segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Te amo, coração.




O coração é como a árvore – onde quiser volta a nascer.

(adaptação de um provérbio moçambicano, retirado do livro O fio das missangas, de Mia Couto)


De julgamentos o mundo está cheio e todos têm suas razões. Disso não quero mais saber. Já fui juíza e quanto mais julgava mais prisioneira era de minhas próprias sentenças. Nem delegada sou para prender alguém.

Tenho apenas uma causa que fundamenta meus dias: a causa do coração.

É dele que brotam minhas raízes.

Na casa da minha vida tinha o hábito de mergulhar na infância e meus pés estavam sempre passando pelo rio que flui.

Este rio é o tempo.

O olhar mergulha nas águas do rio.

No mergulho encontro as lembranças.

As lembranças são sempre úmidas. Gotas do céu, do mar, da face.

Banhada pelas lembranças, bordo memórias.

Tecelã de ofício, bebo das águas da lembrança em pequenos goles, juntando os pontos fio por fio, costurando rendas, rendilhados, arremates e nós cegos.

Vejo lágrimas vertidas e sorrisos retidos.

Vivo sorrisos vertidos e lágrimas esquecidas.

Mergulhado na memória sinto que meu agora é ar.

As lágrimas flutuaram, desapegadas de mim.

Com você sorrio.

Fluida e intensa como o rio que corre para te encontrar.

Tenho asas invisíveis.

Flutuo.

Te amo, coração.


imagem: still da vídeoinstalação The House (2002), da artista Eija-Liisa Ahtila


terça-feira, 24 de novembro de 2009

Algo além de mim


Ontem amanheci ouvindo Legião Urbana, especificamente a música Tempo perdido: todos os dias quando acordo não tenho mais o tempo que passou...

A música lançou meus pensamentos para o reino da introspecção. Esse tempo que passa, fica e vive em mim. Tenho-o na memória. Sou guardiã do tempo. Sou viajante do tempo. E foi assim que diante de mim apareceu uma porta. Como tenho a chave que abre todas as portas resolvi enfrentar a incerteza do que há de vir, girei a maçaneta e entrei no território desconhecido. Após caminhar um pouco atravessando a penumbra de um corredor estreito, encontrei uma mulher sentada a tecer reflexões. Seu manto de reflexões narrava histórias que pareciam caminhar para algum lugar infinito. Perguntei quem ela é e fiquei sabendo que estava diante de uma deusa: Mnemosyne, conhecida como a mãe das Musas, protetoras das artes e da história.

Confesso que não foi fácil quando me dei conta que estava conversando com a deusa Memória. E se ela resolver puxar alguma lembrança que eu não quero recordar? Não teve jeito, tive que encarar a situação. Vi que a tessitura da memória pode ter voz de saudade, pode ser alegria esbanjando entusiasmo, coração acelerado pelo encontro único no mundo, pode ser certeza de amor verdadeiro que o tempo não leva, pode vir como saudade turca, conhecida como “descarinho” e doer como punhal frio mutilando o coração. Na memória cabem todas as dores e amores, fatos, acontecimentos, encontros e rupturas, todos os passos construtores do eu. Vi que o tempo é amigo da memória, que ajuda a arrefecer as lembranças dolorosas e que traz frescor, sopro de vida nova para o que foi bom e é revivido. Pelo caminho da memória viajo no tempo, para além da vida que conscientemente vivo. Pela memória eu sou eu, mas percebo que em minha memória existe algo além de mim. Esse algo é um mistério, um enigma que aos poucos me revela que eu sou imortal.

Quando dei por mim estava em casa, com a janela aberta, contemplando a lua crescente. Estranhamente a Lua conversava comigo e eu fiquei feliz por viver em estado de poesia.


Imagem: obra de Ismael Nery.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Recados


Tenho o privilégio de ser filha de poeta e minha mãe-flor lançará seu terceiro livro de poesias “Recados”, na próxima quarta, dia 25, às 21h, no BNB clube, com direito a show, performances poéticas e muito mais.

Se gostar de poesia, aparece por lá. Eu e a super Laís Teixeira declamaremos alguns poemas do livro. Abaixo a cartinha que fiz e que foi parar na contra capa.


Mãe,


Escrevo-te um recado. Li teu livro e fiquei impactada com teus poemas que nascem do coração. Como a escrita de alguém pode ser inesperadamente a narrativa de minha própria história? Sei que somos mãe e filha, entretanto, não basta o vínculo de sangue. Um encontro real requer mais do ser humano. O fundamental da vida consiste na tessitura de sintonias. Por isso, sempre causa impacto o desfolhamento do encontro que acontece pela linguagem poética. Colhi teu desnudamento como flor que desabrocha, e construí ramalhetes. São bonitos como tu. Na beleza de tuas linhas que entrelaçam nossas vidas foram muitas lições que me passaste. Escrita leve e ao mesmo tempo densa de quem já aprendeu a decantar o melhor da vida sem apego às amarguras do passado. Nas crônicas e nas poesias, tua narrativa confessional me enlaça. Na leitura de todas as mensagens que me foram por ti passadas, a linha maior do amor está sempre presente. Este é o teu recado estampado na tua alegria de viver, no teu carisma e senso ético, amiga dos amigos, mãe dedicada, um ser que transborda generosidade.


