domingo, 24 de maio de 2009

Entre frutas e estradas


Meus pés estão machucados pelo trabalho. Hoje até sangraram, não como sangram os açudes após as insistentes chuvas de maio e todos sabem: sangrou. Não, meus pés sangraram discretamente e bem devagar e ninguém percebeu, pois eu sorria.

Vez em quando, enquanto passava pelo corredor aberto, parava para ouvir o canto de um passarinho, e via alto e longe a fruta mordida pelos pássaros. Eram os momentos que me arrancavam daquele mundo das pessoas-que-tem-opinião-pra-tudo e me falavam da grandiosidade da fruta mordida. O olhar lançado para a fruta escondida lá no alto foi mais real do que todos os discursos das autoridades, tão real quanto a dor que eu sentia, que, de tão escondidinha, ninguém via.

Parece que o que tive de mais real todos esses dias foi o sonho. Sonhei com as árvores da caatinga florescendo em mescla de verde e laranja. Sonhei com o olhar-menino que brecha a vida pela fresta da lona do circo e se delicia com ela, na mais autêntica felicidade clandestina. Sonhei que pudesse receber mais confiança, para que o mundo não fosse tão meu e ou tão teu. Sonhei com um mundo nosso, que nem de chave precisaria, pois as portas estavam abertas.

Mas o sonho não te abraça e inevitavelmente uma lágrima cai enquanto dirijo de volta pra casa e ouço Elis Regina cantando “as curvas da estrada de Santos”

Se você pretende, saber quem eu sou
Eu posso lhe dizer,
Entre no meu carro,
Na estrada de Santos
E você vai me conhecer...




10 comentários:

Mônica. disse...

Lembrei da música que passei o dia cantarolando:

"Você me deixou satisfeito
Nunca vi deixar alguém assim
Você me livrou do preconceito de partir
Agora me sinto feliz aqui

Quem foi que disse que é impossível ser feliz sozinho?
Vivo tranqüilo, a liberdade é quem me faz carinho
No meu caminho não tem pedras, nem espinhos
Eu durmo sereno e acordo com o canto dos passarinhos"

beijo em tu, Ana. :)

Ana Valeska disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana Valeska disse...

Espero chegar lá, Monicatt.
mas solidão não é fácil não.
Bj em tu também, amigona.

Fulvio Ribeiro disse...

Oi Ana..
Novamente tudo muito bom aqui..!!!
Passa lá no reflexões e veja se gosta do selo que ofereci para "o ser em movimento".
Abraço.

Aline Lima disse...

Ana minha amora,

hj ouvi as curvas da estrada de santos, na voz da Nara, e trabalhei um monte. As pessoas ali também tinham opinião-pra-tudo. ai aiaia, mas o que me salvou mesmo foram os eucaliptos - tão perfumados e silenciosos. mansinho e vagarinho como gosto.

um beijão minha linda!

Sara L.Miranda disse...

Gostei imenso do teu blogue e desta mensagem.
Parabéns e um beijinho

barbra brusk disse...

já sei. vou passar o resto da noite cantando a música, insistentemente.
foi bom vc me visitar lá.
um beijo.

Nuno G. disse...

venho te acompanhando... sabias?

Alexandre Grecco disse...

Adoro esse trecho:

"Por favor me acuda
Eu vivo muito só
Se acaso numa curva eu me lembro do meu mundo
Eu piso mais fundo
Corrijo num segundo
Não posso parar"

Ah... quanto aos pés, desejo melhoras!

Anônimo disse...

Ana ontem foram os meus pés que sangraram. E ninguém viu, porque eu tbm estava sorrindo, até dancei...
Ontem fingi, o que deveras senti.
Sangraram, mais não foi por causa do trabalho, é que realmente eu ainda não consegui me adaptar a certas imposições que a vida faz em nossas vidas. Por que será que ela nos tira pessoas tão especiais, sem ao menos pedir nossa permissão? (já pensou, sem perguntar se pode), ela é muito audaciosa mesmo.E eu fiquei a noite inteira pensando o que fazer... pensei,pensei, repenseiii...
E ainda não entendi nada. Afinal "As coisas não acontecem por acaso." O sonho ainda vive em mim, ainda queima tão forte ao ponto de por alguns instantes mágicos e indescritiveis, através da força da vontade, ele consegue ir longe, onde nunca andei, ainda consegue ver "...luz cintilante, estrela em forma de gente, invasora do planeta amor..." e abraçar alguém que é tão querido e amado. É mais é só um sonho, eu queria mesmo era ir alémm...e por isso, as lágrimas tbm caem em meus olhos, teimosamente elas insistem em cair... vou ver se o tempo me ajuda a entender certas coisas,ainda acredito muitoOoOo que ele guarda surpresas maravilhosas para mim.
Beijos!!!
e muitaaa sorte!!!