terça-feira, 1 de novembro de 2011

Chove


Chove. A razão manda fechar a janela e não obedeço. Leio os jornais e temo os cultuados avanços da tecnologia. As telas agora serão flexíveis, os robôs escalam paredes, viajam pelo espaço e mergulham nas entranhas do código genético. A sociedade se entorpece, medicalizam as emoções engolindo seus ais de dor e fúria transbordantes em sorrisos virtuais. Resisto. Não sou usucapível.  Rebelde a tudo isso, acredito mesmo é na força das ancestralidades, nos derramamentos de fluidos, seivas e sêmens do mundo. Tenho fé na vida que se compõe no cheiro de mato molhado, afastado de perfumes e artifícios. O cheiro que invade narinas adentro, subindo a mistura de aromas de fêmea e macho. Alquimia de um corpo que se revela ao outro, em outros tipos de ais, os da carne, do desejo, do fundir de pele e sonho dos amantes. Chove. A razão manda fechar a janela. Não obedeço.

4 comentários:

Sérgio Costa disse...

Deixar as grandes janelas do espaço e da alma se abrirem. Nada mais divino. Nada mais humano.
Que a chuva venha, sem pressa, molhar nossos dias, nosso amor e nossas agonias. Certa você, querida Ana, em se deixar levar por tal "rebeldia!"
=)

Daniel Simões disse...

Algo mudou na tua escrita. Está mais intensa, mais selvagem e mais genuína. Identifico-me com um não sei quê (que até sei)... talvez porque tenho andado a criar sem obedecer a certas contensões estéticas e morais - conceitos estilizados. Deixo as mãos dançarem nas superfícies várias o espelho de mim - um grito mudo na busca pelo domínio do instinto, libertação da lágrima criança, vôo desejando alturas de mim.
Isto acontece porque estamos todos indo na direção do Sol.

M. S... disse...

Espera, sente esse vento que anuncia uma chuva fora de época, espera que é nessa hora que tudo faz sentido, que meus olhos se fecham num dança involuntária e eu teço um sorriso de menina. Espera, respira o cheiro da terra molhada que lembra os melhores momentos da infância, sente a pele se arrepiar, num contorcimento de alegria pela satisfação de ser tão casualmente tocada pela Vida... espera, pra aonde estávamos indo com tanta pressa mesmo?

Ana Valeska Maia disse...

Os comentários de vocês me deixaram sem fôlego. amei.