quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A vida entrelaçada. Uma História de bruxas, Santa Inquisição, patriarcado, revoluções, natureza agredida e uma imensa crise de percepção.


Uma das disciplinas que ministro trata da História do Direito. Nesse campo de investigação,atualmente trabalhamos com os aspectos históricos, políticos e legais da Inquisição.

Sempre que chegamos a esse ponto do programa retornam algumas questões que desenvolvi em meu livro “pulsão irrefreável”.

Volta à lembrança o intenso cerceamento da cultura patriarcal na História humana, a gritante supremacia dos valores masculinos, o olhar que foi profundamente introjetado em nossas práticas culturais e sociais. Aqui não se trata apenas do confronto feminismo/machismo. Quando falamos de cultura patriarcal, falamos de uma grave crise de percepção, que metamorfoseou seus tentáculos que insistem em nos agarrar, numa trama super-sofisticada.

Voltemos à Inquisição para encontrar o fio de Ariadne.

Com relação às mulheres a Inquisição traduziu a força da doutrina religiosa, da tradição e do magistério da Igreja Católita, refletindo também um eficiente sistema de controle da sexualidade. O corpo é engendrado como símbolo de castidade e se vê imbricado num eficiente sistema de adestramento. São estabelecidos parâmetros de comportamento do que é certo e do que é errado, revelando um método de constituição da subjetividade.

A repressão religiosa estruturou um método para coibir a expressão dos desejos, que assumiram formas pré-concebidas. Na Idade Média, os aspectos referentes à carne e à penitência são sempre atravessados e homogeneizados por um discurso religioso. O livro “O martelo das feiticeiras”, o Malleus Maleficarum , escrito em 1484 pelos inquisidores Heinrich Kramer e James Sprenger era o manual usado para torturar e matar os acusados de bruxaria, principalmente as mulheres. O livro ensinava técnicas cruéis de tortura que deviam ser aplicadas para se obter as confissões. Os inquisidores trataram como imundo e demoníaco o orgasmo feminino e consideravam que se a mulher tivesse orgasmo é porque tinha copulado com o demônio e, por isso, merecia morrer na fogueira.

O período de "caça às bruxas" promoveu um cerceamento mais intensificado do corpo e do prazer. A violenta estratégia repressiva obriga uma adaptação das mulheres às estruturas de dominação patriarcais. O cerco para a liberdade das mulheres se fecha. O exercício dos saberes femininos são desconsiderados ou proibidos. Para Rose Marie Muraro, as mulheres detinham muito do conhecimento curativo das ervas, da medicina popular. Com o nascente preconceito à sabedoria popular e com a euforia em torno do cientificismo, a tradição de um saber próprio das mulheres caiu em descrédito e a legitimidade dos conhecimentos curativos migrou para a autoridade legitimada dos médicos homens.

Aqui ganham ossatura os aspectos de nossa atual crise!!!

O descrédito dos saberes populares, principalmente os conhecimentos associados com uma percepção “feminina” podem ser tributados com um processo de alteração da percepção: a revolução científica. A partir do século XV, o campo da ciência vivencia uma época de intensas descobertas. O “penso, logo existo” de René Descartes destacou a supremacia da mente e do método científico, impondo um descrédito ao que não poderia ser medido e quantificado. Francis Bacon, por sua vez, condena o imaginário, elabora uma teoria clara do procedimento indutivo e a experimentação científica adota explicitamente a postura de domínio e exploração da natureza.

Nos escritos de Bacon, a natureza é colocada numa posição inferior e apartada da condição humana. São dois lados que não se misturam. As relações entre homem e natureza são pautadas pela dominação, tortura e escravidão. Desta forma, muito mais importante do que governar os homens seria dominar a natureza. Em suas obras, Nova Organum e Nova Atlântida, Bacon reforça esta idéia, onde o controle científico sobre a natureza facilitaria a vida num contexto geral. Para Fritjof Capra, o modo de ver patriarcal foi assimilado pelo pensamento científico, associando a relação com a natureza com as mulheres torturadas pela Inquisição :

De fato, sua idéia da natureza como uma mulher cujos segredos têm que ser arrancados mediante tortura, com a ajuda de instrumentos mecânicos, sugere fortemente a tortura generalizada de mulheres nos julgamentos de bruxas no começo do século XVII. A obra de Bacon representa, pois, um notável exemplo da influência das atitudes patriarcais sobre o pensamento científico (CAPRA, 2002, p. 52).

