sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Memória do fogo

O jornal O Povo de hoje estampa a notícia: Ceará registra 3.080 focos de incêndio este mês. Crateús é o município mais atingido. Em Fortaleza, o Parque do Cocó ainda arde em chamas. A chuva, como sabemos, escasseou este ano. Nos locais por onde o Sol exerceu seu domínio com mais concentração a vegetação seca e é propícia para o império do fogo.

Sem adentrar na questão complexa que envolve a ação humana, as alterações climáticas e devastações ambientais quero falar um pouco sobre algumas memórias que tenho do fogo.

Das notícias dos jornais meus pensamentos ganharam asas e surgiu a pergunta: O que é o fogo filosófico?

No filme La Guerre du Feu - A Guerra do Fogo, dirigido por Jean-Jacques Annaud encontramos uma narrativa primordial da descoberta do uso do fogo. Gestos, grunhidos e conflitos marcam a busca pela posse do elemento por um grupo que percebe o fogo como sagrado. Três integrantes do grupo seguem em uma jornada levando a chama acesa para a tribo. Um outro grupo já domina a técnica de produzir o fogo pelo atrito, utiliza uma forma incipiente de linguagem falada, pratica a pintura corporal, constroem abrigos, ferramentas e sabem sorrir!

A descoberta do sorriso pra mim é um dos pontos altos do filme. Voltando ao fogo é o elemento que dá a liga para a descoberta do outro, para o aprendizado. Gaston Bachelard afirma “Se tudo o que muda lentamente se explica pela vida, tudo o que muda velozmente se explica pelo fogo”. O fogo, elemento ultravivo, chama à contemplação, transforma o cru em cozido, ilumina e queima: “dentre todos os fenômenos, é realmente o único capaz de receber tão nitidamente as duas valorizações contrárias: o bem e o mal. Ele brilha no paraíso, abrasa no inferno. É doçura e tortura.” (Bachelard, A psicanálise do fogo). Como não lembrar da mitologia de Prometeu, do fogo da inquisição? ou do amor que é fogo que arde sem se ver de Camões?

Enfim, o pensamento pode viajar bastante com o fogo. No meu caso, uma das lembranças poéticas com relação ao fogo vem da infância, quando faltava a luz elétrica. Primeiro surgia o medo da escuridão. Minha avó acendia velas pela casa e eu me sentia segura com o amparo ancestral. Depois nos reuníamos em volta do fogo das velas para ouvirmos as histórias de minha avó. Essa é uma das lembranças mais fortes da minha infância. O fogo sempre estava lá.

8 comentários:

Daniel Simões disse...

A minha primeira grande relação com o fogo foi por volta dos 5 anos de idade, quando, por desobidiência, peguei fogo ao meu quarto!!!

Ana Valeska Maia disse...

Eita Daniel, você era um garoto bem quietinho!!!!

Elaine Sá disse...

Somente a Ana para transformar uma realidade tão triste como essa dos incêndios em um debate filosófico.Eu não possuo boas lembranças de fogo,sempre tive pesadelos em relação a isso,detesto calor.Minha mãe que é espirita fala que é algum trauma do passado,mas enfim,pode ser né?O fato é que não gosto de fogo e choro só de pensar no estrago que esses incêndios fazem ao meio ambiente.E pensar que tudo isso é consequência de uma má conduta humana.É nesse momento que me pego pensando até quando o homem vai ser tão egoísta,pensando que é um ser independente,auto-suficiente...Tola ilusão...

Ana Valeska Maia disse...

Elaine,

Como Bachelard diz, fogo é doçura e tortura.
Um exercício de libertação: procurar ver o lado bom do fogo!
Tão bom quando você vem por aqui, minha princesa!

Honório Teixeira Melo Neto disse...

A cada leitura que faço dos textos produzidos por ana, minha admiração por ela aumenta mais ainda.

Podemos dizer que o fogo foi a maior conquista do ser humano na pré-história, passando a se utilizado em prveito do próprio ser, como proteção contra predadores, contra o frio nos invernos, e até mesmo na caça.

Tadavia, a figura do fogo é neutra, podendo ser usado para o bem e para o mal.

Procuro buscar o fogo abrasador;
o fogo que inflama; o fogo que faz subir centelhas de amor; O fogo que arde sem se ver.

Honório Teixeira Melo Neto disse...

A cada leitura que faço dos textos produzidos por ana, minha admiração por ela aumenta mais ainda.

Podemos dizer que o fogo foi a maior conquista do ser humano na pré-história, passando a se utilizado em prveito do próprio ser, como proteção contra predadores, contra o frio nos invernos, e até mesmo na caça.

Tadavia, a figura do fogo é neutra, podendo ser usado para o bem e para o mal.

Procuro buscar o fogo abrasador;
o fogo que inflama; o fogo que faz subir centelhas de amor; O fogo que arde sem se ver.

Ana Valeska Maia disse...

Honório!
Bom te ver por aqui, colocando brasa em tua episteme!

Eduardo Matzembacher Frizzo disse...

Ótimo texto, Ana. Fazia algum tempo que não visitava teu espaço. Bom rever letras que sempre coincidem com parcelas do que somos. Ou será que queimam em conjunto com outros fogos de letras e silêncios que dentro de nós trazemos? "Doçura e tortura", exatamente como você disse. Cuide-se. Um beijo. Eduardo.