segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Tempo de espera

Acho que sou como você: não gosto de filas. Costumo sempre levar um livro para não desperdiçar meu precioso tempo nos intermináveis minutos em filas. Faço isso enquanto aguardo atendimento em banco, supermercado, médico. Aprendi a acreditar que qualquer espera deve ser preenchida com algum sentido.

Dia desses esqueci o livro. Sem meu refúgio habitual tive que observar o mundo ao redor de mim. Constatei o que já sabia: a espera irrita as pessoas. O olhar impaciente dirigido aos ponteiros dos relógios, um agitar de pernas, a cara de poucos amigos. Na fila ao lado duas adolescentes sorriam para a câmera do celular, ensaiando poses.

Espiando o interesse das adolescentes pelas imagens fui recordando outros tempos. Comecei a fotografar com rolo de filme, e existia uma coisa mágica no tempo da espera pelo resultado das fotos. Costumava utilizar todos os recursos técnicos que sabia, harmonizando a sensibilidade do filme com a luz adequada. O resultado, inúmeras vezes, fugia das expectativas criadas.

Esse tempo de espera pelo resultado, grosso modo, foi abatido pela obtenção instantânea proporcionada pela tecnologia. Em um piscar de olhos a imagem ganha publicidade, curtições, comentários e se desfaz. Li em um dos escritos de Roland Barthes: “seja o que for que ela dê a ver e qualquer que seja a maneira, uma foto é sempre invisível: não é ela que vemos”.

O que é este invisível presente nas fotos? Uma parte de nós? Uma projeção? A presença oculta do tempo de espera? Olho novamente para a fila e estou quase lá, na boca do caixa. Preenchi meu tempo com pensamentos. Na mesma fila algumas pessoas puxam conversa, e aproveito para participar também do diálogo. É uma conversa agradável, desarmada, sadia. Um encontro de pessoas que não se conheciam e que provavelmente nunca mais se encontrarão. Nessas pequenas doses do dia existem encantamentos e acho que costumava ler durante o tempo das filas porque é mais seguro ficar fechada em meu mundo. A vida, no entanto, é como o resultado do tempo de espera das fotos com rolo de filme. Tem surpresas, alegrias e decepções reveladas para quem se arrisca viver.  

(artigo publicado no jornal O Povo, edição de 19/11/2012)

2 comentários:

CECILIA VASCONCELOS disse...

Oi Ana,adorei o blog,com o fim das aulas posso sempre passar por aqui e ler seus textos!parabéns :)))

M. S... disse...

Nossa, me identifiquei um bocado com isso. O refúgio dos livros, a vontade de ficar quieta, não ser surpreendida por uma conversa, uma observação ou que quer que seja que tenha o potencial de te remexer nessa rotina toda moldada para dar certo, ser funcional, sem percas de tempo. Mas espera, não era pra gente estar vivendo no final das contas? E a vida não é exatamente um amontado de inesperados nos chamando pra dançar? ;)