segunda-feira, 11 de julho de 2011

Histórias de mãe e filha

Desde a semana passada estou “dando uma geral” na casa, operação pente fino, só fica e ficará o que realmente tem utilidade. O detalhe que faz toda a diferença e justifica a demora é que minha morada é antiga, nela viveram meus avós, minha mãe, meu irmão, tios, primas, então são gerações que deixaram coisas e afetos por aqui. O exame é minucioso do que vai e do que merece ficar. Muita coisa foi pro lixo, (com o devido cuidado de separar o que poderia ser reciclado). Tive boas surpresas, encontrei objetos que julgava perdidos, como um cd do Gonzaguinha que adoro, e que foi, inclusive, o tema musical do dia; achei pratos de porcelana que pintei há alguns anos e nem lembrava mais da existência; os desenhos que fiz dos treze aos dezesseis; bonecas empoeiradas, fotos e mais fotos: minha avó com meu cachorrinho poodle no colo, ambos não estão mais por aqui fisicamente, vivem imensos no reino do coração, quanta saudade eu sinto. Uma foto dos anos 80, de minha mãe, prendeu minha atenção. Ela sorria, mas o olhar estava tão triste! Estranho, lembro de ter visto esta mesma foto outras vezes, mas dessa vez fiquei prisioneira da imagem. Fui visitar minha mãe. “Naquela época a senhora estava triste né? “Estava”. “Mãe, só agora eu percebi sua tristeza”. Quis pedir desculpas pelo meu egoísmo do passado, mas acho que ela entendeu. Eu era infantil e queria tudo. Senti que a gente espera muito dos pais, que eles sejam perfeitos, pensei em alguns trechos da música “Pais e Filhos”, do Legião Urbana:

Sou uma gota d'água,

sou um grão de areia

Você me diz que seus pais não te entendem,

Mas você não entende seus pais.

Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo

São crianças como você

O que você vai ser

Quando você crescer?

Ela olha pra mim e pergunta para onde eu vou. “Para a livraria, a senhora quer ir comigo?” Depois de um tempo surge minha mãe toda linda. Chegamos à livraria e ela escolhe levar vários livros do Mia Couto e alguns do Guimarães Rosa. Aproveitamos para saborear um café, ela escolhe uma fatia de bolo de nozes com cobertura de leite condensado. Agradece à garçonete com um sorriso farto. Confesso que prestei muita atenção no olhar de minha mãe. Sim, ela estava feliz.

5 comentários:

Anônimo disse...

por instantes, me senti presenciando a bela cena dessas duas poetas de alma grande.
bj saudoso,

Ana Valeska Maia disse...

da próxima vez vem com a gente!

Anônimo disse...

E tomaremos café com açúcar e com afeto...

Pastelaria disse...

Olá Ana

Antes de mais , parabéns pelo Blogue... ! Gostei do que vi

Gostaríamos muito que desse uma vista de olhos no projecto DVB, de saber a sua opinião, e qual o interesse em desenvolver o seu trabalho neste novo formato.

\"Transformamos\" os seus trabalhos (já editados em livro, ou não ...), num DVB- Digital Video Book, uma ideia original da Pastelaria Studios Productions

O projecto é recente, é uma inovação, tal como explicamos no nosso blogue:

http://pastelariaestudios.blogspot.com/

É exactamente isso, os seus poemas seriam "transformados" num DVB . Um livro que se vê como um filme ( com menu , extras, biografia, capítulos, etc... )

Não somos uma editora e prestamos essencialmente um serviço criativo.

A minha sugestão seria, enviar-nos os seus \"registos\", e nós faremos um orçamento.

Posso adiantar que, por ser um projecto novo e, embora o trabalho criativo (audio, voz, imagem, construção do DVB, etc) seja bastante, queremos chegar ao maior número de autores de obras escritas, mesmo que essas estejam (ainda...) na gaveta .

Realizamos e produzimos, também , Audio Books

Fico a aguardar uma resposta e, qualquer dúvida… estamos por aqui.

A sua opinião é muito importante para nós, pois só assim conseguiremos crescer e melhorar sempre ! e.... porque não, arriscar ?!

Sem compromisso, escolha um dos seus poemas ou textos … e nós realizamos uma pequena amostra do nosso trabalho, é um presente nosso …para si …. :)

Um grande abraço desde aqui

Teresa Maria Queiroz

pastelariaestudios@gmail.com

Anônimo disse...

Acho lindo "as historias de mães e filhos" e me da uma puntinha de inveja,pois olho para trás e vejo que não tenho historia.
Isso é ruim, as vezes precisamos ter um passado para montarmos um futuro e viver um presente.
Talvez seja isso a minha eterna procura do proprio presente.
Adorei ler"historias de mãe e filha" um beijo.