quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

essa coisa de pedaços ocultos

Joana-menina tinha uma coleção de pedras coloridas e uma caixinha de música minúscula que repetia a mesma melodia e falava e falava “é impossível ser feliz sozinho” e as tessituras da alma foram formadas com essa sina, crescendo assim dentro dela, como pequenos filamentos que ganhavam corpo rápido e formavam raízes grossas e trabalhosas com casca dura e miolo fibroso como se guardassem alojamentos micro esconderijos e todo dia Joana-criança montava seu ritual para sonhar e sonhava com brilhos flores escadas altares asas cores sorrisos e sonhava com a neve, principalmente casada com sol, quando as gotas caíam do gelo no transformar das estações e chegavam até a doer de tão belas e então doíam as gotas que desciam dos olhos e inundavam as bochechas e avermelhavam o nariz e os meninos cruéis riam do seu nariz de palhaça e Joana-bobona empurrava para dentro a estúpida vontade de chorar e olhavam pra ela e diziam que ela não era forte e sonhava com pedra lodo medo de escorregar e sonhava com corda bamba medo de cair e sonhava em não ver mais por dentro de tudo esse olhar é um dom e um fardo que eu não sei se agüento e vivia sonhando estetizando a vida com o que pinçava de precioso do íntimo dos seres e sonhava com começos sementes e acreditava que eram possíveis e eles aconteciam brotavam mas também acordava porque eles terminavam morriam e às vezes ela se perdia nesse fim, Joana-mulher buscava na pele as linhas que a fizessem encontrar o caminho e tinha medo de não saber mais começar e não encontrar mais as placas sinais de percurso as marcas no chão a orientação para os caminhos inesperados pois o tempo vai tributando uma tristeza no fundo dos olhos porque os amores não são círculos sem começo nem fim, na vida as linhas são retas ou curvas mas tem hiatos inevitáveis e sempre vão ficando pedaços de nós pelo meio do caminho e eu acho que foi essa coisa de pedaços ocultos que eu vi no fundo dos teus olhos, os hiatos, os hiatos e quem sabe a gente consegue pegar essas coisas tristes que ficaram espalhadas esfareladas pelos caminhos que percorremos e juntamos as dores sombras ausências vazios espinhos mágoas e reinventamos a vida recomeçamos tentamos mesmo com nossos olhos fundos encontrar as pedras coloridas e viver um amor poesia digno de ser vivido e habitado em todos os micro esconderijos dos nossos cantos mais ocultos.

8 comentários:

Anônimo disse...

Para percorrer novos caminhos, para (re)inventar a vida (e o amor), (jo)Anna, não tem segredo (e você bem que sabe!). É seguir o caminho que as estrelas nos apontam, com os nossos passos ritmados pelas batidas de nosso(s) coração(ões).

glória disse...

Os caminhos e escolhas de Joana me fazem lembrar "das vantagens de ser bobo" da Clarice Lispector. Mesmo dessa forma, com a gaganta apertada sempre, temendo que uma torrente de sentimentos a carreguem, que seu entendimento "é impossível ser feliz sozinha" a conduza para mais solidào Joana dá às mãos a tudo que pulsa, que é "movimento". Lindo, tão caloroso e leve como você. bjs

Tainá :) disse...

A mais linda de todas escreve as coisas mais lindas. Você é maravilhosa, Ana. MARAVILHOSA! Fico sem palavras para os seus textos.

''..o tempo vai tributando uma tristeza no fundo dos olhos porque os amores não são círculos sem começo nem fim, na vida as linhas são retas ou curvas mas tem hiatos inevitáveis e sempre vão ficando pedaços de nós pelo meio do caminho..'' Disse tudo.

Um beijo!

Continuemos...

Miguel Barroso disse...

Mesmo que estrelas sóis astros e constelações jamais brilhassem, ainda assim cada existência brilharia em ti.
Os caminhos são-nos.

Abraços d´ASSIMETRIA DO PERFEITO

Anônimo disse...

Lindo o movimento das fotos, (jo)Ana! Não são só as palavras, mas todo o blog, fotos, expressões, sentimentos que se encontram em movimento(s). Coisa de ser em movimento.

Fernando Bacelar disse...

Nossa... fui lendo, e lendo, e lendo lendo lendo lendo lendo....
Senti a esperança, a frustração e a dor da Joana. Era o que estava falando para ti quase agora no carro... você faz sentir.
Beijão.

joão disse...

Essa Joana é nova. É feita de rubor e pulsão. Aparece diante da joana uma Joana apressada, mas cadente. Musical e mântrica. Gosto dessa, principalmente porque trás a outra, a menina pequenina de olhos imensos, pela mão firme. Companheiras as duas nessa conversa de sem-fim. Quem sabe essa Joana tenha vindo como uma chuva nova que caiu justo quando se pensava seco o céu e a boca? Espero que fique por um tempo, brincando de ciranda com a outra joana. Joana e joana. Brincantes de tudo que a vida trás e leva.

Agora até deu a impressão de que o pensamento pode ser uma dança de joanas tentando provar o mundo até sentirem o gosto da vida nascendo e renascendo dentro do peito.

Fui junto. Que bom dançar assim - de olho fechado e alma aberta.

Amélia disse...

é isso, Tio Pedro, Joana "faz sentir"...