terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O relicário de Ana Cristina


O que você está fazendo?
Um relicário imenso deste amor
Nando Reis




Corpo, ritmo, movimento, peso, leveza, dança, batimentos cardíacos, pele, suor, movimento, ritmo, movimento, corpo, corpo-artista, 1, 2, 3, por hoje é só, vamos relaxar. No finalzinho da aula de dança, Ana Cristina sempre garimpava o melhor cantinho da sala. Seguia os instintos para relaxar, por isso procurava os cantinhos. Tinha sede de aconchego e buscava por ele com a determinação de quem consegue retirar todos os véus da saudade. Sentia saudades de relíquias. O cantinho era acolhedor e convidativo como eram os ninhos berços úteros. Ela sempre queria ficar mais, no escurinho, entregue à entrega. E assim, com os músculos exaustos mas inteiramente relaxada, achava-se transportada às coisas, à meninice, ao som dos trovões e da máquina de costura Vigorelli de sua mãe, ao recortes de pano, achava-se novamente entregue ao olhar penetrante da criança de poucos falares, que vivia escondendo-se atrás da porta e queria muito entender o interior das coisas, saber como aconteciam as coisas, desfiava os tecidos para entender a trama das linhas, para compreender os caminhos e alquimias das linhas da vida, para saber como as histórias das pessoas eram costuradas. Com o deslumbramento de quem sente um grande amor pulsando inquieto no peito, ela queria saber.
E então, no cantinho, como se estivesse devolvida integralmente às lembranças esquecidas, as vivenciava com todos os detalhes e a nitidez do agora, do momento presente. Soltava a mão da mão da mãe e corria livre pelos corredores das lojas de tecido, encantava-se com as cores dos rolos, vistos de onde ela estava assemelhavam-se a prédios e ela sentia que estava em uma cidade multicolorida. Agarrava-se às pernas da mãe que pedia recortes de fazenda ao vendedor da loja, 4 m de tafetá azul, 3 m de algodão liso verde, 4 m de brocado branco, 3m de linho creme, por hoje é só e sorriu farto porque viu a performance do vendedor, em segundos sacava o rolo da prateleira, media e cortava os tecidos com uma tesourinha-bem-pequenininha e colocava os recortes em pacotinhos que ela gostava de abrir quando chegava em casa e entregar para a Marleide costurar. Ficava observando a costura por horas, os movimentos repetidos, coreografados, a escolha dos botões, as cores das linhas, o preparo dos bolsos, o pé no pedal auxiliando as mãos e a máquina a unir pedaços, os pedaços de tecido que a máquina juntava. E sentiu, bem no cantinho de suas profundidades mais profundas a intensidade da emoção que entrelaça memória e coração, dessas que só chegam em momentos de repouso enraizado e foi assim que nasceu o relicário, com cúpula de metal prateado, como as agulhas e alfinetes de sua infância; e alto, bem alto e colorido como são seus sonhos, linhas e tecidos, como relíquias em pedaços, mas que ela poderia juntar com o zelo que os detalhes merecem, quando pedem a delicadeza das mãos, alinhavando, arrematando, alisando, abotoando, acolchetando para dar firmeza, para dar firmeza e delicadeza ao seu corpo-artista.

imagem: detalhe da obra de Ana Cristina Mendes, "relicário", (tecidos, aviamentos, cúpula de metal), 8 m x 50cm, 2006.

15 comentários:

Franzé Oliveira disse...

No relicário das minhas lembranças eu tenho uma que pus em um post em meu blog ano passado. Ao ler o seu texto lembrei me de muitas mas gostaria de compartilhar essa lembrança já "blogada" (risos):

" Meu pai chegou de viagem. Como sempre trazia muitos presentes e novidades. Certa vez trouxe uma panela de pressão. Foi logo quando surgiu esse tipo de panela. Foi uma festa. Disse que agora iriam comer feijão molinho. Cozinha tudo e rápido. Mamãe ficou meio desconfiada. Na manhã seguinte, o grande dia. Feijão catado, os bagulhos também. Tudo pronto. É 45 minutos, dizia o manual. Ficamos todos esperando. Uma festa. Passado os 45 minutos papai retirou a panela do fogo. E agora? A panela na mesa e todos envolta olhando. O que fazer? O que diz o manual? Tire a válvula, eu acho. foi tirado. O vapor começou a sair rápido. Aquele chiado. Mamãe gritou: vai explodir. Ninguém ficou na cozinha. Corremos todos. Depois de algum tempo o silêncio. Na mesa só a panela. Ficamos na porta olhando. Com medo não havia movimento. É perigoso? disse mamãe olhando para papai. Nada dele responder. Prendeu a respiração. Foi ao encontro da panela. Orgulhoso tirou a tampa. Estava pronto o feijão. Ninguém comentou nada. Comemos. Reclamamos do sabor. Mas tudo na Santa Paz. Era só uma panela. Eram 7 pessoas".

