sexta-feira, 26 de novembro de 2010

As conexões ocultas do coração

Existem memórias que vivem no fundo dos sonhos e algumas animações tocam tão profundo que nos permitem visualizar e sentir algumas conexões ocultas do coração. "Ratatouille" é uma delas. Quando vejo as pessoas muito amargas e até cruéis na apreciação das construções alheias lembro de Anton Ego. Temido, ácido e implacável em suas críticas, Anton Ego é um exemplo do que quero ilustrar hoje aqui.

Quantas conexões podemos perceber no processo de construção do ser humano? Creio que sempre pulsa um mistério no desenvolvimento de nossa jornada e por mais que existam mapeamentos, técnicas, métodos, objetivações e teorias sempre o humano transbordará das classificações. Sabemos que Freud revolucionou a percepção do humano pela linguagem do inconsciente. Mas como tudo transborda até Freud pode ser duramente criticado. Um desses críticos é Michel Onfray (que denomina Freud como um grande charlatão).

Ok, sempre existem críticos de plantão, institucionalizados ou não, mas o que é encantador no crítico Anton Ego? Bachelard na obra “A poética do devaneio”, afirma sua intenção de “fazer reconhecer a permanência, na alma humana, de um núcleo de infância, uma infância imóvel, mas sempre viva” (Bachelard, p.94). Ego personificou o papel do adulto frio e rigoroso com os outros e com ele mesmo. Agia como se a infância não mais o habitasse. Mas, como sinalizou Bachelard ,a infância está sempre presente.

A cena que desmonta o papel do crítico e faz surgir a criança escondida é emocionante. Ao provar a comida denominada Ratatouille, Anton Ego volta ao passado esquecido, relembrando um prato que sua mãe preparava especialmente para ele. A cena é forte porque Ego reencontra o amor. O toque especial reside na mágica constatação: se esse amor faz parte dele então é um amor presente. Amor de verdade nunca é passado, é um agora eterno.

Penso neste momento como podemos escapar das armadilhas da dor que nos afastam dos outros. Vivemos um paradoxo: não queremos que os outros nos façam sofrer, mas precisamos tanto dos outros! Volto minha busca para Michel Onfray, que afirma: “Só crescemos efetivamente oferecendo aos que soltaram os cachorros contra nós, sem saber que o faziam, o gesto de paz necessário a uma vida além do ressentimento” (Onfray, 2010).

Acho que ele aprendeu a pensar como uma criança-adulto desarmada. Existe muita sabedoria no que Onfrey proferiu. Mas esse pode ser um assunto (que envolve o poder do perdão) para um próximo post.

Obs: Depois de comer Ratatouille, Anton Ego escreveu a seguinte crítica:

De várias maneiras, o trabalho de um crítico é fácil. Nós arriscamos muito pouco e, a despeito disso, desfrutamos de uma vantagem sobre aqueles que submetem seu trabalho, e a si próprios, ao nosso julgamento. Nós nos refestelamos escrevendo crítica negativa, que é divertida de escrever e de ler. Mas a verdade amarga que nós, críticos, temos que encarar é o fato de que, no grande esquema das coisas, até o lixo medíocre tem mais significado do que a nossa crítica assim o designando. Mas há momentos em que um crítico verdadeiramente arrisca algo, e isso ocorre na descoberta e na defesa do novo. Noite passada, eu experimentei algo novo, uma refeição extraordinária preparada por uma fonte singularmente inesperada. Dizer que tanto a refeição quanto quem a preparou desafiaram meus preconceitos é uma grosseira simplificação. Ambos me abalaram em meu âmago. No passado, não fiz segredo do meu desdenho pelo famoso lema do Chefe Gusteau: Qualquer um pode cozinhar. Mas só agora verdadeiramente percebo o que ele queria dizer. Nem todo mundo pode se tornar um grande artista, mas um grande artista pode vir de qualquer lugar. É difícil imaginar alguém com origem mais humilde do que o gênio agora cozinhando no restaurante Gusteau’s e quem, na opinião deste crítico, não é nada menos do que o maior chef da França. Estarei voltando ao Gusteau’s em breve, faminto por mais.

Referências:

BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

ONFRAY, Michel. A potência do existir. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

RATATOUILLE (EUA, 2007), Direção: Brad Bird.


Um comentário:

Daniel Simões disse...

Interessante encontrar esta abordagem, Ana. Ultimamente tenho-me deparado com uma recordação que não consigo identificar, mas a qual é reanimada através de uma sensação despertada em mim por uns azulejos brancos e brilhantes de um prédio pelo qual passo todos os dias quando vou para o trabalho. Ontem, a mesma recodação emocional veio através de uns óculos brancos à surfista, decorados com um promenor dourado, usados por uma pessoa que vi. Eu sei que existe um brinquedo associado a tal recordação, mas não consigo identificar mais nada.
O mesmo tipo de recordação emocional acontece-me imensas vezes através de certo tipo de cores, ou cheiros, que associo à minha infância, as quais não consigo visualizar concretamente do que se tratam.
Onde levam tais pontes? Que conexões fazem com quem hoje sou, no modo como me expresso e com as decisões que tomo?