É muito bom ser tua filha,

Com amor,

Ana Valeska.


Imagem: obra de Beatriz Milhazes

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Nadí no Sesc


A Nadí é uma menina linda que encantou todos na noite de segunda como falei pra vocês.

Quem quiser ver o talento dessa flor no filme do meu querido amigo Déo Cardoso, o filme será exibido em película nessa quinta-feira, dia 19 de novembro, as 19h no Cine Sesc Severiano Ribeiro (antigo Cine São Luiz) na Praça do Ferreira.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Pode me chamar de Nadí


Ontem foi uma noite especial para mim e para os alunos da disciplina Ciências Humanas e Sociais.

Recebemos na Fanor dois convidados encantadores: o cineasta Déo Cardoso e a atriz principal de seu mais recente filme: "Pode me chamar de Nadí".

Nesse momento da disciplina estudamos as relações de poder e as questões culturais. O filme encantou os participantes e depois Déo e Nadí falaram sobre a experiência da produção, filmagem e exibição. Durante o debate muitos assuntos afloraram, principalmente os temas relacionados ao racismo, às ações afirmativas e ao desafio de trabalhar com cultura em nosso país.

Na foto, eu, Déo e Nadí.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Depois do sonho

Depois do sonho da busca, da caminhada e da chave, recordei de uma citação do Hermann Hesse, do livro o Lobo da Estepe, que utilizei como epígrafe no meu livro:

“Você já sabe onde se oculta esse outro mundo, já sabe que esse outro mundo que busca é a sua própria alma.Só em seu próprio interior vive aquela outra realidade por que anseia. Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo, não posso abrir-lhe outro mundo de imagens além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar, a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível seu próprio mundo, e isso é tudo.”

Hermann Hesse, O Lobo da Estepe.

Caminho V - A entrega da chave

Não lembro exatamente como saí da sala de espelhos com a vida bailarina e entrei na sala do chaveiro. O fato é que eu estava lá diante dele. Cheguei depois de uma longa caminhada, subindo ladeiras e escadas, passando por várias vidas. Foi então que o chaveiro apontou para uma caixa presa à parede. Abriu a caixa e lá havia um cadeado delicadamente ornamentado. Ao lado, uma chave. Ele abriu o cadeado, entregou-me a chave e disse:

Siga! A partir de agora você tem a chave que abre qualquer porta.

Não entendo de sonhos. Mas esse falou por si.

Portanto, por tanto, caminho.

Beijos.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Caminho IV

Caminho na atmosfera do sonho. A chave do meu destino está no meu passado ou existe um futuro traçado no reino do onírico? A arquitetura da estrada que percorro expõe um milênio íntimo. Vida entrelaçando vida. Sonho dentro do sonho. Passo por lugares da infância, relembro estações longínquas, frames, relances, e vou costurando o filme, pai, mãe, avó, marido, irmãos, filhos, amores perdidos, nascentes, permanentes, marcas, relevos, depósitos, construções. Tijolos unidos fio por fio. Chego numa sala de espelhos e lá está uma criança bailarina, que dança na ponta dos pés e ao rodopiar adquire as transformações do tempo. Rodopia até ficar velha, para por alguns segundos e recomeça a dança, jovem outra vez.

Caminho III

Esqueço a porta, o caminho, a nitidez dos objetos aos poucos escapa. A sensação, entretanto, nunca vai embora. Essa sensação é a atmosfera do que deve ser vivido. Respiro a atmosfera e aos poucos percebo que é a memória que respira. A memória sou eu.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Caminho II

Uma cidade imaginária invade Fortaleza. Caminho em ruas alternadas. Metade realidade, metade sonho. Já subi muitas escadas e ladeiras. Sigo entrando em ruas, becos, alguns são sem saída e quando volto estou em um lugar estranho, em uma paisagem diferente de quando entrei. Procuro, procuro e nada de encontrar um chaveiro. A consciência de que estou perdida lança um punhal frio no coração. Já nem lembro o formato da porta que se fechou, nem o caminho de volta pra casa.

