segunda-feira, 4 de maio de 2009

Deixar ir embora



Achava que amava as pedras e por isso senti uma pontada forte no coração vendo as pedras coloridas que eu amava rolarem penhasco abaixo. Imediatamente, um olhar interior de profundo lamento invadiu meu ser. Afinal, colecionei aquelas pedras durante tanto tempo... Cada pedra chegava para mim como uma mensagem e eu gostava de imaginar que cada uma simbolizava uma pessoa importante na minha vida. Eu possuía pedras de todas as cores, com todas as características, lisas, furadas, arranhadas, polidas, com rajadas múltiplas de tons..., algumas muito antigas, magmáticas, metamórficas, nascidas em tempos imemoriais, outras sedimentares, acumulando passagens alheias, agarrando coisas que o vento trazia e somando, somando todos aqueles acúmulos de tempo na superfície de si, passando a existir em camadas.

Admirava todas por permanecerem, por permanecerem. As pedras sempre me fascinaram, porque estive em meus processos e relacionamentos envolvida com excessos de apego e qual símbolo de permanência seria mais poderoso do que uma pedra? Cultivava um jardim de pedras com o mesmo zelo e entrega que um jardineiro cuida de suas flores. Mas o jardineiro é bem mais bonito do que eu, porque sabe da efemeridade do jardim. Prepara a terra para receber as sementes, as sementes brotam e as flores aparecem, lindas, coloridas e transitórias. Com o tempo inevitavelmente fenecerão. Mas enquanto estiverem vivas, ele cuidará delas, para que se sintam “únicas no mundo”, como a rosa que o principezinho de Exupéry tanto amava.

Em meus percursos tive dificuldade em aceitar que as coisas acabem, que ciclos se fechem, que as pessoas que amo me deixem. Tive apego pelo outro. Mas a aceitação inevitável é que o outro é livre em seus caminhos, e que deixar quem se ama ir embora faz parte da tessitura do viver. O segredo é aprender a viver o momento, ter o olhar da inocência diante do que está colocado tão evidente para nós, mas que ainda não conseguimos ver: a grandeza de viver o invisível.

Chovia intenso, as gotas caíam grossas, lavando as pedras, mas o ar naquele dia de chuva vibrava diferente, como se afastasse de mim as noções fixas que tenho das coisas. Senti falta de flores no meu jardim. Recolhi todas as pedras, coloquei-as em uma mochila e carreguei esse peso nas costas até a beira de um penhasco. Então minhas pedras rolaram penhasco abaixo para o fundo de algum lugar que suporte melhor o peso delas. Não quero mais essa permanência, ela pesa demais para ombros humanos, e o que permanece em nós não precisa ser assim, tão pesado. Quero aprender a cuidar de um jardim, aprender a me relacionar como o jardineiro se relaciona com suas flores, aprender a amar mais do que sou amada, para que, desapegada de seguranças, sinta realmente o que permanece, o que fica gravado em nós nessa arte de amar e viver.

Enquanto sentia a libertação do peso das pedras que carregava, um passarinho pousou no meu ombro. E então amei aquele ser em movimento mais do que amei qualquer outro ser, como o príncipe ama sua flor eu amo meu pássaro, porque ele não é meu, é livre como eu quero ser, e voando e voltando pra mim ele vem me ensinando o que é o amor e em seus vôos sempre me entrega uma semente que, com o tempo, se transforma em flor.

O amor, quando é amor, tem asas e constrói jardins.

14 comentários:

glória disse...

esse amor mais leve, mais plantado de cor em seu jardim é o que subitamente te faz pousar em teu ombro, essa decoberta lírica de você. bjs mulher pássaro.

Aline Lima disse...

aprendamos, então, esse amor jardim. gostei da metáfora, esses dias estava pensando coisas nesse mesmo sentido.

ana me emocionei demais com esse teu post. demais da conta! =´)

Anônimo disse...

Linda e realista essa descorberta.Assim é a vida.Este é o caminho que gera desprendimento e faz amadurecer.Estou Feliz por teres encontrado a chave da serenidade.Tudo passa a ser mais leve. Beijos.
Vera.

Ana Valeska disse...

ô mãe, é tão bom quando a senhora vem aqui. Fico feliz também com as visitas de vocês, Glória e Aline. Pessoas lindas e muito queridas. Bj.

Franzé Oliveira disse...

Vc é uma menina sonhadora. Bonita, sensível e muito elagante nas palavras. Seu texto é leve. Me senti pedra rolando. O amor faz muito por nós. Tb, destrói é claro, principalmente quando amamos e não somos correspondido. Mas quando chegar não só contrói jardins, como um planeta inteiro de flores.

Bjos menina.

PS. Gostaria de falar com vc sobre eu publicar um livro, viu? No meu orkut tem meu msn e meu e-mail.

Luana Couto disse...

Lembrei da conversa no banco.
Bom poder dividir esse momento com você.
Conversemos mais.
Luana

Ana Valeska disse...

