sábado, 5 de outubro de 2013

Linguagem

Sempre que pego um táxi lembro-me de Clarice Lispector. As conversas da escritora com os taxistas renderam boas crônicas. O fato é que um tipo de sentido aguçado imediatamente se compõe quando entro em um táxi. Talvez por ter quem dirija por mim, propiciando um devanear enquanto olho pela janela. Mas não é só por isso. Confesso que sou tomada por uma curiosidade incontrolável de saber como é a vida desse outro que momentaneamente é responsável por conduzir meu destino. 
Então puxo conversa. O trânsito de Fortaleza é, por motivos óbvios, um tema recorrente. Inusitadamente, com um motorista de outra cidade aprendi um caminho alternativo que driblou vários congestionamentos. Após uma boa conversa, muitos taxistas no intervalo do semáforo ou no fim da corrida, gostam de mostrar as fotos dos filhos no celular. “tudo vale a pena pela felicidade deles”. 
          Nos diálogos, vou colhendo impressões políticas, convicções religiosas, histórias de família. Antônio batizou o banco do passageiro de “divã do analista” e se mostrou orgulhoso ao relatar as façanhas de seu consultório móvel. Segundo ele, seus conselhos já salvaram mais de dez casamentos.
Violência urbana é outro assunto que sempre vem. O diálogo que nunca esqueci aconteceu com Sônia, taxista estreante na profissão. A contragosto substituía o marido, impedido de dirigir, pois sofrera um assalto recente. O marido de Sônia levou um tiro que atravessou a perna e banhou o carro de sangue. “Tá vendo essas marcas? São dos tiros. Foram seis dentro desse carro.”
Emudeci. Enquanto verificava as marcas deixadas pelos projéteis, as palavras ecoavam habitando o silêncio e deixei o olhar perder-se, atravessando a janela. Depois, pelo retrovisor, observei que o medo jorrava do olhar de Sônia. Um medo que identifiquei com tamanha clareza por também ser meu. Um medo que nos enlaçou naquele momento, compartilhando pela linguagem de palavras, silêncios e olhares a fragilidade de nossa condição humana.   
           Ana Valeska Maia Magalhães. 
 (crônica publicada no jornal O Povo edição de 04/10/2013)

4 comentários:

Anônimo disse...

Um medo que e de todos nos.
Parabens pelo texto, professora.
Adelivan Ribeiro, poeta e escritor

Ana Valeska Maia disse...

Grata, te desejo uma excelente semana.

Samara Veras disse...

LINDO TEXTO.

Ana Valeska Maia disse...

:)