificações, como o copo que não suporta mais nenhuma gota sem correr o risco de cair em um choro discreto, já não cabem intensidades, pois não há espaço para as ausências. Que venha o vazio ausente de nomes para que eu aprenda o que realmente me falta, para que eu tenha consciência das minhas ausências, sem sentir tanto a dor do corte da lâmina fria das palavras traiçoeiras usadas sem dó nem piedade pelas bocas alheias. Talvez sejam apenas bocas que ignoram o que falam porque de fato, não sentem o que dizem sentir. Ignorantes como um eu-te-amo de superfície, por exemplo.
imagem: pintura da artista Elisabeth Peyton