sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Ana e o Mar


Ana aproveitava os carinhos do mundo
Os quatro elementos de tudo
Deitada diante do mar
Que apaixonado entregava as conchas mais belas
Tesouros de barcos e velas
Que o tempo não deixou voltar

Onde já se viu o mar apaixonado por uma menina?
Quem já conseguiu dominar o amor?
Por que é que o mar não se apaixona por uma lagoa?
Porque a gente nunca sabe de quem vai gostar

Ana e o mar... mar e Ana
Histórias que nos contam na cama
Antes da gente dormir

Ana e o mar... mar e Ana
Todo sopro que apaga uma chama
Reacende o que for pra ficar

Quando Ana entra n'água
O sorriso do mar drugada se estende pro resto do mundo
Abençoando ondas cada vez mais altas
Barcos com suas rotas e as conchas que vem avisar
Desse novo amor... Ana e o mar
(trecho de Ana e o Mar, O Teatro Mágico)

Funcionária de empresa privada não pode se dar a rompantes. Tem que bater cartão de ponto, cumprir horário e entregar relatório. Acredito sim, na ordem, e até sou obediente na execução das funções que me tributam, mas ontem mandei tudo às favas. Não quis nem saber. Quando a complicação cresce ao ponto de deixar o coração moído peço a consultoria do Mar e foi pra lá que eu fui. Sol baixando, reunião no trabalho começando e eu longe, descendo do salto. Pisando encantada na areia apesar do passo ainda desgrenhado, procurando alinhar caminho. No elementar de tudo, na terra, no ar que respirava profundo, no ritmo pulsando sintonia com a natureza, fui mergulhando no vai e vem das ondas. As águas do Mar embalam o ser na vibração de um mantra. Sempre um leva e traz. Sempre o movimento. Sempre continuidade. Sempre existência e fluir. Sempre algo que vai embora e algo que inevitavelmente chegará. Coração ainda apertado, sentindo pelo fluxo do que é natural que foi por estarmos contrários à nossa natureza que te disse adeus. Meu amor, nós estávamos estáticos e isso é assustador. Afinal, não somos seres isolados do universo. A regra é o movimento e nós não saíamos do lugar. Não é justo petrificarmos o caminho. É uma violência. Eu sei que dói o adeus, maltrata o íntimo, é um tipo de morte. Nós morremos para o que nasceu e não pôde existir. Foi querer grande, de vida inteira, espera paciente e sonhos de díade tecidos. Mas não foi adiante. Nem veio. Parou no tempo. Suspenso. Em cumplicidade com o movimento da natureza meu olhar fez ponte com o infinito e nesse momento te entreguei para o Mar. Que ele receba o que de ti em mim habita. Criando espaço para a surpresa futura que for do meu merecimento receber. Ritual cumprido, retirei a areia dos pés e voltei para o trabalho. Aparentemente nem sentiram minha falta, minha pequena transgressão escapou incólume. Com o olhar ainda amalgamado com a ressaca de Mar e Tempo segui meu ofício que é proferir palavras. Entregue ao devir da vida meu dia terminou encantadoramente doce e os sonhos da madrugada foram de Mar. Sonhei com palavras líquidas, banhando-me em novos horizontes que irrigavam as estradas que percorrerei. O Mar do sonho trazia palavras que eram depositadas aos meus pés. Eu colhia palavras que eram imediatamente mescladas ao vento. Foi colhendo as palavras que se grafou o verbo. Amar. Misturado ao ar passei a respirar o verbo do sentimento. Nesse momento tive visões de futuro e teus dedos quentes entrançaram os meus. Foi poesia de sonho enlaçando bonito a vida para anunciar o nascer de um novo amor ou o reacender do que for pra ficar.

Imagem: foto do Daimon Amoreira

7 comentários:

Fernando Bacelar disse...

Tú é linda!!!!

Anônimo disse...

(Jo)Ana,
Difícil deixar de visitar teu blog;
Impossível não se sentir tomado por esse cheiro de mar, esse gosto de sol, essa visão infrinita de um (a)mar sem fim.
Jô.

Eduardo Matzembacher Frizzo disse...

Se pensamento é pulsação do pensar, sentimento é pulsação do sentir. Mar adentro, vida afora, é desse leva e traz que compomos a partitura de impossivel execução daquilo tudo que somos. Quanto a empresa privada, também trabalho em uma. De ensino, faculdade, mas ainda assim privada. Obrigações são boas. Mas obrigações demais são como considerar que uma compreensão profunda das partes nos dará conhecimento do todo. E com Morin tento me construir como um ser que sabe que o todo está na parte e a parte está no todo. Logo, tudo é via de mão dupla: pulsação do pensar e do sentir no porão do que somos - mar lilás feito de veias, lágrimas e reflexos da nossa vida que ainda não se fez viver. Aparecer aqui é sempre um prazer. Que tal fundarmos uma faculdade de direito no futuro? Brincadeiras à parte, deixo um beijo pra você. Com carinho e admiração, Eduardo.

Ana Valeska Maia disse...

Eduardo, teus comentários sempre são jardim.
E se eu levar a sério a brincadeira?
Bj grande, com carinho e admiração recíprocos.

glória disse...

Ana,o mar é tua condição natura. sal do oceano adornando a vontade de nova terra, de novos ventos, bem onde o tempo bate nos cabelos. Posso ver!

"Foi colhendo as palavras que se grafou o verbo. Amar. Misturado ao ar passei a respirar o verbo do sentimento."

palavras que ao serem colhidas, repentinamente, já se transfomam em sementes-de-palavras-ao-vento.

eu sou tomada por tosses com essas lufadas de sentimentos que tocam bem o estômago do meu coração. esse lugar que armazena afetos.

saudades de ti

bj

Ana Valeska Maia disse...

Glória, saudade forte e vontade de abraço, aliás em vocês todos na Secretaria.
Bj no coração.

Florêncio E. disse...

Ana, tu és poesia, és linda e a tua poesia se espalha, contagia a volta, deixando a vida mais leve e colorida.

Beijo Ana flor