segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Para quem tem todas e nenhuma idade

Não foi a polêmica envolvendo o filme sobre o profeta Maomé, nem o desgosto de saber o tamanho do jorrar de valores nas campanhas para eleição do futuro prefeito de Fortaleza, muito menos o desdobrar do julgamento do mensalão, com as performances de Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski. A notícia que propiciou ressonâncias em meu ser e aguçou o tear das memórias foi a de um homem passeando com seu cachorro. E, de repente, a surpresa: uma mudança de itinerário imposta, um sequestro relâmpago e o homem, horas depois, sem uma parte de seu dinheiro e também sem Lucky, o cachorrinho de estimação.


O arrancar violento de Lucky da convivência familiar despertou o desejo de saber de outras histórias. Das relações afetivas entre cachorro e gente. Histórias de cães fujões, roubados, abandonados, perdidos, encontrados. Nos jornais estava a narrativa sobre Pablo, roubado e oferecido como pagamento de dívida de tráfico, a dona aflita, assumindo uma busca intensa para tê-lo de volta, pagando o resgate em uma boca de fumo.

Recordei de um episódio da infância, quando o cachorro dos meus vizinhos fugiu. Bastou um pequeno descuido, uma porta entreaberta e com ela a presença do rastro invisível da fuga. Depois, as providências: perguntas aos vizinhos, aos transeuntes, a qualquer um que passasse por perto. Cartazes espalhados pela cidade com a imagem do fugitivo, ofertas de recompensa e corações inquietos garimpando esperança, um dia após o outro. Nem naqueles dias de procura nem em nenhum outro dali em diante encontraram o cachorrinho perdido. Com o tempo, acostumaram-se com a falta doída, com a presença inquietante da ausência.

Creio que nossa relação com os animais nos proporciona o contato com o humano-bicho que somos, com a criança que mora em nós. Dos profundos afetos que temos quando nossos corações estão desarmados. Quando vi um homem pra lá de seus 60 anos chorando como um menino diante da morte de seu cão querido, entendi que temos todas e nenhuma idade.  

(artigo publicado no jornal O Povo, edição de 24/09/2012)

3 comentários:

Daniel Simões disse...

Em nós, só o presente é Real. Não há tempo.

Sara Sales disse...

adorei!

Sara Sales disse...

adorei!