Uma das disciplinas que ministro trata da História do Direito. Nesse campo de investigação,atualmente trabalhamos com os aspectos históricos, políticos e legais da Inquisição.
Sempre que chegamos a esse ponto do programa retornam algumas questões que desenvolvi em meu livro “pulsão irrefreável”.
Volta à lembrança o intenso cerceamento da cultura patriarcal na História humana, a gritante supremacia dos valores masculinos, o olhar que foi profundamente introjetado em nossas práticas culturais e sociais. Aqui não se trata apenas do confronto feminismo/machismo. Quando falamos de cultura patriarcal, falamos de uma grave crise de percepção, que metamorfoseou seus tentáculos que insistem em nos agarrar, numa trama super-sofisticada.
Voltemos à Inquisição para encontrar o fio de Ariadne.
Com relação às mulheres a Inquisição traduziu a força da doutrina religiosa, da tradição e do magistério da Igreja Católita, refletindo também um eficiente sistema de controle da sexualidade. O corpo é engendrado como símbolo de castidade e se vê imbricado num eficiente sistema de adestramento. São estabelecidos parâmetros de comportamento do que é certo e do que é errado, revelando um método de constituição da subjetividade.
A repressão religiosa estruturou um método para coibir a expressão dos desejos, que assumiram formas pré-concebidas. Na Idade Média, os aspectos referentes à carne e à penitência são sempre atravessados e homogeneizados por um discurso religioso. O livro “O martelo das feiticeiras”, o Malleus Maleficarum , escrito em 1484 pelos inquisidores Heinrich Kramer e James Sprenger era o manual usado para torturar e matar os acusados de bruxaria, principalmente as mulheres. O livro ensinava técnicas cruéis de tortura que deviam ser aplicadas para se obter as confissões. Os inquisidores trataram como imundo e demoníaco o orgasmo feminino e consideravam que se a mulher tivesse orgasmo é porque tinha copulado com o demônio e, por isso, merecia morrer na fogueira.
O período de "caça às bruxas" promoveu um cerceamento mais intensificado do corpo e do prazer. A violenta estratégia repressiva obriga uma adaptação das mulheres às estruturas de dominação patriarcais. O cerco para a liberdade das mulheres se fecha. O exercício dos saberes femininos são desconsiderados ou proibidos. Para Rose Marie Muraro, as mulheres detinham muito do conhecimento curativo das ervas, da medicina popular. Com o nascente preconceito à sabedoria popular e com a euforia em torno do cientificismo, a tradição de um saber próprio das mulheres caiu em descrédito e a legitimidade dos conhecimentos curativos migrou para a autoridade legitimada dos médicos homens.
Aqui ganham ossatura os aspectos de nossa atual crise!!!
O descrédito dos saberes populares, principalmente os conhecimentos associados com uma percepção “feminina” podem ser tributados com um processo de alteração da percepção: a revolução científica. A partir do século XV, o campo da ciência vivencia uma época de intensas descobertas. O “penso, logo existo” de René Descartes destacou a supremacia da mente e do método científico, impondo um descrédito ao que não poderia ser medido e quantificado. Francis Bacon, por sua vez, condena o imaginário, elabora uma teoria clara do procedimento indutivo e a experimentação científica adota explicitamente a postura de domínio e exploração da natureza.
Nos escritos de Bacon, a natureza é colocada numa posição inferior e apartada da condição humana. São dois lados que não se misturam. As relações entre homem e natureza são pautadas pela dominação, tortura e escravidão. Desta forma, muito mais importante do que governar os homens seria dominar a natureza. Em suas obras, Nova Organum e Nova Atlântida, Bacon reforça esta idéia, onde o controle científico sobre a natureza facilitaria a vida num contexto geral. Para Fritjof Capra, o modo de ver patriarcal foi assimilado pelo pensamento científico, associando a relação com a natureza com as mulheres torturadas pela Inquisição :
De fato, sua idéia da natureza como uma mulher cujos segredos têm que ser arrancados mediante tortura, com a ajuda de instrumentos mecânicos, sugere fortemente a tortura generalizada de mulheres nos julgamentos de bruxas no começo do século XVII. A obra de Bacon representa, pois, um notável exemplo da influência das atitudes patriarcais sobre o pensamento científico (CAPRA, 2002, p. 52).
A visão da Terra como uma mãe bondosa e também como uma fêmea selvagem e incontrolável assume um caráter deturpado na cultura patriarcal, já que a bondade é associada à passividade, e a natureza selvagem com a necessidade de controle, passível de manipulação e exploração.
A dominação da natureza e das mulheres passa a ser um fato naturalizado durante séculos. Sabemos que outras “revoluções” aconteceram, econômicas e políticas, engendrando os valores sociais de cunho mercadológico, e culminando na sociedade contemporânea, de consumo e espetáculo, permeada de valores cada vez mais excludentes. O sentido prático da palavra solidariedade é esvaziado. O capitalismo selvagem cria também um exército de pessoas invisíveis e outro de pessoas insensíveis, anestesiadas pelo individualismo e pela ambição pelo dinheiro.
Portanto, vamos prestar atenção na caminhada.
Tudo é entrelaçado na vida.
A cultura patriarcal não deixou de existir por conta do movimento feminista.
Trata-se de um olhar introjetado, também, nas práticas capitalistas.
Para ver diferente, mude o foco.
Equilibre a força, seja firme no movimento.
Para ser quem você é.
Referências:
BACON, Francis. Nova Organum. Nova Atlântida. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Coleção Os Pensadores).
CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. 23. ed. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Cultrix, 2002.
DESCARTES, René. Discurso do método. Regras para a direção do espírito. São Paulo: Martin Claret, 2003.
MURARO, Rose Marie. Textos da fogueira. São Paulo: Letraviva, 2000.






