segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O primeiro olhar do dia


O primeiro olhar do dia era sempre branco. Acordava esquecida de quem eu era. O recobrar da consciência obedecia cada piscadela, afastando o mundo dos sonhos do sono, que ainda estavam frescos no primeiro olhar do dia. Enquanto olhava para o teto ou para as paredes nuas do meu quarto branco, recordava do sonho e você chegava em meus pensamentos. Eu me lembro da primeira vez que te vi passar, apressado, pelos corredores, com uma mochila nas costas. Na segunda vez que te vi, nos vimos, eu subia a escada, você descia, e nossos olhares se encontraram. Foi um segundo eterno. Os segundos seguintes abalaram a solidez de minhas estruturas: tremores nas pernas, coração descompassado, mãos geladas e um fogo ardendo por dentro, um rio em correnteza arrastando tudo por dentro, tudo intenso, vivo demais. Com a avalanche que me atravessava, vinha junto a certeza que estávamos enlaçados.
Nem sei mais por quantas vezes nossos olhares se encontraram. Ficamos meses nessa condição. Não sabia teu nome, tua origem, teus gostos, nada. Durante um bom tempo apenas os olhares existiram e eles eram imensos. Seguia meus dias acompanhada do teu olhar no meu e isso coloria a vida. Um dia você resolveu romper o invólucro da contemplação e perguntou se eu queria ajuda. “Ajuda pra quê?”, indaguei. “Esses livros estão pesados, deixa que eu levo pra você”. Seguimos pelo corredor, cúmplices. Sempre existe algo oculto nas palavras e entre o proferido e o silenciado nos entendemos. Ao pegar meus livros de volta nossas mãos se tocaram e a energia foi tamanha que nunca mais nos desgrudamos. Nos desnudamos sem freios, sem medos, tecendo poesia pelos caminhos compartilhados, rindo, rindo muito, bobos sem-vergonha com nosso enamoramento, adultos feito crianças que se encantam com cada flor que desabrocha, crianças feito adultos que passam o dia trancados no quarto trocando pele, imersos no cheiro de nossos corpos entregues, você acariciando meus cabelos, eu segurando sempre a tua mão, nós, entrelaçados, navegando em nossos desejos, mergulhando em nossos mistérios, descobrindo o sentido de estarmos vivos, é para amar, é para amar que estamos aqui e estou imensamente feliz porque agora o meu primeiro olhar do dia é sempre para você, meu amor.

Imagem: Penélope Cruz, no filme Elegy


quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Marina na FA7

Em meu post anterior tratei dos discursos sem base dos políticos acerca da questão ambiental.
Para ver e ouvir um discurso verdadeiramente comprometido e embasado, hoje teremos em Fortaleza um evento imperdível: a senadora Marina Silva falará sobre sustentabilidade e desenvolvimento, proferindo palestra intitulada "Sustentabilidade e Desenvolvimento do Brasil no Século XXI", às 19:30 horas, no Teatro Nila Gomes de Soárez, no 5.º andar, da FA7. (promoção do Curso de Direito).
O endereço da Faculdade 7 de Setembro é Rua Alm. Maximiniano da Fonseca, 1395 - Eng. Luciano Cavalcante - CEP 60811 - 020.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O discurso do meio ambiente