A visão da Terra como uma mãe bondosa e também como uma fêmea selvagem e incontrolável assume um caráter deturpado na cultura patriarcal, já que a bondade é associada à passividade, e a natureza selvagem com a necessidade de controle, passível de manipulação e exploração.

A dominação da natureza e das mulheres passa a ser um fato naturalizado durante séculos. Sabemos que outras “revoluções” aconteceram, econômicas e políticas, engendrando os valores sociais de cunho mercadológico, e culminando na sociedade contemporânea, de consumo e espetáculo, permeada de valores cada vez mais excludentes. O sentido prático da palavra solidariedade é esvaziado. O capitalismo selvagem cria também um exército de pessoas invisíveis e outro de pessoas insensíveis, anestesiadas pelo individualismo e pela ambição pelo dinheiro.

Portanto, vamos prestar atenção na caminhada.

Tudo é entrelaçado na vida.

A cultura patriarcal não deixou de existir por conta do movimento feminista.

Trata-se de um olhar introjetado, também, nas práticas capitalistas.

Para ver diferente, mude o foco.

Equilibre a força, seja firme no movimento.

Para ser quem você é.


Referências:

BACON, Francis. Nova Organum. Nova Atlântida. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Coleção Os Pensadores).

CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. 23. ed. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Cultrix, 2002.

DESCARTES, René. Discurso do método. Regras para a direção do espírito. São Paulo: Martin Claret, 2003.

MURARO, Rose Marie. Textos da fogueira. São Paulo: Letraviva, 2000.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

No visível do invisível


“ver é sempre ver mais do que se vê”

(O visível e o invisível, Merleau-Ponty)


Foi um grão? Um cisco? um pássaro? um avião? foi algo super.

Não sei qual a origem do atrito, da ferida, não encontrei meu agressor, não pude penalizá-lo. Senti apenas a conseqüência da invasão. Ardeu, doeu, ceguei e chorei.

Não senti meus olhos vendo.

Entretanto, foi bom. Agradeço a invasão.

Não restou alternativa: olhei para dentro!

Senti finalmente o que Merleau-Ponty mostra em O olho e o espírito, que a visão é o meio que me é dado para ser ausente de mim.

Quero dizer que existe uma armadilha na visão.

Sim, ver pode ser traiçoeiro!

A visão pode ser uma forma sofisticada de cegueira.

Todos os dias recebemos um bombardeio de imagens. Um mega espetáculo visual. O apogeu da ilusão que nos faz cegar para o óbvio: todo excesso é perigoso.

Gostamos do poder de criar, gostamos de afetar o outro, de ter o poder de convencer , de seduzir e muitas vezes não queremos parar ou equilibrar alguns processos. O mundo da proliferação de imagens é um vício da sociedade de consumo e nele mora uma prisão.

Estamos repetindo o trágico caminho de Narciso?


Que bom que parei e olhei para dentro. A verdadeira visão requer profundidade.

Novamente Exupéry sussurrou (pois todo ensinamento é baseado na repetição): “o essencial é invisível aos olhos”.

Ser livre é poder olhar a vida por um outro ângulo.

É poder dizer não.

É poder dizer sim.

É criar um imaginário único no mundo.

É poder ser o autor de sua própria história.

Viver a vida, como diz meu amado Warat, de acordo com meus próprios sentidos.

O que encontrei no meu visível invisível?

No invisível, há o amor.

imagem: Narciso, de Caravaggio.

domingo, 25 de outubro de 2009

Na caverna da Fera

Do que cavei como fera reencontro passagens, frames, fragmentos, peças de encaixe, relíquias do ser em movimento que resistiram ao processo de esquecimento. Lá estão, na caverna íntima, em exposição, as cenas do que vivi, os enredos detalhados dos espetáculos que encenei. Encontrei diversas caixas, depósitos, gavetas, estantes com papéis, muitos papéis, alguns soltos, como cartas abertas, outros abrigados por sofisticadas encadernações e caligrafias elaboradas, alguns escritos em uma língua que desconheço, muitos papéis riscados, rasgados, velhos, empoeirados e, entre tanta diversidade do que foi vivido, encontro grandes rolos de papéis brancos, ainda virgens, intensos e expectantes do tempo certo para receber o que será escrito.

