domingo, 1 de fevereiro de 2009

la domenica


Quando ouviu a água chegar devagar já foi ficando feliz. A brisa da madrugada soprava fina e fresca. Brisa de vento que encontra águas refrescando caminhos. Brisa com encantamento de encontros descobertas amores nascentes. Com a brisa, dormiu com lençóis macios feitos de ar. Ainda assim, dormiu pouco. Sonhou muito.
Acordou cedo demais.
Joana viveu um domingo feminino. Um domingo de devaneios. Um domingo de florestas virgens e caminhadas em dupla com farfalhar de folhagens. Um domingo de cheiros familiares, de mãos dadas, com cidades prontas para serem descobertas, como os enigmas das linhas das mãos, como páginas já escritas com uma emoção guardada em cada rua que se desvela.
O domingo começou ainda escuro.
Quando tinha insônia gostava de ver a luz chegar varrendo sombras, e gostava ainda mais quando algumas sombras permaneciam, como nos dias de chuva prolongada. Luz sem sol. Dia molhado. Clima de desejos. Ambiente de devaneios. Sentiu sem freios a solidão boa de um dia calmo de chuva, comeu pão dormido, bebeu chá de hortelã, leu poesia, presenteou a casa com o piano de Erik Satie e percebeu a consciência de seus sonhos crescendo com a harmonia desse conjunto e o odor de sândalo percorrendo o quarto. Entrelaçando tudo para que ela pintasse novos sonhos.
Hoje os nomes masculinos mudaram de gênero.
Bachelard diz que o sonhador das águas tem a embriaguez da feminilidade e que o sonho lúcido, o sonho do dia, que une o movimento do corpo e da alma, é sempre anima. É sempre feminino.
Contemplou o percurso das águas generosas que caiam dos céus e lavavam as calçadas. Joana pensou: domingo de chuva deveria ser feminino, como na Itália, “La Domenica".
imagem: foto de Paulo Amoreira.

11 comentários:

Franzé Oliveira disse...

A mulher é linda sendo "mulher". Não frágil, não servindo, não cuidando, apenas sendo mulher. Mais nada.

joão disse...

Joana Domenica

Nascemos com nome, endereço, cor de pele, de cabelos, de olhos.

Depois, vamos nos tornando uma pessoa - que sente, pensa, ama, desama, aprende, sonha...

Alguns mergulham mais fundo e se reiventam, como um jardim se reinventa quando chove. Para esses, a vida tem lá os seus revezes, mas tem também suas jóias preciosas, feitas todas de coisas simples e essenciais.

Joana se torna chuva quando se entrega ao absoluto das essências. Os cheiros, os sons, os gostos, as texturas, as cores - todas as coisas dançam com seus sentidos e ela as compreende como parte de si.

Uma mulher ampliando suas margens.

Dançando na Chuva de Joana entendo um pouco mais sobre a delicadeza arrebatadora da vida.

E vou me tornando quem sou.

Ana Valeska disse...

ô João pra escrever bonito. Pense!

daimon under disse...

.águas de se re-nascer. é fluxo sem fixo o que a vida trás sem pedir licença. mas também é rumo de se ater com braços abertos. como quem toma banho de chuva e gira gira gira até sentir por dentro cair chuva e subir vida.

.tomo banho nas bicas das palavras de joana. sou agora - também - desse bello lugar.

eDu Almeida disse...

Ah se tu soubesse como teu sorriso me faz falta. Esses dias estou meio triste pq colocaram um proxy no trab e não estou podendo t ler. Mas a "La Domenica" vivida por Joana me fez perceber q faz tempo q não vivo um domingo de devanéios calmos, os ultimos estão sendo de devanéios bem agitados. Gosto disso estava precisando tb. Bom te ler sempre.
E nosso café qnd saí?

Ana Valeska disse...

Bom que agora a gente pode se encontrar pelos corredores da faculdade. E o sorriso sempre vem farto quando te vejo, né? E o café é só marcar!

glória disse...

È a terceira vez que faço um comentário (nessa lentidão de computador) e ele é levado pela correnteza. Estou em Belém, aqui só chove. O domingo é tão feminino quanto as sextas-feira tem cheiro de masculino. Sem corte de gênero. A sexta é mais yang, os domingos cheios de brisa yin (assim que se escreve?); O domingo de Joana poderia ser desenhado apenas pela sutileza densa de tuas linhas.Apenas quem sente "sem freios a solidão" é capaz de traduzí-la em "la domenica". Coisalinda essas escrituras de valeska! bjs

Ana Valeska disse...

Foi para o fórum né? ai, queria ter ido, vou ver se programo com antecedência para ir ao próximo. Bjs, linda!

Aline Lima disse...

Os dias de chuva (não só domingo) é feminino! Não conhecia essa expressão mas, intuitivamente, sempre senti isso. (:

Anderson C. Costa disse...

Domingos de devaneios calmos...
Está cada vez mais difícil.
Viajei no teu texto, tentando imaginar o domingo de Joana.
Ana, escreves de uma forma suave, tranquila. Gosto!

Beijo

Carlos Pinto Vinagre disse...

Gostei do texto. Bem ritmado, o andamento, as imagens. Parabéns!