terça-feira, 19 de novembro de 2013

Fora de foco


Opera! Uma quase ordem que ouvi várias vezes acerca de minha severa miopia. Nem sei dizer exatamente por que reluto com férrea força em me desfazer da possibilidade de ver o mundo embaçado. Qual o sentido de querer permanecer com algo que desestabiliza, dissolvendo constantemente a nitidez das coisas?
Era um pingo de gente quando comecei a usar óculos. Uma professora percebeu meu olhar espremido procurando mapear a nuvem no quadro de giz. A cada ano, as lentes ficavam mais grossas e é estranho agora lembrar que as reminiscências mais nítidas da infância são as dos dias fora de foco, quando os óculos quebravam. Sem ver o mundo de fora, tecia um mundo por dentro.

Acho que a gente se constrói no que os outros chamam de defeito. Um conto de Clarice Lispector, Evolução de uma miopia, é muito precioso ao tratar do menininho míope, constantemente preocupado em ser aprovado por suas qualidades. A evolução da miopia desenha um caminho desestabilizado, que o conduzirá a uma das raras formas de estabilidade: a do desejo irrealizável, do ideal inatingível, do impossível, do imoderado, da paixão.

Não é fácil ver fora de foco – falo mesmo no sentido metafórico, já que descentrar o olhar implica um descascar de vestes laboriosamente curtidas pelo enquadramento social. Uma aprendizagem de desaprender, como disse Caeiro. Mas como desaprender nesse momento histórico que compartilhamos? As fórmulas fáceis ecoam, a educação veste as cores do mercado, as terapias instantâneas prometem a resolução das angústias humanas e a vida cotidiana é problematizada em termos psiquiátricos.

Na era da ideologia da competência o reconhecimento da própria fragilidade pode, para muitos, vir a representar sinônimo de ruína. No entanto, num tempo em que, bombardeados pelas imagens imponentes de seres humanos de braços cruzados, num tempo em que muitos almejam ser o simulacro da liderança, o que nos desestabiliza também pode nos libertar.

Ana Valeska Maia Magalhães

(crônica publicada no jornal O Povo, edição de 15/11/2013)

Um comentário:

Aluisio M Rodrigues disse...

...uma matemática deu-me por imóvel; um fenômeno de alteridade diz-me inexato; uma pedagogia conclui-me inconcluso; uma economia assusta-me com a metonímia do desuso e uma química consagra-me por rato e jura-me infernos e paraísos. Os meios? Epicentros quixotescos de insondável fim. Saber-se perdido é o ofício da boa arte...