Desconfio dos discursos e creio nas ações. Portanto, é com desconforto que analiso os discursos dos presidenciáveis Ciro Gomes, Dilma Rousseff e Aécio Neves com relação ao meio ambiente. É forçado, mascarado, sem base. Interessante que após o anúncio da possível candidatura de Marina Silva houve uma fala ecológica agregada ao que antes era tingido com as cores desenvolvimentistas e mercadológicas. E, lembrando Gramsci, quando um discurso é institucionalizado pelo Estado capitalista, a quem servirá? A quem estamos servindo?
Susan Sontag e José Saramago afirmaram que mesmo com toda a sofisticação tecnológica permanecemos ainda na caverna de Platão, imersos em um mundo de aparências, transformando sombras em fundamentos para criar realidades.
Existe uma questão profunda a ser tratada nessa problemática. Se, na realidade, tudo é tecido junto, (teoria da complexidade) como uma relação harmônica entre os seres humanos e o meio ambiente poderá ser construída sem uma relação harmônica dos seres humanos entre si?
Ainda somos contaminados com a herança do paradigma cartesiano, fragmentário, dividido, dicotomizado. Foi introjetado em nosso processo de educação uma visão antropocêntrica de mundo, excluindo o homem da natureza, destacando-o como um “eu” superior, para que seja possível dominar, explorar, destruir, corroborando com a visão de “progresso”, com a condução desenvolvimentista, enfim, capitalista.
Precisamos de ações, sentimentos e pensamentos mais coerentes e comprometidos realmente com a perspectiva ecológica (re-significando nossa relação com o mundo), que não deve ser sabotada por um discurso ecológico farsante e oportunista. Infelizmente, ontem, dia 21, que trouxe o simbolismo da comemoração do dia da árvore, flagramos ações de eliminação de árvores pela cidade, amparadas pelo poder público. “Em nome do desenvolvimento, destruam”.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Agnès Varda


Houve um tempo em que eu vivia enovelada na linguagem da Nouvelle Vague francesa. Um tempo em que meu tempo fluía imenso para o olhar do cinema e eu me encantava com as imagens de Chabrol, Godard, Truffaut. Nesse movimento encontrei Jacques Demy e posteriormente, Agnès Varda.


Por isso o disparo no coração quando fiquei sabendo que Agnès Varda estará em Fortaleza entre os dias 21 e 25 de setembro para lançar o seu mais novo filme “As Praias de Agnès” (Les Plages d'Agnès), que abrirá a Mostra Varda por aqui.

Cléo de 5 às 7 foi um marco. Aliás, a trajetória artística de Varda é marcante como é todo olhar do artista que realmente se entrega para a vida.

Obs: o lançamento nacional do filme, no dia 21, será às 19h, nas duas salas de cinema do Unibanco, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura - rua Dragão do mar, 81, Praia de Iracema.

Semana Varda

Durante a semana da Mostra Varda em Fortaleza, de 22 a 25 de setembro, serão exibidos filmes da cineasta e realizados encontros entre pesquisadores, realizadores e estudantes de cinema e audiovisual.

Os encontros acontecem na Casa Amarela Eusélio Oliveira e no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, onde a cineasta profere a palestra "As Praias de Varda - cinema, fotografia e instalações”.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O amor (ou a recordação de quem realmente somos)


Revendo e re-sentindo os fragmentos, segui pulsando intensa e fluida em cada passagem dos palcos da memória. Num movimento inimaginável todas as partes soltas encontraram encaixe nos capítulos do livro de minha vida. Reli minha história. Observando a tessitura de minha narrativa autobiográfica fui envolvida pela constatação de todo o tempo que estive aguardando nosso reencontro. Por isso o tempo nas estações, observando as saídas e partidas, o entrançamento de vidas. Gente de todas as formas e cores seguindo viagem, provenientes de todos os lugares, com movimentos sedutores e chamados instigantes. Essas pessoas passavam por mim enquanto eu permanecia. Por três vezes me enganei com o chamado e num arrebatamento, entrei no trem, convicta que era você e que finalmente seguiríamos unidos nosso percurso. Descia na estação seguinte, decepcionada e retalhada com meu engano. Era duro descobrir que não era você. O tempo entre uma estação e outra costumava levar anos e meu erro tributava um cansaço em te decodificar e não te encontrar. Posso traduzir em uma palavra: acúmulo. O tempo foi passando e fui me sentindo muito só, o peso da dor da saudade me rondava e tantas vezes fez doer demais meu coração. Desesperancei. Sei que nascemos sozinhos e morreremos sozinhos e o sentido que levaremos da aprendizagem na Terra é individual, mas o que fazer? Também traçamos nosso ser através das relações que estabelecemos com os outros e isso atravessa as estações das vidas que vivemos. Ser uma recordada do que nós vivemos deixou minha memória presa a você. Então, quando eu já nem mais te esperava e a solidão não mais me assustava, você me encontrou à sua espera no banco da estação do metrô. Você chegou e me puxou pela mão e com seu abraço me senti finalmente acolhida. De súbito, as águas surgiram de todas as direções para que mergulhássemos em nossos mundos, para nos reencontrarmos, nos reconhecermos. Na trajetória que a partir de agora juntos escreveremos encontramos em nosso começo muitos sinais e símbolos a nos envolver: baús de memórias, frascos com preciosidades, paisagens misteriosas, contos de fadas, pigmentos, essências, todos os elementos da natureza abrindo caminhos. Temos o olhar da poesia, por isso fomos contemplados com o poder da alquimia. Esse olhar é o que percebe que sempre existirá mais para ver no que é visto, “o essencial invisível aos olhos”, de Exupéry. Você tem esse olhar, eu tenho esse olhar. Por isso, já em nosso começo, mergulhamos e sobrevoamos o mundo, aquáticos e alados. Construindo a poesia do amor que floresce a partir do encontro de almas desarmadas. É essa escritura que se traduz em amor que conduz à recordação de nossa origem, de quem realmente somos. Únicos e igualmente universais.
imagem: foto do Daimon Amoreira

