segunda-feira, 23 de março de 2009

Olhe por dentro de mim


Há uns dias vi uma moça linda agonizando com o coração exposto, músculo crescido, vermelho e vivo, estava pra fora do corpo, como se fosse uma fratura, como um osso quebrado do braço que rasga a pele, deslocado do lugar, como se um acidente tivesse rasgado seu peito e de repente a linda moça tivesse que suportar uma dor humanamente insuportável. Ela chorava, gritava, urrava, esperneava, agonizava. Estava sentada em um banco de praça com sua dor escancarada, pública, a face desfigurada pela boca aberta, gritando um grito bem lá de dentro, das entranhas, o coração pendurado pelo fio das artérias, sangue venoso circulando, bombeando aquela órgão ferido, machucado, banhado de lágrimas. As pessoas tentavam socorrê-la, chamaram um médico, examinaram a origem da dor, mas só conseguiram laudos técnicos incapazes de explicar porque doía daquele jeito, pois obviamente não é a técnica que explica esse tipo de situação da vida. Procuravam colocar o coração da garota no lugar, mas ali só o tempo pra emendar, eu pensei. Notei que ninguém entendia, eita povo incompetente, cegos pela técnica superficial que quer botar tudo no mesmo saco. Afastei todos, saiam daqui, vocês pioram a situação. Minha amiga, meu nome é Joana, pare agora de chorar e olhe por dentro de mim, veja meu coração, ele está igual ao seu e você vai ter que aprender a viver com as costuras, moça bonita, quem já ficou assim sabe que quando fratura e quebra desse jeito, a gente tem que se acostumar com o craquelado, mas o que hoje te fragiliza pode ser a tua fortaleza de amanhã, minha flor, viver assim não é para amadores, mas entenda você se permitiu viver de verdade, e isso é grandioso, apesar de uivar de dor você não desistiu de você mesma como tantos já fizeram, você é uma linda mulher e eu estarei sempre ao seu lado pra te apoiar, mesmo que você não me veja, eu estarei.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Uma escada que vai dar no céu


Não parei a caminhada. Continuo. Apenas silenciei um pouco.
Meu silêncio provavelmente possui justificativas. Lancei olhares profundos a cada passo dado. Olhares atentos à nudez descuidada das coisas. Olhares que procuravam, descobriam, desvendavam, descascavam, lapidavam. Meu olhar sabe que sempre há mais para ver no que é visto. E é por isso que eu vivo. Para ver o que não se vê.
Você sabe que na minha casa tem uma escada que vai dar no céu?
Costumo subir a escada e sentar no último degrau para contemplar as estrelas.
Quando olho as estrelas não consigo lembrar de mais nada.
Lembro apenas do amor imenso que tenho por ti.

“Olhe aqui, preste atenção,
Essa é a nossa canção
Vou cantá-la seja aonde for
Para nunca esquecer
O nosso amor
O nosso amor!

Veja bem, foi você
A razão e o porquê
De nascer essa canção assim
Pois você é o amor
Que existe em mim...

Você partiu e me deixou
Nunca mais você voltou
Pra me tirar da solidão e até você voltar
Meu bem, eu vou cantar
Essa nossa canção...”

(Composição de Luiz Ayrão)

Ilustração de Katalin Szegedi