sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

As chaves de casa (parte 3)


A rua era um breu só. Acendeu a luz interna do carro, verificou o endereço no cartão, viu que estava correto. Aquele era o local. A casa do chaveiro. Muro baixo descascado, um gramado seco, sem cercas, sem grades. A escuridão da rua fez palpitar o coração. Nunca teve medo de escuro, mas a vida nas grandes cidades vai paulatinamente injetando um tipo particular de temor. Penetra de mansinho, em doses miúdas, para que nos acostumemos com ele, como se fosse natural que a qualquer momento alguém chegasse para arrancar nossas posses, das mínimas às mais preciosas. As pessoas reclamam, mas estranhamente compactuam e contribuem com a ordem imposta. Andam desconfiadas, apressando o passo, se esquivando pelas ruas. As janelas dos automóveis fechadas. Gente com medo de gente. Gente consumindo. Gente ficando hipócrita. Gente ficando corrupta. Gente que, de repente, não é mais gente. Ela sempre estranhou a naturalidade que as pessoas colocavam grades e cercas nas casas e prédios, pareciam até felizes construindo prisões para si mesmas. Para Joana doía constatar: os muros de casa cresceram junto com ela, não é mais possível pular as janelas e estas agora somente permitiam ver o jardim atravessado pelos ferros das grades. Será que crescem grades por dentro das pessoas como crescem por fora? Era uma pergunta recorrente em suas reflexões.
Resolveu enfrentar o medo. Atravessar a rua escura. Era exatamente meia-noite. A hora que as carruagens viram abóboras e o vestido da princesa se torna um trapo qualquer. A hora da transformação. O portão pequeno de ferro não possuía cadeado. Abriu e entrou no jardim da casa. Um jardim ressecado. As flores pedindo-água-pelo-amor-de-deus. Censurou o chaveiro sem o conhecer. O jardim já anunciava sua falta de cuidado. Na porta de entrada apenas uma luz tênue saía do muro, auxiliando a visão. Não havia campainha. Joana bateu palmas, depois fez um toc-toc na porta. Estava aberta. Com o coração aos papoucos, entrou na casa. Começou a tremer. Tudo indicava que ela estava ou em uma situação de extremo perigo, ou estava naquelas horas de grandes achados. Mas não recuaria, de onde estava era impossível voltar.
Uma sala. Um móvel antigo de madeira escura. Abriu uma gaveta. Cheiros deliciosamente familiares tomaram conta de tudo. Manjericão, alecrim, hortelã, artemísia, camomila. Ervas guardadas em potinhos de vidro, que você girava a tampa e o cheiro subia. Cheiro de família. Sentia como se estive no fundo de algum sonho. Uma gaveta-num-móvel-antigo-guardando-ervas-para-chá-idêntica-à-que-sua-avó-tinha. Caminhou pela sala, relógio de pêndulo, aparador com vidros coloridos, discos de vinil, piso de taco, cadeira de balanço de palhinha, sofá de couro marrom, piano do final do século XIX. No quarto, um carpete verde, cama de solteiro, bonecas de pano e uma caixinha com bonecas de papel. Não resistiu. Escolheu uma, pegou uma roupinha para ver se encaixava bem. Dobrou vários papeizinhos e quando percebeu, deixou as bonecas vestidas. Um baú com fotos antigas, um vestido de batizado. Conhecia as pessoas das fotos. De vez em quando ouvia sons, passos alheios, mas tudo tão suave, tão suave... Uma porta. Um quarto repleto de chaves, como o Claviculário da Elida Tessler. Percebeu que cada chave contava uma história. Viu passado e futuro entrecruzarem-se no momento presente. E então viu que chaves também choram. E riem. E viu que o quarto de chaves era a sua própria vida. E que estava em casa. E viu que a casa, o quarto, a sala, a cidade, as pessoas, tudo estava dentro dela. A luz e a sombra. A noite e o dia. Juntos. Viu o Feitiço de Áquila desfeito. Viu o sol e a lua dialogando. E percebeu que o chaveiro era ela. E que as todas as chaves estavam em suas mãos para que ela se conhecesse, para que ela se conhecesse.
Procurou por água. Precisava urgentemente regar o jardim.


imagem: "Claviculário", obra da artista Élida Tessler.

16 comentários:

Laís disse...

Amada Ana,

As chaves de casa me despertaram imagens e sentidos que estavam guardados, o texto não poderia ter um desfecho melhor! Você tem o dom de faz/descobrir portas que ainda não foram abertas.Desde o dia em que te conheci, fui descubrindo várias chaves que estavam quardadas.

Você é linda!

Te Amo!

Franzé Oliveira disse...

Eu tinha várias chaves em minhas mãos, pensei muito e escolhi uma. Parecia uma chave velha, de uma porta velha. Quando olhei vi um monte de porta, todas com a mesma fechadura velha. Agora qual porta abri?

Ana Cristina disse...

Os compartimentos fechados... Aqueles que nem olhamos sequer. Trancamos e pronto. Escrevemos: FECHADO - PROIBIDO ENTRAR.

São esses que guardam nossos segredos, nossa essência mais rara. Às vezes, algo que por não mexer, esquecemos. Pensamos não conhecer, pensamos não gostar...

