terça-feira, 27 de outubro de 2009

No visível do invisível


“ver é sempre ver mais do que se vê”

(O visível e o invisível, Merleau-Ponty)


Foi um grão? Um cisco? um pássaro? um avião? foi algo super.

Não sei qual a origem do atrito, da ferida, não encontrei meu agressor, não pude penalizá-lo. Senti apenas a conseqüência da invasão. Ardeu, doeu, ceguei e chorei.

Não senti meus olhos vendo.

Entretanto, foi bom. Agradeço a invasão.

Não restou alternativa: olhei para dentro!

Senti finalmente o que Merleau-Ponty mostra em O olho e o espírito, que a visão é o meio que me é dado para ser ausente de mim.

Quero dizer que existe uma armadilha na visão.

Sim, ver pode ser traiçoeiro!

A visão pode ser uma forma sofisticada de cegueira.

Todos os dias recebemos um bombardeio de imagens. Um mega espetáculo visual. O apogeu da ilusão que nos faz cegar para o óbvio: todo excesso é perigoso.

Gostamos do poder de criar, gostamos de afetar o outro, de ter o poder de convencer , de seduzir e muitas vezes não queremos parar ou equilibrar alguns processos. O mundo da proliferação de imagens é um vício da sociedade de consumo e nele mora uma prisão.

Estamos repetindo o trágico caminho de Narciso?


Que bom que parei e olhei para dentro. A verdadeira visão requer profundidade.

Novamente Exupéry sussurrou (pois todo ensinamento é baseado na repetição): “o essencial é invisível aos olhos”.

Ser livre é poder olhar a vida por um outro ângulo.

É poder dizer não.

É poder dizer sim.

É criar um imaginário único no mundo.

É poder ser o autor de sua própria história.

Viver a vida, como diz meu amado Warat, de acordo com meus próprios sentidos.

O que encontrei no meu visível invisível?

No invisível, há o amor.

imagem: Narciso, de Caravaggio.

10 comentários:

Franzé Oliveira disse...

Um ponto indeterminado no tempo
Muito antes de qualquer era conhecida
Surgiu um sentimento
Que predispõe alguém a desejar o bem de outrem
Nas gélidas terras... O amor surgiu.
Perdura até os dias de hoje esse ato de desejo
Que leva alguns a loucura
E a outros leva ao paraíso
O condutor da evolução
Sentimento não explicado, só sentido...
A força do movimento que gerou a condição
Para a humanidade se manter em atividade
Desde o ontem
Até o hoje...

"I dreamed a dream in time gone by
When hopes were high and life worth living,
I dreamed that love would never die
I dreamed that God would be forgiving

A.Beheregaray disse...

ótimo Ana, um texto rápido e certeiro. Muito bom.
As vezes estou pensando coisas aqui, que vc traduz por ai...
Beijos.

Anônimo disse...

O que me encanta em você, (Jo)Ana, é a capacidade de transformar tudo, inclusive a dor e a angústia, em arte. Rimar amor e dor contraria o poeta, quando a dor sentida se transfigura em amor, pela tessitura do teu verbo sensível e amorável.
Beijo grande deste blogólatra incurável,
Jô.

Ana Valeska Maia disse...

gente, muito grata pelos lindos comentários!!!!

Daniel Simões disse...

Exposição do invisível?

Eduardo Loureiro Jr. disse...

E eu que estava incomodado por estar me sentindo meio cego...

Ana Valeska Maia disse...

Daniel,
O bom da palavra é que ela pode expor o invisível.

Eduardo,
que bom que você está incomodado com a cegueira. É sinal que está crescendo.

Ilton disse...

voltar para o invisível é sempre o melhor jeito de enxergar com mais profundidade, longe das "ilusões" que a visão nos reflete.
Engraçado como o essencial é simples, a gente que complica.

Belíssimo texto e reflexão, parabéns!

Ilton

grazieni disse...

Senti e pude reconhecer o quanto sou cego... hehehehe... é como um clique, um encontrar ao ler esse texto, "meu problema é cegueira!", fui transportado para "O ensaio sobre a cegueira", onde tudo é branco e nada vejo... meus olhos precisam ver o invísivel, o essencial e ele não está neste turbilhão de imagens ilusórias, que chamamos de real, está em minh´alma, na construção de um novo olhar sobre o mundo.... :). Ótimo texto e obrigado por me conduzir ao oftalmologista... hehehe... um forte abraço.

Ana Valeska Maia disse...

Novamente Exupéry nos fala:
o essencial é invisível aos olhos.
bjs procês.