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Ana e o Mar


Ana aproveitava os carinhos do mundo
Os quatro elementos de tudo
Deitada diante do mar
Que apaixonado entregava as conchas mais belas
Tesouros de barcos e velas
Que o tempo não deixou voltar

Onde já se viu o mar apaixonado por uma menina?
Quem já conseguiu dominar o amor?
Por que é que o mar não se apaixona por uma lagoa?
Porque a gente nunca sabe de quem vai gostar

Ana e o mar... mar e Ana
Histórias que nos contam na cama
Antes da gente dormir

Ana e o mar... mar e Ana
Todo sopro que apaga uma chama
Reacende o que for pra ficar

Quando Ana entra n'água
O sorriso do mar drugada se estende pro resto do mundo
Abençoando ondas cada vez mais altas
Barcos com suas rotas e as conchas que vem avisar
Desse novo amor... Ana e o mar
(trecho de Ana e o Mar, O Teatro Mágico)

Funcionária de empresa privada não pode se dar a rompantes. Tem que bater cartão de ponto, cumprir horário e entregar relatório. Acredito sim, na ordem, e até sou obediente na execução das funções que me tributam, mas ontem mandei tudo às favas. Não quis nem saber. Quando a complicação cresce ao ponto de deixar o coração moído peço a consultoria do Mar e foi pra lá que eu fui. Sol baixando, reunião no trabalho começando e eu longe, descendo do salto. Pisando encantada na areia apesar do passo ainda desgrenhado, procurando alinhar caminho. No elementar de tudo, na terra, no ar que respirava profundo, no ritmo pulsando sintonia com a natureza, fui mergulhando no vai e vem das ondas. As águas do Mar embalam o ser na vibração de um mantra. Sempre um leva e traz. Sempre o movimento. Sempre continuidade. Sempre existência e fluir. Sempre algo que vai embora e algo que inevitavelmente chegará. Coração ainda apertado, sentindo pelo fluxo do que é natural que foi por estarmos contrários à nossa natureza que te disse adeus. Meu amor, nós estávamos estáticos e isso é assustador. Afinal, não somos seres isolados do universo. A regra é o movimento e nós não saíamos do lugar. Não é justo petrificarmos o caminho. É uma violência. Eu sei que dói o adeus, maltrata o íntimo, é um tipo de morte. Nós morremos para o que nasceu e não pôde existir. Foi querer grande, de vida inteira, espera paciente e sonhos de díade tecidos. Mas não foi adiante. Nem veio. Parou no tempo. Suspenso. Em cumplicidade com o movimento da natureza meu olhar fez ponte com o infinito e nesse momento te entreguei para o Mar. Que ele receba o que de ti em mim habita. Criando espaço para a surpresa futura que for do meu merecimento receber. Ritual cumprido, retirei a areia dos pés e voltei para o trabalho. Aparentemente nem sentiram minha falta, minha pequena transgressão escapou incólume. Com o olhar ainda amalgamado com a ressaca de Mar e Tempo segui meu ofício que é proferir palavras. Entregue ao devir da vida meu dia terminou encantadoramente doce e os sonhos da madrugada foram de Mar. Sonhei com palavras líquidas, banhando-me em novos horizontes que irrigavam as estradas que percorrerei. O Mar do sonho trazia palavras que eram depositadas aos meus pés. Eu colhia palavras que eram imediatamente mescladas ao vento. Foi colhendo as palavras que se grafou o verbo. Amar. Misturado ao ar passei a respirar o verbo do sentimento. Nesse momento tive visões de futuro e teus dedos quentes entrançaram os meus. Foi poesia de sonho enlaçando bonito a vida para anunciar o nascer de um novo amor ou o reacender do que for pra ficar.

