E o meu coração embora
Finja fazer mil viagens
Fica batendo parado
Naquela estação...
(Naquela Estação, Composição: João Donato / Caetano Veloso / Ronaldo Bastos)
Nenhum movimento na velha estação. Naquele “entre” da existência, as cores desmaiadas das descascadas paredes antigas anunciavam que apenas o silêncio tinha autorização para transitar e somente o céu do fim de tarde poderia colorir de alguma forma, a vida.
Começou a esfriar, embora nada ventasse.
Apenas seus pensamentos falavam alguma brisa.
Entretanto, a temperatura caiu de repente, despencando em alvoroço pelo termômetro, frenética, como se desmoronassem os graus de uma vez só e o ambiente encontrasse uma forma eficaz para expulsar o visitante indesejado do domínio de sua jurisdição. Continuava imóvel, respirando discreta e pausadamente. Era toda abandono e dúvida. O piscar dos olhos castanhos entristecidos pelo acúmulo de cinzas, era emoldurado por grandes cílios negros. Sentada no banco de ferro verde cromo, apenas contemplava a rigidez dos trilhos do trem. “todo movimento precisa de algum tipo de solidez para continuar”, pensou. Percebeu a mudança do tempo e tremeu. Muito mais de temor do que de frio. Quando finalmente teve coragem de retirar o olhar dos trilhos dourados viu a aterrorizante cena: seus sonhos estavam desabados no chão da estação.
“Posso deixar vocês aqui”, pensou. Basta que eu levante e vá embora sem olhar para trás.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
domingo, 28 de junho de 2009
Na estação
Os trilhos estão no mesmo lugar.
E a correnteza avança.
Continuo na estação.
(Você me faz esperar demais)
E a correnteza avança.
Continuo na estação.
(Você me faz esperar demais)
terça-feira, 23 de junho de 2009
Tina e a saudade
Tina Modotti“Hoje, não posso dar-me ao luxo nem das minhas dores – sei muito bem que não é tempo de lágrimas; espera-se o máximo de nós e não podemos fraquejar – nem parar no meio do caminho – descansar é impossível.
Tina Modotti.
Chegava de mansinho, a tal da saudade. Em momentos de burburinho ou de silêncio ela montava barraca sem aviso prévio. Sem perceber lá estava eu, olhos aparentemente perdidos no tempo, mas marejados buscando morada nos arabescos da memória, mergulhando em cada fímbria no escuro do estúdio, por entre os banhos de químicos, reveladores de mim.
Escolhia a lente e seguia determinada. Objetiva. Foco longo, grande angular? Qual o plano? Depende do meu alcance...
Acordava ainda de madrugada para fotografar, não podia perder a mágica da luz, entretanto perdia qualquer senso de perigo, entrava em lugares pouco recomendáveis, mas existia um chamado e eu seguia a força. Numa dessas entrei numa fria e me roubaram a máquina. Lembro ainda o que estava escrito na porta do lugar que eu fotografava, "cuidado com o cão" e tinha um estrela de madeira azul logo acima das palavras. Não lembro mais de nada depois disso, não sei se foi o trauma da violência, mas o fato é que nunca mais aconteceu a mágica da busca pela imagem. Mas fato também é que atualmente a saudade me consome. Fico lembrando de coisas antigas, como as descobertas de Niepce ou a invenção do daguerreótipo. Ah, também lembro das molduras, de tudo o que escapava, transbordava das molduras. Barthes sempre soprava em meus ouvidos: “seja o que for que ela dê a ver e qualquer que seja a maneira, uma foto é sempre invisível: não é ela que vemos”. Então o que vemos? No meu caso frequentemente vejo você, Tina. Você está lá, invisível e presente. Eu entendo quando você fala que colocou arte demais na vida. Difícil encontrar um lugar próprio para a arte quando a vida grita tão forte ao ponto de confundir todas as fronteiras criadas. Chega o momento em que não se tem espaço para o descanso e que jogar a arte fora parece ser a melhor saída para o problema. Você jogou. Ainda sinto a dor da máquina jogada no rio Moskva. Eu vivi isso.
Porém a vida não para, Tina.
Nem eu.
Eu vou com a arte.
Viver.
Tina Modotti.
Chegava de mansinho, a tal da saudade. Em momentos de burburinho ou de silêncio ela montava barraca sem aviso prévio. Sem perceber lá estava eu, olhos aparentemente perdidos no tempo, mas marejados buscando morada nos arabescos da memória, mergulhando em cada fímbria no escuro do estúdio, por entre os banhos de químicos, reveladores de mim.
Escolhia a lente e seguia determinada. Objetiva. Foco longo, grande angular? Qual o plano? Depende do meu alcance...
