sexta-feira, 29 de maio de 2009

O cheiro da manhã com chuva


Choveu e um cheiro de mato molhado invadiu a casa.
Joana encostou o rosto na transparência marrom do tecido finíssimo da cortina. Janela aberta no atravessar do cheiro da manhã com chuva.
A janela, ela e o tecido tecendo tessituras.
Dias de sol morando na memória, lembrança de tempos antigos, quando dormia no mar.
Recordações dos tempos das asas, livre atravessando o vento.
Presente o presente, Joana sorriu e correu.
O ar leve e o vestido esvoaçante.
Estava feliz.

imagem: Evgen Bavcar

domingo, 24 de maio de 2009

Entre frutas e estradas


Meus pés estão machucados pelo trabalho. Hoje até sangraram, não como sangram os açudes após as insistentes chuvas de maio e todos sabem: sangrou. Não, meus pés sangraram discretamente e bem devagar e ninguém percebeu, pois eu sorria.

Vez em quando, enquanto passava pelo corredor aberto, parava para ouvir o canto de um passarinho, e via alto e longe a fruta mordida pelos pássaros. Eram os momentos que me arrancavam daquele mundo das pessoas-que-tem-opinião-pra-tudo e me falavam da grandiosidade da fruta mordida. O olhar lançado para a fruta escondida lá no alto foi mais real do que todos os discursos das autoridades, tão real quanto a dor que eu sentia, que, de tão escondidinha, ninguém via.

Parece que o que tive de mais real todos esses dias foi o sonho. Sonhei com as árvores da caatinga florescendo em mescla de verde e laranja. Sonhei com o olhar-menino que brecha a vida pela fresta da lona do circo e se delicia com ela, na mais autêntica felicidade clandestina. Sonhei que pudesse receber mais confiança, para que o mundo não fosse tão meu e ou tão teu. Sonhei com um mundo nosso, que nem de chave precisaria, pois as portas estavam abertas.

Mas o sonho não te abraça e inevitavelmente uma lágrima cai enquanto dirijo de volta pra casa e ouço Elis Regina cantando “as curvas da estrada de Santos”

Se você pretende, saber quem eu sou
Eu posso lhe dizer,
Entre no meu carro,
Na estrada de Santos
E você vai me conhecer...




segunda-feira, 18 de maio de 2009

coração-jardim


Seu Belarmino é o jardineiro do jardim da minha casa. Dia desses, enquanto observava o cuidado de Belarmino com as plantas, perguntei como foi que ele se tornou um jardineiro.
Fitou-me com aquele ar de quem encontrou memória boa pra recordar.
- Filha, foi o sentimento pela Rosália.
- Como assim, seu Belarmino?
- Quando eu vi Rosália pela primeira vez, fiquei com uma inquietação tão grande apertando o peito e, sem pensar que eu mal sabia escrever, peguei papel e lápis e escrevi:
“Como é, meu Deus, que se escreve sobre o que o sentimento faz por dentro da gente?
Eu não sei não.
Usar a palavra é façanha de poeta, mas vai ver que serve só pra poeta que finge que sente, mas que na vida real não sente de verdade, o tal do sentimento que tá fazendo o coração bater diferente. Por que o meu tá batendo assim, meu Deus? Escuta: .. ..... .... . ....... .. . ......
Parece coisa desgovernada, que não têm constância, mas não é assim não, pra quem sente como eu tô sentindo, é como se por dentro da gente uma flor desabrochasse, ou como se eu fosse um pássaro que nunca tivesse aprendido a voar e que agora voasse, ou um mudo que agora cantasse; é como, meu Deus, se eu pudesse ver diferente tudo o que eu já vi na minha vida, é como se antes eu fosse cego e agora enxergasse.
É, meu Deus, quando eu penso nela eu me sinto até poeta, pois quando meu olhar entrou no dela o mundo se transformou em poesia. Não vi só a “pessoa”, vi luz que ilumina tudo por dentro da gente. Vi cor de tudo quanto é cor, vi flor de tudo quanto é flor, senti perfume de tudo quanto é cheiro bom.
Quando me dei por conta, meu Deus, estava alegre que só vendo, o amor entrou na alma e a alma entrou no mundo, e desde esse dia, por onde meu olhar olhasse, era tudo jardim”.



imagem: Paulo Amoreira

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Um Direito masculino?


