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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
O real é bem melhor
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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Mergulhando nas vísceras do PNDH3: quem tem medo da verdade?
Assim como acontece na jornada do indivíduo, deve acontecer também na jornada coletiva, de um país, por exemplo, como o Brasil. A polêmica envolvendo o PNDH3 é sintomática e tem um aspecto estrutural, de crucial importância para a sociedade brasileira. É uma agitação de superfície que revela profundidades, pois é mais uma constatação que corrobora um problema que criou raízes desde a invasão do Brasil, alicerçando um movimento apoiado em privilégios de poder. Uma sociedade de base colonial, patriarcal, escravocrata e latifundiária reverbera sua herança: mesmo pós-constituição cidadã, vivemos mergulhados em uma democracia farsante.
A herança do regime autoritário representa um fardo pesado para desconstruir, até porque atualmente tanto já foi introjetado que convivemos com a hipocrisia típica de uma democracia autoritária, com uma lógica de poder doentia que nos tributa a pobreza política, bem evidenciada pela lucidez do sociólogo Pedro Demo. Somos infantis como sociedade. Jogamos a sujeira para debaixo do tapete, colocamos uma máscara sorridente, vegetando em frente ao Big Brother que é traiçoeiramente o espetáculo de nossa vida coletiva, de uma sociedade que ainda vive na caverna da consciência, presa na cultura capitalista do narcisismo. É hora de crescer, de amadurecer e vivenciar em nosso dia a dia a democracia direcionada pela vontade do povo, que deve agir como um contrapoder social sempre que as armadilhas que criam obstáculos para nossa maturidade coletiva forem armadas.
Nesse sentido não temos que ter medo da verdade, de nosso passado, do que foi vivido. Saber nossa jornada real é condição de crescimento social. Também temos que debater como adultos questões polêmicas que integram a contemporaneidade brasileira. Temos, emergencialmente, que desmantelar as armadilhas autoritárias que ainda persistem. Hoje está em Fortaleza o representante da Comissão Federal de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos - ligada a Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, Oscar Gattica, que participará de um debate mediado pelo verador do PSOL, João Alfredo, defensor incansável dos Direitos Humanos e das questões ambientais. Eles debaterão na Câmara Municipal de Fortaleza questões ligadas a criminalização dos defensores de direitos humanos. Esse debate é importantíssimo, pois vivemos um processo cruel e perigoso de censura e autocensura (Bourdieu). Lamentavelmente, mesmo vivendo em uma democracia, quem fala e quem faz o que deve fazer está sujeito a penalidades. Esse processo de criminalização está acontecendo na prática, aqui no Ceará, por exemplo, com as seguintes pessoas: a missionária indigenista Maria Amélia Leite, contra Raquel Rigotto e Islene Rosa - por denunciarem a poluição em Maracanaú -, contra a advogada Nayanna de Freitas, por defender as Dunas do Cocó, contra o professor Joeovah Meireles e o jornalista Daniel Fonseca e contra o Defensor Público Tiago Tozzi, entre outros.
ois sabemos que, mesmo vivendo em uma democracia, nsura (Bourdieu), em que e do povo, maturidade. A reunião pública acontece no plenário do Legislativo municipal, a partir das 15 horas e será mediada pelo vereador João Alfredo (PSOL).
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Agora
Como seria a vida se vivêssemos apenas na imensidão do tear das memórias? Seria uma vida tecida por lembranças transcorrendo em um mar sem fim. Seria uma prisão estilo Alcatraz. Na realidade a vida é um “entre”. Um agora entre o passado e o futuro. A vida é um momento, um tic-tac fugidio e imprevisível que tem pressa em ser passado. Viu? Passou. A vida passa e vive nos dando adeus. Oferecendo em contrapartida oportunidades. Ela nos dá o agora como presente. Passou. Somos o que passamos e principalmente, somos o que vivemos. Alquímica, decanto a essência do passado e deposito o sumo em seu devido lugar. Serve-me para associações. Para comparar com o agora que é meu refúgio de libertação. Entregue ao improviso do agora. Pego tua mão livre e prendo à minha para que sejamos unidos e mais livres ainda. Entrelaçamos nosso agora. Falo mais quando te observo
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Anjos de asas cortadas
Indico a leitura do artigo “Alanis, Marias, Rosas e Pedros” do Thiago de Holanda no jornal o Povo de hoje (http://opovo.uol.com.br/opovo/opiniao/945628.html). Thiago trata com sensibilidade o caso do estupro e assassinato da menina Alanis, mas alerta para a recorrência em nossa cidade dos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes.