É bom lembrar as coisas boas. Faz me sentir vivo!!!! Bjos com ternura.

Ana Valeska disse...

Que bom que te trouxe boas lembranças, Franzé.
Bj.

Franzé Oliveira disse...

Nós moramos perto, né? Quando eu for a Fortaleza poderia eu t conhecer? Não vou muito. Não se preocupe(risos).

glória disse...

Que povoado relicário! Sào pedaços, retalhos, cores, tecidos e cortes de todos os tamanhos que ganham tom, densidade e volume na memória. Matérias-prima da poesia feito coisa, pedaços que rolam e entrelaçam palavras. Você é uma bordadeira de fagulhas e traços de sentidos. e eu leitora. bjs nessa mulher parideira.

genetticca disse...

Tenho tantos,de tantas coisas boas...Nu meu tempo de menina,cuando a minha mäe agasalhava meus medos.Depois jovem,
dançando por a vida sem nenhum
dor,voando nu ar das ilusoes.
Agora eu lembro con saudade de aqueles anhos,e mixturo o diá de hoje con as lembrancas,todo é um alimento pra enriquecer a vida.

Obrigada per trozer lembrancas.

Bejos

Ana Cristina disse...

Tem uma coisa, Aninha, que eu coloco nas minhas coisas, não só nos meus trabalhos, a verdade, minha intenção. O que me deixa mais feliz em tudo isso que está acontecendo comigo agora, tendo o privilégio de estar sendo traduzida em suas palavras, é perceber essa verdade a nos entrelaçar, nos capturar, uma a outra. Histórias de vida que se resignificam pela arte.

Sou muito grata...
Muito obrigada...

Hoje meu filme voltou todinho ao reler pela sensibilidade, sua, minha, nossa maneira de ser artista, pela vida, nossa verdade.

Chorei de alegria!!!
Uma emoção que acredito que você pode imaginar!!!

Um verdadeiro abraço em você!!!
Com carinho, grande,

Ana Valeska disse...

Muito grata Glória, pela gentileza!

Ana Valeska disse...

O encontro entre nosso dia de hoje e nossas lembranças sempre faz nascer algo novo. Eu que agradeço as palavras sempre tão carinhosas!
Bj

Aline Lima disse...

Ana! Texto primoroso... lindo!!! Tenho um relicário tbm. aqui guardado. (:

um beijo meu amor!
.aline.

Anônimo disse...

Joana no fundo do poço gestou e pariu Ana Cristina.Desejo que em seu movimento pelos sinuosos caminhos da vida, possa colher mais flores que espinhos.

Vera.

glória disse...

linda Ana...cadê Joana? bj

daimon under disse...

.há no dizer sobre o outro um dizer sobre si.

.só quem tece com as tramas inexatas dessa vida multicolorida e intrincada uma veste que lhe saiba compreende as coisas do fazer desfazer do estar.

.ana cristina nasce e cresce dentro já do seu destino de tecelã de sonhos estrangeiros. desses que nos nascem quando as horas novelos secretam peles-vestes que nos protegem do duro e bello embate entre o que se sente e o que se vive.

.duas anas tecendo juntas pólos de uma tapete gabbeh - onde suas histórias partiram de longe e encanto-a-encanto se aproximam do centro (de onde enfim a vida brota inexoravelmente nova e infinda).

.bella de acompanhar essa tecitura de ser.

.aguardo o término da túnica para vestí-la e dançar num balé de parangolé.

Ana Valeska disse...

Já já a Joana volta! bj.

Joice Nunes disse...

teu blog tá cada dia mais lindo.
eu me sinto bem aqui
ah
sobre o seu Ari
não é bem um sebo, com um prédio etc
é que ele há muitos anos leva alguns livros usados e expõe num banco de pedra lá da uece, onde estudo.
muito conhecido nosso, daquelas paisagens
um beijo
(2009 tem que ser um ano de encontros. quero te ver um dia desses. de verdade.)

Ana Valeska disse...

pois é! falata só uma atitude mais firme nossa, rss. vamos marcar, tb quero, de verdade.