Narrativas do passado que agora coloco em movimento.

Nele está o futuro.

Escrito no presente.

sábado, 24 de outubro de 2009

O combate: a bela e a fera

Segui cega e surda. Abandonei as vestes dos conceitos civilizados acerca de quem eu sou e entrei na floresta como bicho entregue à linguagem dos instintos. A floresta é o meu subterrâneo. Nela encontro a caverna, a árvore e o rio. Na procura incessante do que eu sou, do que eu fui, vou tecendo a tapeçaria de minha vida, artesã incansável em meu ofício, unindo os fios, os símbolos e as cores que compõem a trama imbricada do sentido de minha existência. Faço isso para poder continuar o caminho. Para continuar o movimento predestinado, para cumprir dignamente meu destino traçado. Então é preciso, de vez em quando, combater, para vencer a parte civilizada, a bela domesticada que me faz cega e surda de mim.
Venço o que é humano e continuo como bicho. Somente um bicho prossegue diante da ameaça da penumbra de uma floresta desconhecida. É como bicho que reconstruo as bases de meu corpo arcaico e reencontro a primeira consciência, essencial, base e fundamento da verdade e que vive na animalidade do humano que escapou de ser domesticado. No vibrar da carne crua da consciência do corpo selvagem, o místico pulsa, novamente, em seu estado natural. Falo da alma humana já encarnada e ainda virgem de abismos e acúmulos. Agora corro com os lobos. Na vivência dessa memória ancestral me reconheço. Sou a fera indomável, a fêmea selvagem. Farejo a terra e sigo a luz da intuição. Enxergo além do imaginável, meus ouvidos estão atentos a qualquer farfalhar de folhagens ou bater de asas. Meu corpo fala altivo e avisa à intenção do predador: sou fera e a força está comigo.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O combate

Foi de repente que aconteceu. No emaranhado dos passos firmes do tempo, aconteceu sem rasgos, mutilações abruptas ou cortes dolorosos. Foi suave, chegando de mansinho, sem nenhum alarde. Eu estava tão atenta a tudo que preenche o entorno da minha vida, notando as minúcias e alquimias que conectam o território do sentimento, que nem notei a invasão.

Foi em um breve piscar de olhos que percebi: minha visão foi tomada, assaltada, invadida, coberta por uma névoa branca.

Já não enxergava como antes. As letras turvaram, as distâncias perderam a nitidez. O próximo agora é um enigma a ser decifrado. No mundo exterior pulsa uma aura de mistério. O chão ficou mole como geléia e as vozes metamorfosearam junto, são sussurros em código que procuro agarrar como bálsamos de promessas futuras. Não sabia que a visão turva também impedia a fluência da audição. Agora nem enxergo nem escuto como antes. Sou apenas eu. É um abalo ter que continuar a caminhar fora do costume plantado, é preciso coragem para penetrar na floresta, em territórios inseguros, cobertos de bruma. O coração gela, o pé afunda na terra úmida e no primeiro afundar chega o disparo, o terror, o medo. Tem início o combate. Encolher ou seguir?

domingo, 18 de outubro de 2009

O que tenho de você?

A Bienal Internacional de Dança está bombando em Fortaleza!!! Hoje tem apresentação do trabalho da querida amiga e artista multi Ana Cristina Mendes, no teatro das Marias.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Eu, retalhos


Hoje é a abertura da exposição individual da querida amiga e talentosa artista Maíra Ortins.
Será no espaço cultural dos correios e na ocasião será lançado o catálogo da mostra.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A palavra e o verbo

Talvez a palavra seja verbo.

Desdobra-se.

Percorre todos os esconderijos da minha alma.

Está nos lugares quase inacessíveis.

Espaços que apenas eu habitei.

O sentir é ressonância de um universo estendido,
maior do que a palavra comporta.

