quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Finalmente desapegada de ti




Chego aos campos e vastos palácios da memória, onde estão tesouros de inumeráveis imagens trazidas por percepções de toda a espécie... ali repousa tudo o que a ela foi entregue, que o esquecimento ainda não absorveu ou sepultou... Aí estão presentes o céu, a terra e o mar, com todos os pormenores que neles pude perceber pelos sentidos, exceto os que esqueci. É lá que me encontro a mim mesmo...
Confissões, Santo Agostinho.


Ontem enquanto falava sobre o tempo e a memória na sala de aula, citei uma passagem da animação “A viagem de Chihiro” com pinceladas freudianas inconscientes:

Nada é esquecido mesmo que não seja lembrado.

Hoje pela manhã fui conversar com as plantas do meu jardim. Agarrei a terra e observei os grãos de areia seca escaparem por entre os dedos e foi assim que se fez o insight.

O problema é o apego!

Penso em você que se foi. Apegada às memórias fico agarrando os fios das lembranças no ofício de tecelã da delicadeza das linhas dos laços que nos entrelaçaram. Muitos pedaços de sonho bóiam nesse mar sem fim. Para alguns desses sonhos, preciso dizer adeus. Não há terra nem mar que os suporte. Eles pesam em sua leveza insustentável. No marco da passagem do tempo o que passou só é presente nesse espaço chamado Eu. Ainda ouço as palavras e os sons de mel de nossas tessituras, as promessas de eternidade..., sinto o toque de tuas mãos quentes, vejo as cores da tua presença ausente. Mas você foi para outra dimensão no tempo e não pode mais ser real para mim. Nosso caminhar não é mais nosso e eu não posso seguir viagem acompanhada de fantasmas. Nossos nós foram desatados e desejo um dia poder te guardar em algum lugar perdido em minha memória, sem lembranças e finalmente desapegada de ti. Para viver um novo amor. Real. Como eu sou.

Imagem: A viagem de Chihiro

7 comentários:

Carlos Vinagre disse...

"O problema é o apego"... dolorosa verdade...

Elan Lopes disse...

Ah o apego! Teimosia essa nossa de querer sempre levar tudo com a gente ao invés de levarmos somente nós mesmos não? É a nossa mania de comodismo, não querendo aceitar o movimento natural da vida e querendo permanecer estagnado sempre na mesma posição. Folgados nós somos não? Rsrs. Nem tanto, se estamos aqui é sinal de que decidimos de antemão a sair do comodismo e crescer.
Beijo grande.

Ana Valeska Maia disse...

é meninos, nos apegamos nesse caminhar da vida. mas o apego excessivo, principalmente ao que já passou é fonte de sofrimento. o importante é seguir, desapegados das posses e construindo afetos.
bjs.

Fernando Bacelar disse...

"Apegada às memórias fico agarrando os fios das lembranças no ofício de tecelã da delicadeza das linhas dos laços que nos entrelaçaram."
Em muitos casos (no meu, particularmente), esse "ofício" é o único laço que mantêm presente algo que há muito já não existe, a não ser na nossa vontade. "Agarrando os fios"... agarrando... numa vontade desesperada de voltar, de reviver, de não deixar ir...
Porque o desapego é tão difícil?

Corpo meu, minha morada! disse...

É invecrível a necessidade que temos de nos apegar a algo que nos causa dor, sofrimento!

Ana Valeska Maia disse...

É bom lembrar que temos nosso ser, mas que na realidade, nada é nosso!

Luana Couto disse...

Minha irmã, desapegar é um exercício árduo!
Lembrar que tudo aqui é um empréstimo.
Nada tenho a não ser o que trago no que em mim mora.