Grata, Franzé.

Sim, Luana, nossa conversa com certeza tem uma conexão com o texto.
Bj, minha flor.

Eduardo Matzembacher Frizzo disse...

Olá Ana. As pedras nos transcendem. As pedras são bem mais do que pedras. Se pudéssemos dar outro nome a elas, qual seria a definição? Creio que no seu texto seria Ser. Mas não o Ser dos pesquisadores da ontologia. Não o Ser epistemológico ou ético. Quando falo isso, falo daquele ser que fala, daquele ser que sente e é e que de maneira alguma pode ser escrito com S maiúsculo. Ou seja: falo de nós - humanos que somos. Se é difícil ultrapassar as fases que as barreiras da vida nos impõem, isso é fato. Mas se as pedras rolam morro abaixo, tal qual a sina de Sísifo, nossa perspectiva é confiar nessa missão o máximo possível, e ainda que saibamos da imprescritível condição der sermos-para-a-morte, ter o ânimo de nomear e construir o mundo a partir do nosso amor e da nossa arte. Se isso corresponde a revolta camusiana, posso dizer que sim, sendo que também está para o absurdo tão apregoado pelo mestre argelino. Neste sentido, sejam preciosas, sejam britas, as pedras que escorrem do nosso peito e se fazem areia por entre nossos dedos podem dizer muito mais do que somos do que um dia sequer chegamos a pensar. Daí a necessidade da atenção para o mundo. Daí a necessidade de sentirmos a textura das coisas, das pessoas e dos amores que sentimos pelas pessoas e pelas coisas. Nada do medo líquido do Bauman. Nada do amor de balada que encara bocas como o slogan dos Rolling Stones. Ao contrário disso, é necessário ressucitarmos um paradigma ético, um paradigma que diga das relações interpessoais baseadas no respeito mútuo, visto que, caso contrário, jamais chegaremos a um patamar minimamente evoluído. Afinal, tolerar não é ser ético, e isso vale até mesmo para as nossas angústias que psicanalista nenhum irá resolver. E ao meu ver, isso vale até mesmo para as coisas do coração. Enfim, ciclos são ciclos: rotação, translação, primavera, outono, inverno. E no final desses ciclos, os quais recomeçam no instante seguinte, permanecemos nós, quietos em nossa palavra ininterrupta que cria a partir de tudo que não entende. E nisso você é mestre. Um beijo.

Florêncio E. disse...

Eu gosto de ficar imaginando o invisível a partir do movimento, de algumas sensações, geralmente são invisíveis ironias ou sensações gostosas, engraçadas que vem muitas vezes com o ar e agente agarra com o imaginário. Parece loucura, fico pensando se isso é perder um pouco do juízo, mas por aí já encontrei seres que gostam tanto do invisível quanto eu. Deve ter sido muito prazerosa a sensação do pássaro pousando em seu ombro ocorrendo aquele amor intenso e imediato, amei essa passagem, alias toda a construção.

Beijo Ana, obrigada pelo livro :)

Fulvio Ribeiro disse...

Olá Ana...
Muito bom,sensível e profundo.
"Porque ele não é meu, é livre como eu quero ser"...
Amei isso.
Abraço.

Natasha Cruz disse...

irmã... eu e você vivemos indo embora, mas sempre haveremos de voltar uma p/ outra! te AMO.

Ana Valeska disse...

Natasha! que bom você por aqui, tb te amo irmã! bj.

Cleber Rocha disse...

Foi uma das coisas mais lindas q li nestes últimos tempos. Parabens pelo texto!

POLLYANA CANEDO disse...

Estou deixando um amor ir embora, um luto simbólico de uma relação que já não nos preenchia, pelo contrário, éramos pedras. Então encontrei seu texto, buscando um alívio para a dor de ter carregado com tanto sacrifício essas pedras, deixá-las ir não está sendo fácil. Mas encontrei inspiração em seu texto, para ser como um jardineiro.
Hoje estamos tentando cultivar um jardim,e sinto-me livre.

Escrevi este poema inspirada no seu texto e em minha dor:

Oh Flor, vai-te.
Não olhe para trás, persista em seu caminho.
Que este desajeitado jardineiro não soube cuidar-te.
Vai-te Flor, sem cores, sem cheiro, sem rancor.
Vai-te que eu não soube cuidar-te.

Estou um pouco envergonhada, por nunca demonstrei minhas opiniões e avaliações sobre as coisas que me sensibilizam. Mas como estou em uma fase, de um novo olhar sobre as coisas, e experimentando a vida sem medo, achei uma oportunidade para exercitar este movimento.
Estudo o existencilismo, e seu texto chamou minha atenção pelo título, uma questão existencialista: o ser em movimento. "O homem precisa escolher a cada momento o que será no momento seguinte; só existindo poderá ser." A transitoridade da vida é o próprio existir, instável e único a cada momento.
Excelente texto. Obrigada.