quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Mergulhando em outros mundos: Ana Cristina Mendes




É preciso ser leve como um pássaro, e não como uma pluma.
Paul Valéry

Todas nós temos anseio pelo que é selvagem
Clarissa Pinkola Estés



Shakespeare já andou afirmando que existem mais mistérios entre o céu e a terra do que pensa nossa vã filosofia. E eu ultimamente ando mais aguçada nessa arte, observando os mistérios de mim mesma, desconstruindo sabedorias que me limitam para encontrar rumos mais autênticos. Minha própria sabedoria. Meu mundo orgânico e vivo. Pulso demais. Quero viver. Mesmo que assuste ver uma mulher vivendo consciente de suas autenticidades, opto pela vida.
Nesses caminhos encontro umas almas gêmeas, pessoas que me tocam profundamente. É bom saber que não se está só na tessitura dos fios dessa história. Aconteceu um encantamento quando encontrei a arte da Ana Cristina Mendes. Não deixa de ser um encontro de vida, pois a arte e a vida são mundos que se misturam o tempo inteiro, tudo é simbiose, e é tolice querer colocar as linguagens da arte apenas no cubo branco. É querer encaixar o que não se encaixa. Ana Cristina conseguiu a conexão. Os textos que vou postar sobre o trabalho da artista são uma interpretação livre, é o meu mergulho em outros mundos.

Era um dia lindo de sol forte. Um passarinho pousou na janela do ateliê de desenho. Sala lotada, os colegas um pouco angustiados com o desafio de ter que desenhar a figura humana. Ela também estava. Ana Cristina viu o passarinho na janela e lembrou da citação de Paul Valéry. Queria voar, ser como o passarinho, mas seu corpo pesava demais. O corpo pesava porque carregava uma força contida. Um peso estagnando o corpo. Sempre soube dessa coisa oculta. A coisa da força. Forte como um filho selvagem. Sim, carregava um filho da floresta, das matas virgens, dos seres primordiais, dos tempos imemoriais, cujo período de gestação não sabia precisar, 1.000, 10.000, 20.000 anos? Qual o tempo de nossa herança? Está gravado em nós tudo o que foi vivido antes? Ela tinha vontade e medo. Desejo de conhecer a memória herdada e um certo medo do que seria revelado. Ela sentia que o corpo acolhe a sabedoria do mundo. Ela sentia que o filho que vai nascer é um filho cósmico. Ela tinha vontade e medo. Mas teve coragem. Criou asas. Saiu da casca. Escolheu cores escuras, cores de depósito, antigas como a humanidade. A composição que ganhava corpo parecia ser o contrário do que ela era, tão leve e luminosa. Mas sua leveza anterior era como pluma. E no peso de seu contrário parecia estar o segredo da liberdade e a real leveza das asas do pássaro. Justamente no seu ser negado.

Doeu, mas pariu. Nasceu Eu.

- Como assim Eu? Mas essa não é você. Você é linda!

Sim, é parte de mim. Sou eu também. Já afirmava seu ser com um breve sorriso e a serenidade dos sábios. Em outros tempos talvez não assumisse. Sabia que a feiúra do filho selvagem desagradaria, e nela antes havia o desejo de agradar, de ser amada por todos. Mas não importava mais. Estava livre dessa prisão. Precisava ser vista além das estéticas, expressar seu eu oculto. O chamado da força da vida é maior do que as convenções. Ela não é uma princesa estereotipada. Não quer viver constantemente se desfolhando sem se mostrar, fazendo ramalhetes artificiais de si. Não. A estética dos adornos é dura demais. Os encaixes limitam a carne e ela quer dançar, como quando era criança e rodopiava, corria, ficava na ponta dos pés. Fechava os olhos e cantarolava uma melodia que só existia nos ritmos de sua cabeça. Rodopiava. Caía tonta. Ria de suas invenções. Maravilhava-se com a descoberta do poder dos movimentos. Repetia coreografias. Caía, caía, para ver o teto ganhar vida e dançar também. Viver é descobrir mundos novos, sempre.

Eu nasceu e dentro dela acordou a criança adormecida. Desde então soube que seu mundo nunca mais seria o mesmo. E mergulhou para poder voar no universo de possibilidades de seu corpo-artista.
E eu embarquei nessa viagem junto com a Ana Cristina. A arte faz isso com a gente, né? O próximo post falará de uma genealogia. A construção do relicário.


imagem: "eu", Ana Cristina Mendes (2005)– Gouache s/ papel - 215 x 120 cm.
(Menção Honrosa XIII Unifor Plática)

10 comentários:

Ana Cristina disse...

