sábado, 31 de janeiro de 2009

Aniversário 20 anos vida e arte

Durante 7 dias (25 a 31 de janeiro) o caderno vida e arte do jornal O Povo trouxe obras de 7 artistas visuais, cada dia uma obra abria o caderno. A sequência foi essa:
  • Siegbert Frankiln
  • Eduardo Eloy
  • Maíra Ortins
  • Ana Cristina Mendes
  • Herbert Rolim
  • Marina de Botas
  • Grupo Acidum

Fiz a curadoria dessa "exposição em papel jornal". Fazer curadoria não é fácil, pois a escolha sempre deixa de fora gente muito boa. Incluo abaixo o texto de encerramento da proposta, que circulou no jornal de hoje.

Relógio, movimento, compromissos. Vivemos tão presos ao tempo! Mas hoje parei um pouco. Para lembrar de um encontro. Aconteceu em um dia comum, desses que a contemporaneidade tributa, repleto de tarefas a cumprir. Entre um compromisso e outro caminhava pelas ruas de Fortaleza e, de repente, diminui o passo. Estava apressada como normalmente as pessoas estão, mas o que eu via valia a parada. Foi a primeira vez que encontrei a arte deles. Um encantamento invadiu meus olhos e aquelas imagens começaram a me habitar, conseguiram passar algo muito vivo e intenso, algo que a arte sabe fazer: despertar mundos dentro da gente. No intervalo entre um passo e outro, vi pela primeira vez o trabalho do grupo Acidum, nos muros do Centro de Humanidades da UFC. Não entendia quase nada sobre estêncil, stickers ou grafite, mas não importava, pois o principal na arte não é entender, o que verdadeiramente importa é o sentir. Com a lembrança desse encontro fechei os olhos e ganhei asas. Percorri outras terras e em meus caminhos estavam palavras, poemas, vivências e sonhos nos desenhos de Maíra Ortins. Mergulhei no universo da artista como quem se aventura em uma cidade invisível de Ítalo Calvino, disposta a me perder para poder achar o que é preciso achar. E assim, entregue às linhas dos traços de Maíra, entrei no sonho de Ana Cristina Mendes e meus olhos marejaram enquanto sentia a agulha furar o tecido. Afinal, aquela ruptura de pele, necessária para possibilitar o caminho das linhas no tecido era uma pequena violência, mas era fascinante, pois falava de profundidades, falava dos caminhos da vida. A arte pode ser um fio que direciona os passos no labirinto de nós mesmos e o trabalho da Ana Cristina tem a força da energia do movimento tecendo caminhos. Continuei seguindo as linhas de Ana e encontrei o impacto da obra de Marina de Botas, artista inquieta que questiona estereótipos, evidencia o incômodo embutido nos padrões de normalidade, realiza performances irreverentes com seus vestidos longuíssimos e, ao mesmo tempo que cria performances fortes, tem uma linguagem poética que ganha vida e encantamento no traço do desenho ressaltando a inquietação da sua porção anima. Os desenhos de Marina me levam a um universo híbrido, deparo-me com os seres criados por Herbert Rolim, pesquisador incansável, que realiza alquimias, dilui fronteiras erguidas pelo racionalismo humano, experimenta, descontextualiza, mescla mundos e cria um universo orgânico, um corpo híbrido, antenado com as relações entre o humano, a natureza e as novas tecnologias. Um fio da obra de Herbert me encaminha para Siegbert Franklin, artista de cores próprias, técnica apurada e entrelaçamentos férteis entre memória e coração. A obra de Siegbert tem poder de fala porque carrega a autenticidade de quem se arriscou a percorrer todas as profundidades do mundo da arte e então, com naturalidade, ele abre as portas do sonho, e sabemos que os sonhos carregam chaves para as portas que precisamos abrir. Um universo onírico também está presente na obra de Eduardo Eloy, artista de importância incontestável na formação de outros artistas, mestre da gravura que garimpa em seu imaginário seres fantásticos. A arte de Eloy estabelece conexões com a vida, tornando o impossível possível, dando forma e cintilância ao papel com a intervenção de ácidos, buris, goivas, rolos, tintas e softwares. Abro os olhos e sinto que existe uma linha que nos entrelaça, todos nós, e as linhas da vida quando se encontram com as linhas da arte despertam na gente vontades irrefreáveis, às vezes queremos pintar sonhos, em outras derramar lágrimas ou exibir um sorriso farto com a alegria de quem aniversaria e tem nome de encontro: vida e arte.

8 comentários:

glória disse...

Um olhar feito o teu nessa cidade; traduzido em palavras lapidadas e cristalinas é quase um imperativo artístico, ficaríamos meio mudos sem elas...parabéns!

Ana Valeska disse...

Ah, Glória, você é uma flor!

Mônica. disse...

Aninha! Te li no jornal e fiquei bem feliz! Tava com saudade das tuas palavras. Tô um pouco mais distante do mundo virtual. As capas saíram lindas. Minha favorita foi da Maíra. Forte e sensível.
Bjo grande em tu. =)

Ana Valeska disse...

Oi Mônica querida! Vou falar pra Maíra! Bjão amigona!

genetticca disse...

Hola amiga.Você hoje entrou nu meu terreno mais profundo.
Describe täo bem que eu fique con ganase de fazer uma obra acolorida só con a sua descriçäo.
Eu more oito meses em Fortaleza,nu anho 96. Conheci pintores e literatos muito boms, inclusive na Beira Mar . Adorei a literatura de José de Alencar,apaxone por a ponta metálica,olhe exposiciones i fiquei ni sertao pre descobrer a cor pura do sol.
Hoje você me transportó a sua terra de novo.

Meu Deus. Cuanta saudade!!!


Um forte abrazo.Cada día sento você mais perto de mim (eu falo da alma)

Ana Valeska disse...

Nossa, que legal saber que você viveu aqui um tempo. Uma espanhola com traços brasileiros (e cearenses) na alma. Também te sinto perto (da alma)!
Bj.

daimon under disse...

.faltava aos discurso sobre a arte sentidos diferentes do dissecamento inerte. faltava fôlego e a espontaneidade do assombro festejado. em tempos cada vez mais superficiais, bélicos e amorfos teus dizeres reinauguram a possibilidade do encanto.

.segui o trajeto vertiginoso das tuas descobertas e foi prazeiroso te acompanhar.

.há arte no teu olhar.

Carlos Eduardo Leal disse...

Lindo blog. Linda articulação entre artEvida. Parabéns!
Carlos Eduardo
veredaspulsionais.blogspot.com