terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

No mundo dos livros amarelos


Os dias que começam com chuva sempre aguçam minha memória. E saudei o dia de hoje com as pinceladas de Vicent Van Gogh em meus pensamentos. Fortes, intensas, febris, vibrantes, sempre a transbordar um jorro poético. Talvez o comentário do Eduardo sobre a noite estrelada tenha despertado em meu íntimo as lembranças da época em que vivia amalgamada com os lápis, as tintas, os pincéis, telas, buris, goivas e papéis especiais, grossos, porosos, de boa fibra e macios ao toque do grafite. Lembro-me bem: no primeiro semestre da faculdade de artes plásticas, costumava sentar em um banco embaixo da árvore para desenhar a paisagem e folhear livros com obras de Van Gogh. Os dias de chuva eram especiais, um pouco melancólicos e talvez pelo clima de introspecção que a arte exige, eram dias que faziam doer o coração, o cheiro de terra molhada subia, invadia as narinas, acordava sentidos, a brisa acariciava a face e bagunçava os cabelos, apertava o peito e eu mergulhava em reinos distantes, no olhar que meu olhar captava e quando dava conta de mim eu era parte da narrativa oculta do mundo dos livros amarelos.


Imagem: Vincent Van Gogh “The Yellow Books”, 1887.

11 comentários:

Anônimo disse...

Eita, (jo)Ana, já tava com saudade de suas postagens (quase numa crise de abstinência).
Essa de agora, então, atiçou meus sentidos de tal forma, que quase que sinto o cheiro da terra molhada (além de ter despertado esse prazer que é o de ler um livro bom, bem amarelinho).
Bjs saudosos (muito saudosos),

Franzé Oliveira disse...

O livro
Um pensamento registrado
As folhas podem amarelar
Mas os idéias nunca morrem.


Beijos menina linda.

Aline Lima disse...

tbm adoro essa tela...super abraço!!!

Diego Akel disse...

Mais uma postagem recheada de sensibilidade, Ana. Van Gogh é de fato um mestre em todos os sentidos; também sinto nas suas pinceladas muitas sensações - ao mesmo tempo que desperta com o vigor das pinceladas, acalma com suas cores quentes. A partir daí, muitas sensações nos cercam quando vemos o mundo a partir dos olhos deste artista...

Pra mim é e sempre será uma grande referência em tudo o que faço :)

Beijos.

Florêncio E. disse...

É tão gostoso ler as tuas memórias, na maioria das vezes eu sinto como se usasse um teletransporte até a cena.

A flor mãe e a flor filha ontem estavam lindas!


Beijo Ana.

Eduardo Matzembacher Frizzo disse...

Ana: Talvez todos os livros devessem ser amarelos. Mas o certo é que nenhuma flor pode ter a mesma cor. Se no céu se desnudam constelações de pavor e beleza diante da nossa pequenez, talvez seja sinal de que a 9ª do Beethoven, apesar do vácuo, se propague pelo Cosmos dizendo que aqui há arte e portanto há vida e possibilidade de união. Um beijo, Eduardo Matzembacher Frizzo (do blog http://insufilme.blogspot.com/). P.S.: e sim, os contornos de Van Gogh são mais que contornos, pois transcendendo a imagem corporativista dos sonhos de então, fazem das coisas o próprio sonho que a existência, com sono, sonha e portanto é (admito: esse P.S. foi só uma especulação regada à cafeína depois de fazer um estafante e extremamente chato agravo de instrumento; se não fosse a arte, eu não suportaria o direito - por isso, todos os dias leio ao menos uma página do Warat).

Ana Cristina disse...

Porque não habitamos aquele teu ateliê maravilhoso e matamos a saudade de desenhar, pintar...

Vamos fazer isso juntas um dia desses?

Vou adorar!

beijo!
beijo!

Eduardo Porto disse...

Sim, as pinturas de Van Gogh em seus tons reconfortantes e que nos fazem lembrar de coisas boas, que sempre despertam a nossa nostalgia diária. O primeiro livro de arte que ganhei foi sobre ele e desde então sou seu mais ávido fã.

Aliás, quero dizer que estou bastante triste por não ter mais você como professora nas Segundas. Espero que nos vejamos mais pelos corredores da faculdade, professora.

Beijos.

Tatiane Lemos disse...

Dias chuva são tão melancólicos mesmo!

Beijos

glória disse...

Ana,

Fazia um tempo que não passava por aqui. A impressão que tenho, mesmo sem te ver, sem te ler é que nos olhamos e nos acompanhamos.

"no olhar que meu olhar captava e quando dava conta de mim eu era parte da narrativa"

Esse tempo de poder passear nos "reinos distantes" é meu maior desejo. Flutuar, passear por dentro de tanta coisa e fazer circular tantos modos de dizer.
Vc. já sabe que sou tua fã.

bjs moça de um reino sem rei

Ana Valeska Maia disse...

Glória!!!!!!!
Eu sou tua fã.
Saudades de você e grata a todos vocês que comentam por aqui.
Bj!