Que bom que você sentiu vontade de abrí-lo! Que bom que está tendo a coragem de enfrentá-lo!

Muito mais coragem para você, amiga!
Conte comigo!

Carinho,
Ana Cristina

joão disse...

Joana Espelho, veja só onde você pode me levar?

Já era muito esse rondar por suas coisas bonitas, como bicho em mata desconhecida - um mundo de sensações saltando dos sentidos e me forçando a girar a esmo e experimentar um pouco de cada sensação até imaginar que esse novo território era também agora um pouco meu.

Mas agora você me leva pela mão, como quem vai comentando um fato corriqueiro enquanto entra pela casa e acende as luzes e, para meu encanto duplo, cada coisa iluminada é também uma nova casa e todas as casas são você inteira. Não mais que de repente estou alí, dentro das suas coisas como se estivesse dentro de mim!

Que bonito jogo de espelhos você construiu com todas essas chaves tilintando! É mais bonito ainda por ser imperfeito, por estarem secas as flores esquecidas, por estarem em segredo os aromas, por estar nua a infância - a espera de mãos cuidadosas que a venha vestir.

Joana mereceu chegar a esse ponto da jornada. De onde está agora, certamente, caminhos ainda mais interessantes pode ver. Vou com ela, como um parceiro silencioso e atento ao que sinto e ao que sente essa que caminha por dentro.

Joana tem muito o que ser.

genetticca disse...

Eu tinha impaciência,tudos os días olho seu blog.Muito boa a su descriçäo.O análisis dela mesma é dos seus medos,as gaiolas que tudos contruimos a o nosso redor,as coisas que esquecemos de amar,esas cosinhas pequenhas que enchen a nosa vida de paixäo.
E bom perder as chaves si por causa delas encontramos a casa,
o povo,a gente e a nois mesmo.
Tudos somos Joana e muitos de nois ainda näo temos percepçäo de
ter perdido as chaves.
Um bejo e näo dexe d'escrever.

Mustafa Şenalp disse...

çok güzel site. :)

Ana Valeska disse...

Olá meus amores, coisa boa o comentário de vocês. Laís, que saudade!!!!!!!!!!

Franzé Oliveira disse...

"Poema Incerto" é dos poemas que mais me identifico, viu menina.
Brigado pela visita e seu coméntário. Bjos com ternura.

Franzé Oliveira disse...

Ana valeska gostei tanto do meu primeiro comentário nessa sua intrigante postagem que virou uma postagem em meu blog. Bjos com ternura.

Anônimo disse...

Joana és uma guerreira muito corajosa. No fim do túnel todas as luzes são acesas.Parabéns pela viagem bem sucedida .Te amo.

Vera.

Anderson disse...

A chave é o impulso. Como Joana entrou em casa e não percebeu imediatamente? Será que o medo cega as pessoas? Acho que sim. Ahh, e a foto das chaves é sensacional!

"Mas o homem que vem de cruzar de novo a Porta na muralha jamais será igual ao que partira para essa viagem." As Portas da Percepção, Aldous Huxley.

glória disse...

As chaves todas estavam dentro dela. A mais árduas das constatações. Queria eu ter um chaveiro especializado em mim mesma.Ele decidiria, me conhecendo mais que muito, o que fechar, o que abrir o que dar passagem, o quando cancelar o curso dos desejos. Pior que isso, eu sou a acionadora da minha ponte movediça. E gosto dos que me assaltam e me comovem. Você nem precisaria de uma senha qualquer a não ser - Ana Valeska - e as minhas chaves caminhariam até cada fechadura e dariam passagem. Que lindo! Você sabe desenhar novas fendas. bjs

eDu Almeida disse...

Querida Ana, queria ter tanto o que falar quando leio seus textos, mas os mesmos me deixam sem palavras, quase mudo. Só faço na verdade sentir. E é engraçado isso. Senti os passos de Jana como se fossem meus passos, tomei para mim as sensações de Joana, como se eu estivesse no lugar dela. Lembrei da minha casa quando li "Será que crescem grades por dentro das pessoas como crescem por fora?", pois moro numa boa casa, mas cercada de ferro e jaula, não percebo assim com tanta frequência agora, mas quando elas formam colocadas, lembro que comentei com minha mãe pq de tanta grade e ela me respondeu: "pra evitar ladrão" entendi a preocupação dela mas tb me incomodei com tantas grades, cadeados e... chaves, que pena q com sentido diferente. Ah e outra parte que me deixou bem pensativo foi: "Gente com medo de gente. Gente consumindo. Gente ficando hipócrita. Gente ficando corrupta. Gente que, de repente, não é mais gente." É assustador isso. Lembrei do que coloquei na última prova de nossa disciplina semestre passado, algo tipo "nunca tivemos tantos carros com tantos vidros fechados". Enfim, Joana me devolve à memória coisas boas e ruins. Ruíns pq ela tb sente coisas ruins e medos em sua caminhada bem semelhante aos que sinto.
Mtos bjos e saudade extrema de vc.

Carlos Pinto Vinagre disse...

Belo texto.

daimon under disse...

.acreditar na existência da chave faz nascer a fechadura?.

Ana Valeska disse...

Acho que a fechadura e a chave nascem juntas, Daimon.