Teu toque abriu as portas trancadas.
Teu olhar fez florescer um jardim.

O verbo é imenso a poetar em mim.

Amar.
imagem: obra de Beatriz Milhazes

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Para violetar


imagem: obra da artista Beatriz Milhazes



Tuas mãos seguras

e quentes

percorrem

todos os fios de meus cabelos.


Teu olhar entende

as linhas indecifráveis de minhas mãos

e o branco de minhas cicatrizes.


Tua boca é úmida e sábia

explora os esconderijos de meu corpo

e me sussurra afetos.


Perco-me no momento e nele encontro o segredo.

Recordo-me.

Sou toda tua, guerreiro.


À meia-noite, ao meio dia.

Em todos os fragmentos e inteirezas do tempo.

Continuamos nossa história.


A vida está turquesa

a violetar em todas as cores.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Anjo de asas rasgadas

Na noite longa

Lançada ao mundo do sonho te procuro.

(Você está debaixo da torre.

Anjo de asas rasgadas).


Do alto da torre eu vejo o infinito do céu e vôo.

O vento me abraça

Meu corpo solto é leve como a brisa

Minhas asas são fartas e brilhantes

.

Faço acrobacias, teço reinos de alcova em um amplo horizonte,

Faço mais de mim para te pertencer.

Ainda sem saber que você prendeu suas asas

e retalhou a própria liberdade.


Anjo de asas rasgadas,

Sem mais voar

Deixou-me ir

E se perdeu de mim.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A onda


Sofria de angústia imensa e profunda. Espalhada pela vastidão do mar dela mesma. Com a dor mergulhava nas profundezas de seu próprio oceano. A água batia em seus pés. A saudade sem nome inundava o coração.
Precisava cumprir as tarefas. Esposa, mãe de três meninos, de 7, 5 e 4 anos. O universo masculino invadiu sua história em camadas. Um atrás do outro, sem parar, tomando conta dela, com correntes e ataduras. Como ser grande se sentindo cheia de tudo e tão vazia? Foi seguindo o rumo da vida, abandonou os estudos quando engravidou aos dezessete anos. Criança assumindo obrigações de adulta. Navalha na carne. Levar as crianças para a escola, arrumar a casa, fazer almoço, todos os dias, todos os dias a mesma coisa da vida. A vizinha sempre chegava e conversava bobagens, tolices a respeito da vida dos famosos ou as emoções da novela das oito e ela fingia ouvir enquanto assava os bifes acebolados e cozinhava o feijão mulatinho. De vez em quando esboçava um sorriso, pra disfarçar, pra mostrar que gostava da conversa.
A água batia em seus pés. Como a vizinha não percebia? Como o marido não percebia? Nem os meninos percebiam. Os brinquedos de plástico boiavam soltos, os generais de guerra, os aviões, helicópteros e samurais simplesmente boiavam pela sala e os meninos continuavam atados brincando pelo chão. A praia invadia mais e mais a rotina do lar. Montes de areia depositados. Milhões de grãos espalhados. Muito calor. Mar com ondas calmas, um tênue movimento, arrebentava aos pouquinhos, a água batia em seus pés como quem lambe um picolé. Ela arrepiava, cedia às carícias do mar que invadia a cozinha e levava as panelas embora, os pratos, os copos, a garrafa térmica com o café, os jogos americanos. Ela desejava ir com o mar, pulsava ansiando que ele cobrisse seu corpo, que ele fosse agora mar de ondas intensas que arrastassem o gesso que encapsulava seu movimento. Enchia os pulmões de ar e mergulhava, o mar tinha mãos grandes e quentes, dissolvia o gesso, o mar tocava, lambia, cheirava, o mar libertava. Ele entendia seus quereres, preenchia o vazio, sugava seu suor, penetrava em seus esconderijos, fazia uma revolução molecular, poros adentro, revelando quem ela era, o seu eu oculto que o marido nunca encontrou, a fêmea selvagem, a fera ferida, jovem e marcada vivendo uma saudade sem nome que vinha como mar e tudo preenchia. Como onda gigante que avisa “é melhor se entregar e mergulhar do que fugir de mim”.