Caminho



Novamente sonho caminhando. Um som atrai minha atenção. Vou até a calçada saber do que se trata. Um vento forte fecha a porta do lugar onde estou. É uma pancada assustadora. A porta está trancada. Só me resta procurar um chaveiro que possa abrir a porta pra mim. Caminho pela cidade e não consigo chegar a um destino conhecido. Encontro pessoas nas ruas e avenidas que também parecem buscar suas chaves. Subo ladeiras, subo muitas escadas, que vão afunilando, os degraus ficam estreitos, quase não consigo pisar neles, está sempre pulsando a possibilidade da queda. Não cogito voltar. Sigo, apesar do perigo.


terça-feira, 10 de novembro de 2009

I Sistema de Cultura de Fortaleza


Próximo dia 21 de novembro, nos jardins o Iate Clube, minha querida amiga Marcia Sucupira fará o lançamento do livro sobre o I Sistema de Cultura da cidade de Fortaleza.
Segue o texto que escrevi para a orelha do livro.

"Chovia intenso, as gotas caíam grossas, lavando as pedras e irrigando o solo. Enquanto caminhava para a palestra inaugural da turma de 2004, do mestrado em Políticas Públicas da UECE, senti que o ar naquele dia de chuva vibrava diferente, como se afastasse de mim as noções fixas que tenho das coisas para anunciar um encontro especial. Pensei que minha intuição alertava para a importância do palestrante ou coisa parecida. Não era nada disso. O impacto do dia foi ver Marcia pela primeira vez e sentir meu coração anunciar que seríamos irmãs. Cada dia aprendo mais com a Marcia. Conversamos sobre poesia, direito, vida, compartilhamos escritos e tessituras de mundo. É um grande prazer conviver com uma pessoa dotada de inteligência tão privilegiada e que traz, nesse momento, uma fértil contribuição para a discussão referente aos direitos culturais. Com aguçado senso crítico, evidencia as linhas e entrelinhas do processo de criação do I Sistema de Cultura da cidade de Fortaleza".
Ana Valeska Maia.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A Rua Grita Dionísio!


Meu amado Warat lança mais um livro:

A Rua Grita Dionísio!

Direitos Humanos da Alteridade, Surrealismo e Cartografia.


E eu sou invadida em minhas ruas e avenidas por um desejo dionisíaco de leitura.



quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Aqui e agora


Aqui é o céu. Aqui é o mar. Aqui pode ser também lua, estrelas, árvore, floresta, casa, a minha casa, ou talvez aqui pode ser a tua casa. Aqui podem ser os olhos do ser amado ou as palavras de uma poesia. Aqui pode ser um filme de amor, ou um sorriso, quem sabe um retrato antigo, uma pintura, um espelho. Aqui pode ser você. Aqui pode ser uma coleção de cds, várias borboletas, uma revoada de pássaros, um lago, um parque, um sorvete de tapioca. Aqui pode ser criança, cachorro, gato, flor, espinho, rede na varanda, tinta, pincel. Aqui é verde, vermelho, azul, amarelo. Aqui é mistura de cor. Tudo pode ser aqui.
O agora pode ser alegria, encantamento, agora pode ser florescer de sentimento, agora pode ser luz, certeza de caminho, saudade. Agora pode ser o bem, a serenidade, o amor, o agora é o ser.
O aqui e o agora são sempre aqui e agora. Eles sempre são.

Meu aqui é sofá do escritório, computador, café preto e meu agora é pensamento nos percursos para encontrar o sentido da fenomenologia do espírito, de Hegel. Esse camarada andou escrevendo sobre o ser e o não-ser e são palavras que me enovelam, pois quero captar-lhes o sentido, como o pensamento sobre o sensível, que o que vemos, é, logo a seguir, o que não é. Se o “aqui” é flor, podemos, no momento seguinte, ter uma realidade completamente diferente, que ainda é “aqui”.
Aqui pode ser jardim ou pode ser deserto.

Hegel também andou falando da unidade dialética, do finito compreendido a partir de seu oposto, o infinito, o universal. Viajando pela dialética penso que estamos em um momento de negação e superação de uma determinada ordem. Com certeza estamos! Hoje participei da gravação do programa Viva, da Tv O Povo e lancei um comentário otimista sobre nosso futuro (apesar do tema ser o ano de 2012 e as teorias acerca do fim do mundo!) Sabemos que a humanidade anda infectada com uma severa crise de percepção, muito apegada com o modelo capitalista desenvolvimentista, apartada da natureza, iludida pelo espetáculo, pelo hedonismo, mas nosso momento de crise pode ser o fim de um ciclo e surge como uma oportunidade de superação. Estamos, creio, no ponto de mutação, na iminência da virada da onda.

E nesse agora que me habita me vejo aqui como a Terra. Sinto a Terra. A Terra sou eu, é a minha respiração, o meu olhar, a minha voz, tudo está entrelaçado no universo e eu ando pelo mundo prestando atenção em cores, unida a todos os seres que integram o universo, cada dia mais consciente que a música que escuto é a sinfonia da Terra e que sou um fio na grande rede da vida. O que quer que façamos à Terra, faremos a nós mesmos. Esse é o nosso aqui, o nosso agora.
Que seja tessitura boa, como jardim!

Nesse momento, o meu agora, o meu aqui, é o mundo.