segunda-feira, 13 de maio de 2013

Fora do padrão

Parecia um dia comum, embalado pelas dinâmicas da rotina contemporânea. Sol a pino e horário controlado para não perder o ponto. Passos apressados, pois já avistava o ônibus chegando. E, então, aconteceu a mudança de rota. O transporte passou e eu fiquei. Algo quebrou o padrão.

“Eu vivo, você sobrevive”. Escutei, encantada, a taxativa resposta. O laço com a resposta teve início com a curiosidade de um transeunte que cutucou a onça com vara curta ao perguntar: “Como você consegue sobreviver vendendo apenas poesia?” Para o insistente questionador, trabalhar com arte era absurdo. Afinal, existem tantos afazeres sérios, práticos, importantes. Por que desperdiçar tempo com devaneios poéticos?

O estranhamento do transeunte diante do modo de existir do poeta ecoou durante o resto do dia. Escutava Rainer Maria Rilke falando ao jovem poeta Kappus. “A boa arte é a que nasce por necessidade”. Exigência da alma sem a qual é impossível viver. Sem arte, resta sobreviver.

A arte faz o mesmo caminho enigmático do sonho. O conteúdo manifesto esconde outras possibilidades latentes. O que vemos não é exatamente o que vemos, existe um além, um ir mais fundo. Procurar tirar a casca das coisas e nelas encontrar mundos novos, estranhamentos, desconexões. Um trabalho de desconstrução das padronizações.

Interpretar os sonhos para “desfazer o que o trabalho do sonho teceu”, disse o pai da psicanálise. Tarefa árdua em nossos dias, quando a tentação da segurança de “apenas sobreviver” é muito forte.

Com ela, a imagem da felicidade pronta, do consumo fácil, das terapias medicamentosas, do esforço minimizado, do tempo sempre ocupado.

Desconstruir para construir? “Eu vivo, você sobrevive”. Confesso que invejei a coragem de viver do poeta. Em sala de aula, escuto de vez em quando um desabafo dos estudantes, angustiados com perguntas como essa: “Mas você quer ser só artista”?

Sim, eles querem viver. Porque a vida é breve.  

Ana Valeska Maia Magalhães

(crônica publicada no jornal O Povo, edição de 10/05/2013)

2 comentários:

Carol Morais disse...

"A vida é breve". Não sei como mensurar a brevidade da vida. Breve para quem? O que seria o que não é breve? Não sei. Um momento pode durar uma eternidade. Um momento feliz pode re-acontecer e, imersos em sonhos, podemos deixar o corpo e re-sonhar, "re-viver" momentos que, para alguns, foram breves.

Um beijo, adoro você!

poetamaurilio disse...

Os entorpecidos e fisgados pelo ciclo do capitalismo globalizante pensam que aqueles que escolheram um padrão de vida menos atrelado ao lugar comum, não vivem.
Enganam-se.
Viver de verdade significa romper com o "torvelinho produção-consumo", bate-ponto todo dia.

Apesar disso, acredito que, no mundo cão, com arte ou sem arte,
com poesia ou sem, cada trabalhador é um artista supérstite, pois viver, neste mundo, já é uma verdadeira arte!

Parabéns Rilke, pela coragem e iniciativa.

Parabéns Valeska, pela sensibilidade em seus escritos.

Abrçs,

PAZ, AMOR, BÊNÇÃO