Imagem: foto do Daimon Amoreira

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Água Wasser Water

Dia 11, no Museu de Arte Contemporânea, haverá o coquetel de abertura da exposição coletiva Água Wasser Water, com artistas brasileiros e alemães. Destaco a participação das queridas artistas e amigas Ana Cristina Mendes, Cláudia Sampaio e Maíra Ortins.

domingo, 6 de setembro de 2009

Nós (ou o lamento da triste despedida de um amor)


Um domingo de Sol é você todo. Pela milésima vez afasto os pensamentos, mas é inevitável. No dia mais iluminado do ano chega a clara visão: nossos nós pesam. Ficaram maiores desde que nos separamos e continuam a crescer com o tempo. Difíceis de desentranhar. Nós aos pedaços. Quem dera fossem frouxos. Seriam mais fáceis de lidar, desataríamos os nós e poderíamos fazer laços bonitos por aí com a parte que coubesse a cada um. Mas não são. Serão nossos nós tão apertados ao ponto de estarem cegos? Nós cegos são cárceres. Nada flui no imenso oceano de nós mesmos e ficamos prisioneiros de um minúsculo- infinito mundo particular. Parados, peixes petrificados esperando algum milagre que desfaça os nós. Ou um herói-marinheiro que mostre a rota para navegar melhor nesse mar. Difícil sem desencalhar o navio. Enquanto isso, vou juntando os cacos. Parecem com o corpo do pão que peguei para comer e que se esfacelou em minúsculas migalhas. São cacos leves de mim. Qualquer mínimo vento ameaça levar os pedaços e para não me perder de vez e correr o risco de não mais me encontrar fico quietinha entregue apenas ao movimento da memória que nada no contra fluxo da maré do tempo. Em mim moram as lembranças de nossos nós poéticos, melífluos, cúmplices, lapidados, quando nossos corpos se entendiam e nossas almas desnudavam-se e os fragmentos ocasionais não assustavam, a vida tinha tanto encantamento, cor e luz que nossa solda era eficaz e delicada, qualquer parte partida era imediatamente colada sem traumas. Meu amor, doeu fundo o erro que cometeste e a punhalada que me deste pelas costas. Por isso você me fazia colares com cacos de vidro? Era anúncio, aviso, presságio bélico de nossos nós unidos para serem partidos? É triste quando se quebra um laço de amor. Ficamos à mercê da benevolência do tempo para dissolver a metamorfose dos nós, o coração vai se recompondo de pedaço em pedaço, em retalhos. DE-VA-GAR. De vagar em vagar passo a passo segue o tempo e permanece um engasgo, um nó preso bem no meio da garganta, nó intenso, especialmente gigante, nesse lindo domingo de Sol.
Imagem: "namorados", obra de Ismael Nery

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Arte em crivo com Kátia Canton


Estarei lá!!!

Misturas


O povo da arte não entende porque eu insisto no direito.
O povo do direito não entende muito o que eu faço na arte.
A resposta é simples: a arte precisa do direito e o direito precisa muito da arte!!!

