segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Mirando além da ponta do iceberg

Semana passada aconteceu um debate instigante em sala de aula sobre as questões que envolvem relações de poder, pena, coerção e efetivação da justiça.


As opiniões jorraram. Nos tear dos argumentos, principalmente diante do aumento da violência urbana, alguns defenderam com ênfase um sistema punitivo mais severo. Provocação que fez nascer a seguinte pergunta: um Estado reativo pode, realmente, promover a justiça?

Para Boaventura de Sousa Santos “a afirmação fundamental do pensamento crítico consiste na asserção de que a realidade não se reduz ao que existe”. O real, portanto, não reside na aparência das coisas nem no que nos chega pelo canal da sociedade do espetáculo. Nesse sentido, como compreender a justiça com profundidade, escapando das armadilhas das percepções fragmentárias e da tendência à estigmatização do outro?

Recordo um ensinamento de Goffredo Telles Júnior, sobre o desafio imenso que é o encontro do justo. Desse desafio a lei não dará conta, nem outras circunstâncias alicerçadas em provas, testemunhas ou contratos. O justo clama um mergulho mais profundo.

Durante a aula sentimos que estávamos mirando apenas a ponta do iceberg. Isso trouxe inquietação, nos fez pensar. Afinal, o que está submerso nos constitui, como indivíduos, como sociedade. É preciso agir diante do problema que foi forjado nas entranhas da História do Brasil, em nossa biografia colonial, escravocrata, latifundiária, patrimonialista. Vale ressaltar que prisão em nosso país é resultado desse construto que direciona sua força repressiva na cruel criminalização da pobreza.

As políticas de repressão revelam, portanto, a extremidade de um problema mais profundo. No âmago da justiça está o humano vivente em uma teia complexa, no construto das histórias de vida. Clama um mergulho nas políticas de inclusão, que tragam a possibilidade real de escolha de rumos, que possam nos fazer mirar além da ponta do iceberg.

(artigo publicado no jornal O Povo, edição de 21/11/2011)

8 comentários:

Daniel Simões disse...

O que existe por trás de cada crime? Porque roubou o ladrão? Porque o assassino matou? De forma bem generalista, penso que a deficiente educação está por trás dos crimes. Vejo que maior parte das vezes os culpados não o são completamente, uma vez que, apesar do livre arbítrio, são levados ao crime devido a uma série de condicionalismos que limitam o leque de opções para alcançar aquilo que todos procuramos: deixar de sofrer. É um assunto que tem pano-para-mangas.

Ana Valeska Maia disse...

Concordo contigo Daniel.
Bj.

Sérgio Costa disse...

Realmente deve ter sido uma bela discussão. Gostaria de ver uma aula sua, Ana!

Mas enfim... do meu ponto de vista,
claro que existe uma condição plenamente social de um habitus que joga como escolha para o marginalizado aquele caminho "mais fácil", o do roubo, do crime. Políticas efetivas de educação e cultura são necessárias, mas uma tremenda força de vontade interna, um equilíbrio emocional para seguir o caminho que julgamos correto e se inserir como cidadão no convívio social requer entendermos várias batalhas internas desse pequeno indivíduo: porque imaginem voces uma criança que passa o dia estudando numa creche, cercada de professores carinhosos (quase sempre) e chega em casa a noite pra "desaprender" seus bons valores justamente no local que deveria ser seu maior exemplo: sua casa, onde seu pai pode ser um drogado e sua mãe lhe bater. Que caminho ela vai escolher? Que exemplo paternal é esse? Qual é o tipo ideal (o mais weberiano possível) para esse sujeito? Que referências terá?

Complicada nossa história, Brasil. Eu só espero que mude e que nossas pessoas mudem. Mas pra isso... tem que haver também uma tremenda força sentimental e racional natural delas mesmas.

Anônimo disse...

“A pobreza não é causa da violência. Mas quando aliada
à dificuldade dos governos em oferecer melhor distribuição
dos serviços públicos, para uma vida digna, torna os bairros mais pobres mais atraentes para a criminalidade e a ilegalidade.”
É como disse o colega Daniel Simões, "é um assunto que tem pano-para-mangas, aí eu digo " e haja mangas"

Edilberto Nobre

Ana Valeska Maia disse...

Sérgio,
É a teia complexa da vida.
Um conjunto de afetos nos constitui.
Beijos.

Juliana Diniz disse...

Olá! :) Sempre venho aqui para ler os seus posts. Acho interessante o seu "movimento". Tenho um espaço onde converso sobre literatura, o Ler para Contar. Quando tiver um tempinho, dá uma passadinha. Abraço!

www.lerparacontar.com

Vinicius disse...

A violência é um sintoma social tal como a pobreza, a injustiça, mas não se limita a esfera social como é compreendida pelo vulgo. A família é uma pequena sociedade. Como dizia John Donne "Nenhum homem é uma ilha, a morte de um me diminui." A violência é um sintoma social de ampla repercussão, nasce em conjunto (em pequenos e grandes grupos); é preciso estudar a transição entre os espaços (ainda mais nesta modernidade onde os espaços estão se confluindo de maneira vertiginosa, o público e o privado). Certamente é um assunto muito interessante! Ana, tu acha que Foucault ajudaria neste pensamento sobre a instituição carcerária? E sobre a violência? Foucault era obcecado pelos espaços.

Abraço.

Anônimo disse...

O ser humano é subjetivo sensível, efetivo, valorativo, opinativo. Como transformá-lo em objetividade sem destruir sua principal caracteristica, a subjetividade. A subjetividade é o mundo interno de todo e qualquer ser humano. Este mundo interno é composto por emoções, sentimentos e pensamentos.
No meu trabalho convivi muito tempo com pessoas delinquentes e cheguei a conclusão que a maioria delas, tem condições de ressocializar-se, vamos dar uma oportunidade a elas.
Edilberto Nobre