Os casos de abuso sexual são frequentes e muitas vezes acontecem no ambiente doméstico e os agressores costumam ser pessoas conhecidas da criança (pai, padrasto, tio, vizinho). Além do abuso a exploração sexual lamentavelmente ainda é uma triste realidade brasileira e para sensibilizar nosso coração e repensarmos nosso papel em sociedade indico o filme “Anjos do Sol”, de Rudi Lagemann.
Imagem: filme “Anjos do Sol”
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
A filha do açougueiro
Ontem fui aparar os cabelos e a cabeleireira contou-me rapidamente sua história. O pai dela era açougueiro e desce cedo foi inserida na brutalidade da vida e da morte. Viu darem paulada em cabeça de animal e deceparem galinhas mais do que via o colorido das asas das borboletas, que era o que ela mais gostava de ver quando era menina. O que ela menos gostava de ver eram as galinhas correndo sem cabeça de um lado para o outro e as bacias cheias de sangue de boi. Disse-me que sentia uma fisgada no pescoço e uma dose do próprio sangue integrando cada bacia. Foi interessante observar como seu olhar ficava triste e feliz a cada relato. Disse-me que lembrava sempre dos cabelos ao vento de sua mãe quando varria a calçada do açougue, mas que não foi por isso que seguiu a profissão. Foi coisa do destino o cotidiano de facas, tesouras, alicates, peles e carnes. Foi ajudante do pai, amolando faca no açougue, partindo bicho ao meio, depois aos pedaços e conheceu o marido assim, menina ainda, aos 15 anos. Nesse amolar arrancou um filete de sangue do dedo e ele, cliente de seu pai, tratou logo de socorrer a carne ferida da moça. Casou e nessa época o marido já era cabeleireiro. Trabalhou um tempão como manicure no salão de fundo de quintal, teve dois filhos, Davi e Sheila, e um terceiro, que “nasceu morto”. Hoje o casal tem um salão dos bons na área nobre da capital e ela segue exercendo seu ofício de cabeleireira e açougueira, levando o negócio pra frente enquanto o marido dá o nome para o salão que não cresceria sem ela. Então os filhos ligam, reclamam da fome, e ela corre pra casa. Precisa fritar fatias de bife de alcatra para os rebentos. Ela ainda não sabe que voará lonjuras com asas de borboleta e que terá mudanças de destino quando tentar partir a carne e perceber, num insight de libertação, que a lâmina, quando não é afiada, perde o corte.
Imagem: obra de Siron Franco.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Saudade insone
Ativou minha entrada pelos fios da memória.
Cultivo meninices e sou sobrevivente da vida.
Sorrio e transgrido fronteiras.
Depois das camadas uma Rosa descansa.
Na viagem para o centro do eu está você.
A insônia invadiu a cama.
Você está lá trançando meus cabelos.
Teu olhar amoroso lembra um tempo que foi e sempre será (belo).
Minha casa tem perfume de jasmim e, no entanto, nada jaz em mim.
Tenho teu abraço, úmido laço alicerce que escorre por entre os dedos.
Teus braços são da terra agora.
Para mim a primavera é você.
A insônia invadiu a cama.
Tic-tac, tic-tac.
Tenho saudades do que não tive.
Sempre quis te pertencer.
No centro de mim está você.
Teu abraço laço seco.
Trincou, rachou, craquelou, infertilizou.
Não senti o calor do abraço que me gerou.
Para mim o deserto é você.
(Para vovó e papai, na seqüência).
Imagem: obra do artista Siron Franco.