O coração pula tanto que o corpo todo se move. dança por dentro, chaqualha todos os órgãos... Assim estou agora ao reencontrar essa criança em seu rodopiar...

Ai, Aninha... Que presente!!!
Acho sim que você pode imaginar o que estou sentindo... Muito muito muito... OBRIGADA!!!

Estou em festa aqui dentro, aqui fora, em todo lugar de mim!

Sua sensibilidade me emociona tanto tanto...

Um abraço bem grande
com muito muito carinho,
eu

Franzé Oliveira disse...

O que nós somos? Sere inacabados em busca de perfeição. Assim caminha a evolução. Acho muito intrigante ver como procuramos identificar as nossas origens. Queremos descobrir o novo, e mesmo o velho damos uma repaginada. Agora viver concientimente é o grande desafio. Ser consciente que sabemos nada é uma dura realidade. Mais duro ainda é ver pessoas em plena ignorância do pouco que sabemos. Ou seja esse individuo não vive. Deixa ser levado ao sabor de pessoas más e vão tercendo a vontade alheia,sem uma vez se quer opinar ou fazer algo que mude o rumo das coisas. A arte imita a vida, muitas vezes sem nexo, porém seguindo uma fina lógica cosmica. Estamos indo para algum lugar, consequentemente partimos do mesmo lugar. Somos irmãos nessa viajem. Isso me faz leve, solto, pq no fim seremos todos cinzasl.

Franzé Oliveira disse...

Finalizando o comentário anterior segue a seguinte frase de Clarice Lispecto:

" Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento".

genetticca disse...

Esses filhos säo engendrados na liberdade do espititu.Mais näo existe só um parto.Se pode dizer que o primeiro é o desligamento do mesmo ser.Ese é muito importante.Mais na vida do artista se ten que crescer día a día.
Nunca se ten seguridade,ainda que nois expresemos o que queremos.
A seguridade impide o crescemento.
Nunca se pode pintar con as mesmas cores,ni fazer de un estilo uma religiäo,porque entaô ficamos apressados de novo,só que acreditando ter asas pra voar.

Gosto desse tema,porque me identifico.Você sabe descrever con jeito amoroso a alma do arte,isso é porque você fez arte escrivendo.

Coincidencía.Eu fiz uma entrada nu meu blog dedicada a Dalí, a manha fez 20 anhos que ele morreu.
Um bejo amiga.(escusa si eu naö escrevo perfeito)

glória disse...

Eu, pássaro tecido com as minhas penas nem sempre visíveis. Feito de carne em estado vivo. Ë belo pelo vida que faz mexer, que faz a própria autora chaqualar. Que me fez rir de satisfaçào em poder aqui encontrar vocês duas, feito pássaros. ler você me dá força e leveza. bj

Daniel Simões disse...

A espada não se corta a si mesma, nem o espelho se reflete a si próprio... daí a necessidade do artista em criar.

daimon under disse...

.nascer de si é ainda o penúltimo salto.

.quão bellas são as coisas intensas que abrem portas de 'não-sei' pelos cantos das casas desconhecidas!.

.nasceu assim a artista. a primaobra foi então o nascimento. ser brotando por dentro até florear imensidões.

.é bello quem surge assim: fogo de mar e confissões.

.muito prazer, ana, muito prazer.

genetticca disse...

E você muito bonita,esa foto vejo que a sua cara concorda con o seus escritos...doce.
Eu tenho outro blog onde escrevo poesia,você olho?gostaría sua opiniäo. Obrigada.

Bejos

Aline Lima disse...

Ana! Tbm ando antenada em perceber que viver consiste em descobrir mundos novos o tempo inteiro. Maluco né! Mas reconfortante pq um único mundo não é do meu agrado, rss!

um beijo amiga querida!
.aline.

Maíra Ortins disse...

Nunca é tarde demais para se postar... por fim estou aqui no teu blog Valeska...demorou, mas chegou:)
Adoreiiii o texto que vc fez sobre o trabalho de Ana Cristina está sincero demais... como vc consegue? minha escrita é sempre aquela coisa dura que não sai do canto, a sua voa mesmo.
Lindo , lindo!vou ficar espiando os outros textos