quinta-feira, 30 de julho de 2009

Sonho de rio


O sonho oblitera a realidade?
O rio é um rito que se cumpre sempre.
Só rio.

Pressionada pelas exigências da sociedade,
faço os sonhos correrem de mim e clamo pela palavra real.
Mas veja: as palavras retalham quando se é lúcida demais segundo os padrões vigentes.

O direito é avesso.
O real humanamente criado é agressivo.
Novamente vou tateando pelo território onírico.

Entre a sombra e a luz
Crio formas, cores, texturas.
Reinvento memórias.

Por tanto, o sonho.
O sonho faz meu coração armar rede em varanda arejada.
Estrelas brilham, o amor é fluido, possível.

Sem correntes.
Corrente-za.
Fluxo.

Todo meu universo é um só verso
Um só lugar.
Rio.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Uma família possível



A irmã sabia que tinha talento. Estava guardado lá nos porões do ser. E cavava seus porões com unhas e dentes. Abria cavernas sem nenhuma luz. Cavar machucava. Saber que é sem ser. Escrevia as peças de seu teatro com as tintas da dor. A dor da presença da ausência. Um grito silencioso pulsava insistente, como o vai e vem de um coração, foi-não-foi. Sabotava a vida, buscava romances principescos com homens que já possuíam suas princesas e sofria porque queria viver na realidade o mundo dos sonhos.
O irmão amava mas não admitia amar. Petrificou-se em seu refúgio. O mundo dos livros era seguro. Não percebia que os livros tem uma vida oculta, se nos agarramos demais a eles com o tempo envelhecem também, os ácaros crescem como um vírus e tomam de conta da alma, devorando lentamente os pedacinhos do eu. O corpo endurecia, a voz amargava, as lembranças ocultas cresciam em metamorfose: eram vírus também.
O pai adoeceu. Após 20 anos de ausência da vida dos filhos precisou da presença deles. “A família Savage” coloca em cena a vida de dois irmãos, John Savage (Philip Seymour Hoffman), Wendy Savage (Laura Linney) e o pai Lenny Savage (Philip Bosco). No filme é tecida uma costura muito fina sobre as relações de família. Sem sentimentalismos, sem estereótipos, vi crescer a possibilidade do recomeço quando cessa o olhar de Medusa que lançamos para nós mesmos e passamos a direcionar um sincero olhar para a realidade da vida que temos e abrimos uma porta para tentar outra vez, de uma outra forma, viver.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Dicionário amoroso


Para quem se entrelaça com o prazer da leitura sabe que entrar numa livraria e não levar um livro novo é desafio imenso.
Sábado adquiri essa pérola que é o “Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa”, organizado pelo brasileiro Marcelo Moutinho e pelo português Jorge Reis Sá.
São 35 autores de língua portuguesa, oriundos de Brasil, Portugal, Angola, Moçambique e Timor-Leste, escrevendo a partir de nossa língua em comum.
São 35 palavras que dão o título e o sentido do texto (contos, poemas).
O livro é editado pela Casa da Palavra e está um primor. Lindo, esteticamente delicioso (veja, terá uma surpresa), com textos excepcionais.
Recomendo a leitura, tenho certeza que você vai gostar.
Você encontrará casa, água, árvore, bosque, espelho, fogo, rio, poeira, saudade, silêncio, sombra, verdade, violeta, você...
Obs: fiquei especialmente tocada com “Casa”, de Fabrício Carpinejar e “Deserto”, de Tatiana Salem Levy.

domingo, 19 de julho de 2009

Recomeço


Buscava compreender minha missão com sinceridade, tanta, tanta, que exagerava alargando o foco e não enxergava os detalhes e o detalhe que o foco largo não alcançava era a minha própria vida. Ia me perdendo em um mundo vasto demais. Então nesses derradeiros dias, tive iluminações de percurso, de uma lógica que a lógica humana não pode captar pelo olhar da razão. Lógica que só sentimento traduz. Sentimento que vai se enovelando na gente e acendendo as luzes da casa escura: morada. Sou a partir de meu ninho: família. Duas unidades desmentindo a somatória: eu. Penetrando no detalhe desse três que me habita sinto que olhar para a vida e viver é desafio imenso. Realidade = Escolher: qual sim, qual não, darei hoje?
Hoje é uma história que recomeça: Pai.
Paz.
Sim.


imagem: obra de Pablo Picasso

sexta-feira, 10 de julho de 2009

As asas que o sonho me deu


Meu sonho se enlaçou com o teu e retiramos as vestes dos pesares. Somos corpos sedentos e estamos despudoradamente presos, enlaçados e vivos ritmando em um só verso. No meu trapézio, bailo alto com a leveza dos pássaros e vejo os medos perderem a liga, descolarem e caírem suavemente como plumas nos abismos. Um anjo me cedeu suas asas. Consegui permissão para voar e decidi entrar no sonho do mundo. Transcender a linguagem. Captar a essência dos sentimentos. Vi universo ritmando, pulsando, amalgamando histórias. Tudo é encontro, mas algo sussurra: é delicado manter o equilíbrio. Ser leve, continuar harmonicamente a dança em um desenrolar de melodias únicas e imprevisíveis.
imagem: filme - asas do desejo

segunda-feira, 6 de julho de 2009

O fio perdido


Um mundo oculto pulsa bem próximo de mim. Tento encontrar sua melodia escondida por entre as camadas de barulho, de confusão, de incompreensão. A voz que me entende fala que preciso plantar meu coração no cerne da tempestade. Significa entrar no labirinto? Matar o monstro? Há tempos estou procurando o fio que me conduzirá ao espaço que busco encontrar. À estrada que me levará à pessoa que preciso encontrar. Sim, tenho medo de me perder, mas ainda estou disposta a correr o risco. A caminhada é exaustiva, algumas vezes confusa, em vários lugares por onde passo, sufoco, caio, apanho e nem sempre consigo perceber a luz que possa auxiliar a arrefecer os golpes. Não tem saída, o acúmulo é inevitável: memória. Quem não foge da vida sente o peso dessas linhas que vão sendo depositadas no corpo e no espírito, na raiz de agora e na que foi plantada em outras histórias. No entanto, mesmo sendo contraditório, é a linha do peso que conduz ocultamente a leveza. O encontro sinalizará o local do fio perdido. Em mim mora. Eu sei.




imagem: o labirinto do fauno