Fundamentalmente é uma questão de aprender a olhar para quem realmente somos ou podemos ser. Ontem estive com 25 alunos do curso de Direito numa visita guiada ao fórum Clóvis Beviláqua.
Foi um momento muito especial, pois para quase todos os alunos foi a primeira vez no fórum!!!
Um olhar estava sendo construído e isso não é qualquer coisa!

Senti a força desses primeiros passos no encantamento dos alunos, pela colheita que eu fazia das impressões narradas enquanto caminhávamos pelas salas, gabinetes, corredores e rampas do fórum.

Tivemos a sorte de encontrar servidores e juízes nos recebendo com simpatia, alegria e fé na justiça.

Destaco especialmente a visita à 2ª vara de família, e a atenção especial que o juiz deu aos alunos, incentivando-os a ter firmeza e esperança na profissão, mostrando como a vida está entrelaçada no direito, muito além do que autoriza a letra fria da lei ou a visibilidade permitida pelas páginas de um processo.

E ao final das contas, para que serve essa separação entre direito, vida e arte mesmo?

Quero as misturas!
p.s. onde está a ana? dá pra ver um pouquinho, do lado da deusa...

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Contra o fluxo


Hoje, às 18h30min, no Mercado dos Pinhões, em Fortaleza, haverá a exposição do vídeo “Contra o fluxo” - Vídeo Performance de Ana Cristina Mendes, uma das artistas de produção mais fértil atualmente na cidade.

“Contra o fluxo”, é um vídeo que exibe uma ação executada em Fortaleza, na Ponte dos ingleses (Ponte velha) e integra os trabalhos exibidos na exposição Intro_missão realizada em maio de 2008 no Centro cultural do Banco do Nordeste. “Tendo o vídeo como resultado, o trabalho, de forma sutil, ao mesmo tempo em que busca falar de limites, propõe ao expectador uma quebra no tempo, tempo esse, que se dilata à medida que um vasto tecido branco vai servindo de território a ser percorrido por uma mão que costura seus sonhos, afetos, sentimentos e desejos”.

“Contra o fluxo” é um convite ao sonho. Imperdível.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Finalmente desapegada de ti




Chego aos campos e vastos palácios da memória, onde estão tesouros de inumeráveis imagens trazidas por percepções de toda a espécie... ali repousa tudo o que a ela foi entregue, que o esquecimento ainda não absorveu ou sepultou... Aí estão presentes o céu, a terra e o mar, com todos os pormenores que neles pude perceber pelos sentidos, exceto os que esqueci. É lá que me encontro a mim mesmo...
Confissões, Santo Agostinho.


Ontem enquanto falava sobre o tempo e a memória na sala de aula, citei uma passagem da animação “A viagem de Chihiro” com pinceladas freudianas inconscientes:

Nada é esquecido mesmo que não seja lembrado.

Hoje pela manhã fui conversar com as plantas do meu jardim. Agarrei a terra e observei os grãos de areia seca escaparem por entre os dedos e foi assim que se fez o insight.

O problema é o apego!

Penso em você que se foi. Apegada às memórias fico agarrando os fios das lembranças no ofício de tecelã da delicadeza das linhas dos laços que nos entrelaçaram. Muitos pedaços de sonho bóiam nesse mar sem fim. Para alguns desses sonhos, preciso dizer adeus. Não há terra nem mar que os suporte. Eles pesam em sua leveza insustentável. No marco da passagem do tempo o que passou só é presente nesse espaço chamado Eu. Ainda ouço as palavras e os sons de mel de nossas tessituras, as promessas de eternidade..., sinto o toque de tuas mãos quentes, vejo as cores da tua presença ausente. Mas você foi para outra dimensão no tempo e não pode mais ser real para mim. Nosso caminhar não é mais nosso e eu não posso seguir viagem acompanhada de fantasmas. Nossos nós foram desatados e desejo um dia poder te guardar em algum lugar perdido em minha memória, sem lembranças e finalmente desapegada de ti. Para viver um novo amor. Real. Como eu sou.

Imagem: A viagem de Chihiro