Acordava ainda de madrugada para fotografar, não podia perder a mágica da luz, entretanto perdia qualquer senso de perigo, entrava em lugares pouco recomendáveis, mas existia um chamado e eu seguia a força. Numa dessas entrei numa fria e me roubaram a máquina. Lembro ainda o que estava escrito na porta do lugar que eu fotografava, "cuidado com o cão" e tinha um estrela de madeira azul logo acima das palavras. Não lembro mais de nada depois disso, não sei se foi o trauma da violência, mas o fato é que nunca mais aconteceu a mágica da busca pela imagem. Mas fato também é que atualmente a saudade me consome. Fico lembrando de coisas antigas, como as descobertas de Niepce ou a invenção do daguerreótipo. Ah, também lembro das molduras, de tudo o que escapava, transbordava das molduras. Barthes sempre soprava em meus ouvidos: “seja o que for que ela dê a ver e qualquer que seja a maneira, uma foto é sempre invisível: não é ela que vemos”. Então o que vemos? No meu caso frequentemente vejo você, Tina. Você está lá, invisível e presente. Eu entendo quando você fala que colocou arte demais na vida. Difícil encontrar um lugar próprio para a arte quando a vida grita tão forte ao ponto de confundir todas as fronteiras criadas. Chega o momento em que não se tem espaço para o descanso e que jogar a arte fora parece ser a melhor saída para o problema. Você jogou. Ainda sinto a dor da máquina jogada no rio Moskva. Eu vivi isso.
Porém a vida não para, Tina.
Nem eu.
Eu vou com a arte.
Viver.
Misturando tudo.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Além das palavras

Não posso deixar de sonhar. É fundamental o querer. Preciso ser sonhadora do mundo, pois nunca verei minha realidade se antes não tiver sonhado com ela...
O tempo parecia ter voltado no tempo. Não passava mais tão rápido. O tempo não tinha mais pressa.
Em uma manhã de domingo fresca, aconchegada, dilatada, suspensa, envolvida pela maciez dos lençóis, a noção do tempo foi sumindo enquanto eu contemplava as linhas da vida que os místicos afirmam repousar na palma das mãos.
Procurava respostas? Buscava adivinhar futuros?
Naquela manhã silenciosa de domingo eu apenas desejava com ares de cintilância. Enquanto me detinha em alguma linha gravada na pele, simplesmente esperançava que meu mundo tocasse no teu.
Que você não fosse aquela linhazinha tênue, que quase não se vê, ou muito menos aquela linha curtinha, esgarçada ou partida logo no começo. Desejei encontro grande e duradouro, que você fosse aquela linha generosa e bem enroscadinha no lugar que chamam linha do coração.
Então corri atravessando jardins e uma brisa forte desalinhou meus cabelos.
Ah, como eu voaria com o vento para te encontrar...
Sem freios, proclamei o amor de peito aberto!
Joguei as palavras no ar.
Você é capaz de me ouvir?
O tempo parecia ter voltado no tempo. Não passava mais tão rápido. O tempo não tinha mais pressa.
Em uma manhã de domingo fresca, aconchegada, dilatada, suspensa, envolvida pela maciez dos lençóis, a noção do tempo foi sumindo enquanto eu contemplava as linhas da vida que os místicos afirmam repousar na palma das mãos.
Procurava respostas? Buscava adivinhar futuros?
Naquela manhã silenciosa de domingo eu apenas desejava com ares de cintilância. Enquanto me detinha em alguma linha gravada na pele, simplesmente esperançava que meu mundo tocasse no teu.
Que você não fosse aquela linhazinha tênue, que quase não se vê, ou muito menos aquela linha curtinha, esgarçada ou partida logo no começo. Desejei encontro grande e duradouro, que você fosse aquela linha generosa e bem enroscadinha no lugar que chamam linha do coração.
Então corri atravessando jardins e uma brisa forte desalinhou meus cabelos.
Ah, como eu voaria com o vento para te encontrar...
Sem freios, proclamei o amor de peito aberto!
Joguei as palavras no ar.
Você é capaz de me ouvir?
imagem: fotografia de Paulo Amoreira
terça-feira, 9 de junho de 2009
Joana flautista

Foi imensidão e claridade varrendo todas as sombras da noite. Quando seu olhar também se iluminou percebeu que a sala era enorme, arejada, com pé-direito alto, pintada de branco. Nela existiam dois janelões, com cerca de dois metros de altura cada. Uma cortina azul, no tom cerúleo, de um tecido bem leve, dialogava com o vento. A cada sopro, a cortina bailava. No centro da sala, um banco alto, de madeira antiga e estofado de veludo cor de vinho. A casa que Joana estava ficava em um lugar alto, montanhoso, pois da visão da janela ela conseguia avistar uma cidade na base da montanha.
Os janelões abertos de vez em quando deixavam soprar um vento mais forte. Joana gostava da intensidade do vento. Cada rajada chegava em seu corpo como uma carícia, como se o vento fosse seu amante. No embalo do encontro, Joana pegou sua flauta transversa e começou a tocar.
E nesse momento, ela percebeu que estava novamente no sonho.
No encontro do vento e da música, ela viu você.
Você estava lá.
Mas você não existe. Foi apenas o coração de Joana que te idealizou.
Quanto mais o vento de dentro, do sopro na flauta, se encontrava com o vento de fora, mais Joana compreendia que talvez fosse melhor para ela deixar de sonhar.
Os janelões abertos de vez em quando deixavam soprar um vento mais forte. Joana gostava da intensidade do vento. Cada rajada chegava em seu corpo como uma carícia, como se o vento fosse seu amante. No embalo do encontro, Joana pegou sua flauta transversa e começou a tocar.
E nesse momento, ela percebeu que estava novamente no sonho.
No encontro do vento e da música, ela viu você.
Você estava lá.
Mas você não existe. Foi apenas o coração de Joana que te idealizou.
Quanto mais o vento de dentro, do sopro na flauta, se encontrava com o vento de fora, mais Joana compreendia que talvez fosse melhor para ela deixar de sonhar.
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