Sei que o modo de pensar patriarcal ainda predomina em vários campos, principalmente nos que cultuam com mais apego a tradição e uma estrutura dogmática.
Por esses dias participei de um congresso jurídico. Costumo ter um olhar atento para as questões de gênero e percebi algo que é recorrente quando a questão remete ao “discurso do saber”. Das vinte palestras que integraram o evento, apenas uma foi proferida por uma mulher. Ontem, lendo um jornal local, vi a programação de um outro congresso jurídico. Novamente, apenas uma fala feminina.
Sou professora em um curso de direito e as presenças masculinas e femininas em sala de aula estão equilibradas. Percebi também, no folder que circulou no evento, que os cursos de direito são coordenados na maioria por mulheres.
Será, então, um mecanismo inconsciente que determina que na hora de selecionar quem tem a autoridade do discurso essa autoridade migre para a voz masculina? O quanto o nosso olhar está condicionado? O quanto ficou plantado em nós de um tempo que considerava que as mulheres possuíam faculdades apenas imitativas e que o ato de criar era exclusivamente masculino? Que o cérebro das mulheres era "pequeno, leve e com menor densidade"? Que uma mulher culta era uma aberração da natureza?

Falando com relação a todos os mecanismos inconscientes (e conscientes) com relação às minorias, quanto tempo ainda falta para que a igualdade seja uma realidade vivida?

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Deixar ir embora



Achava que amava as pedras e por isso senti uma pontada forte no coração vendo as pedras coloridas que eu amava rolarem penhasco abaixo. Imediatamente, um olhar interior de profundo lamento invadiu meu ser. Afinal, colecionei aquelas pedras durante tanto tempo... Cada pedra chegava para mim como uma mensagem e eu gostava de imaginar que cada uma simbolizava uma pessoa importante na minha vida. Eu possuía pedras de todas as cores, com todas as características, lisas, furadas, arranhadas, polidas, com rajadas múltiplas de tons..., algumas muito antigas, magmáticas, metamórficas, nascidas em tempos imemoriais, outras sedimentares, acumulando passagens alheias, agarrando coisas que o vento trazia e somando, somando todos aqueles acúmulos de tempo na superfície de si, passando a existir em camadas.

Admirava todas por permanecerem, por permanecerem. As pedras sempre me fascinaram, porque estive em meus processos e relacionamentos envolvida com excessos de apego e qual símbolo de permanência seria mais poderoso do que uma pedra? Cultivava um jardim de pedras com o mesmo zelo e entrega que um jardineiro cuida de suas flores. Mas o jardineiro é bem mais bonito do que eu, porque sabe da efemeridade do jardim. Prepara a terra para receber as sementes, as sementes brotam e as flores aparecem, lindas, coloridas e transitórias. Com o tempo inevitavelmente fenecerão. Mas enquanto estiverem vivas, ele cuidará delas, para que se sintam “únicas no mundo”, como a rosa que o principezinho de Exupéry tanto amava.

Em meus percursos tive dificuldade em aceitar que as coisas acabem, que ciclos se fechem, que as pessoas que amo me deixem. Tive apego pelo outro. Mas a aceitação inevitável é que o outro é livre em seus caminhos, e que deixar quem se ama ir embora faz parte da tessitura do viver. O segredo é aprender a viver o momento, ter o olhar da inocência diante do que está colocado tão evidente para nós, mas que ainda não conseguimos ver: a grandeza de viver o invisível.

Chovia intenso, as gotas caíam grossas, lavando as pedras, mas o ar naquele dia de chuva vibrava diferente, como se afastasse de mim as noções fixas que tenho das coisas. Senti falta de flores no meu jardim. Recolhi todas as pedras, coloquei-as em uma mochila e carreguei esse peso nas costas até a beira de um penhasco. Então minhas pedras rolaram penhasco abaixo para o fundo de algum lugar que suporte melhor o peso delas. Não quero mais essa permanência, ela pesa demais para ombros humanos, e o que permanece em nós não precisa ser assim, tão pesado. Quero aprender a cuidar de um jardim, aprender a me relacionar como o jardineiro se relaciona com suas flores, aprender a amar mais do que sou amada, para que, desapegada de seguranças, sinta realmente o que permanece, o que fica gravado em nós nessa arte de amar e viver.

Enquanto sentia a libertação do peso das pedras que carregava, um passarinho pousou no meu ombro. E então amei aquele ser em movimento mais do que amei qualquer outro ser, como o príncipe ama sua flor eu amo meu pássaro, porque ele não é meu, é livre como eu quero ser, e voando e voltando pra mim ele vem me ensinando o que é o amor e em seus vôos sempre me entrega uma semente que, com o tempo, se transforma em flor.

O amor, quando é amor, tem asas e constrói jardins.