
O primeiro olhar do dia era sempre branco. Acordava esquecida de quem eu era. O recobrar da consciência obedecia cada piscadela, afastando o mundo dos sonhos do sono, que ainda estavam frescos no primeiro olhar do dia. Enquanto olhava para o teto ou para as paredes nuas do meu quarto branco, recordava do sonho e você chegava em meus pensamentos. Eu me lembro da primeira vez que te vi passar, apressado, pelos corredores, com uma mochila nas costas. Na segunda vez que te vi, nos vimos, eu subia a escada, você descia, e nossos olhares se encontraram. Foi um segundo eterno. Os segundos seguintes abalaram a solidez de minhas estruturas: tremores nas pernas, coração descompassado, mãos geladas e um fogo ardendo por dentro, um rio em correnteza arrastando tudo por dentro, tudo intenso, vivo demais. Com a avalanche que me atravessava, vinha junto a certeza que estávamos enlaçados.
Nem sei mais por quantas vezes nossos olhares se encontraram. Ficamos meses nessa condição. Não sabia teu nome, tua origem, teus gostos, nada. Durante um bom tempo apenas os olhares existiram e eles eram imensos. Seguia meus dias acompanhada do teu olhar no meu e isso coloria a vida. Um dia você resolveu romper o invólucro da contemplação e perguntou se eu queria ajuda. “Ajuda pra quê?”, indaguei. “Esses livros estão pesados, deixa que eu levo pra você”. Seguimos pelo corredor, cúmplices. Sempre existe algo oculto nas palavras e entre o proferido e o silenciado nos entendemos. Ao pegar meus livros de volta nossas mãos se tocaram e a energia foi tamanha que nunca mais nos desgrudamos. Nos desnudamos sem freios, sem medos, tecendo poesia pelos caminhos compartilhados, rindo, rindo muito, bobos sem-vergonha com nosso enamoramento, adultos feito crianças que se encantam com cada flor que desabrocha, crianças feito adultos que passam o dia trancados no quarto trocando pele, imersos no cheiro de nossos corpos entregues, você acariciando meus cabelos, eu segurando sempre a tua mão, nós, entrelaçados, navegando em nossos desejos, mergulhando em nossos mistérios, descobrindo o sentido de estarmos vivos, é para amar, é para amar que estamos aqui e estou imensamente feliz porque agora o meu primeiro olhar do dia é sempre para você, meu amor.
Imagem: Penélope Cruz, no filme Elegy
Nem sei mais por quantas vezes nossos olhares se encontraram. Ficamos meses nessa condição. Não sabia teu nome, tua origem, teus gostos, nada. Durante um bom tempo apenas os olhares existiram e eles eram imensos. Seguia meus dias acompanhada do teu olhar no meu e isso coloria a vida. Um dia você resolveu romper o invólucro da contemplação e perguntou se eu queria ajuda. “Ajuda pra quê?”, indaguei. “Esses livros estão pesados, deixa que eu levo pra você”. Seguimos pelo corredor, cúmplices. Sempre existe algo oculto nas palavras e entre o proferido e o silenciado nos entendemos. Ao pegar meus livros de volta nossas mãos se tocaram e a energia foi tamanha que nunca mais nos desgrudamos. Nos desnudamos sem freios, sem medos, tecendo poesia pelos caminhos compartilhados, rindo, rindo muito, bobos sem-vergonha com nosso enamoramento, adultos feito crianças que se encantam com cada flor que desabrocha, crianças feito adultos que passam o dia trancados no quarto trocando pele, imersos no cheiro de nossos corpos entregues, você acariciando meus cabelos, eu segurando sempre a tua mão, nós, entrelaçados, navegando em nossos desejos, mergulhando em nossos mistérios, descobrindo o sentido de estarmos vivos, é para amar, é para amar que estamos aqui e estou imensamente feliz porque agora o meu primeiro olhar do dia é sempre para você, meu amor.
Imagem: Penélope Cruz, no filme Elegy







