segunda-feira, 11 de abril de 2011

Criança outra vez

Concluí este texto um pouco antes do anúncio da tragédia no Rio de Janeiro. Decidi manter como estava, pois fala de um olhar desarmado. Principalmente agora creio que precisamos desse olhar.


“Deixa-te levar pela criança que foste”. Encontrei esta citação na obra de José Saramago que trata de suas memórias. A leitura foi acompanhada de uma fisgada emocional, pois abriu um território de reflexões sobre esta criança que nos habita e se nós, adultos, permitimos que ela efetivamente nos conduza.


Nos entrechoques na caminhada da vida é frequente o conflito entre a criança interior e o adulto que desempenha seu papel social. Essa tensão é maior quando os valores e modelos vigentes do que é sucesso e felicidade não são flexíveis e apontam para uma única estrada possível. Profissionais na teia competitiva do mercado, preocupados com suas qualificações, com as técnicas para ganhar dinheiro. Apressados, não tem tempo para si nem para o outro, vivem a serviço de um sistema. Para o padrão estabelecido são adultos convenientes, como as “pessoas grandes” da obra o Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry.


A porta que Saramago abriu me conduz à história de Cronópios e Famas, do escritor argentino Julio Cortázar. Cronópios possuem alma de criança e o olhar poético. Constantemente constroem mundos novos. Famas cumprem com rigor os requisitos da vida prática. Vivemos no mundo de Famas? Essa indagação me leva a outras estradas, às “Memórias Inventadas” de Manoel de Barros. De forma encantadora o poeta avisa ao leitor:
“Eu só tive infância”.


O mundo de quem cultiva o olhar de criança transporta um mistério, porque proporciona ver o mesmo por outras perspectivas. Afinal qual é o sentido de estarmos aqui? Talvez seja para desaprender conceitos fechados sobre o que é a vida. O coração humano é profundo demais para ser adestrado por fórmulas prontas. Enfim, o sentido do “Deixa-te levar pela criança que foste” pode significar: “Lembra quem tu és”.


(texto publicado no jornal O Povo, edição de 11.04.2011)

4 comentários:

Daniel Simões disse...

É exatamente este olhar de criança que as forças mundanas procuram apagar. O sonhador e o materializador de sonhos é estigmatizado por processos de retrocesso espiritual. Ainda assim devemos firmar o nosso pensamento e coração naquilo que acreditamos ser o verdadeiro caminho da salvação, ou seja, da sobrevivência da criança em nós.

Steven Douglas disse...

Nossa interior guarda mais da criança que fomos um dia do que podemos imaginar.. só que em gavetas secretas, difíceis (será?)de serem abertas. Coloquei o ''será'' entre parentese por causa da relatividade da palavra difícil. Será que essas gavetas que preservam a leveza da infância são mesmo difíceis de serem abertas? pra uma pessoa fechada no mundo dos ''famas'' é provável que sim. Mas mesmo o fama mais metódico nos caminhos da vida, se prestar um pouco de atenção nas coisas simples no caminho, verá fluir dentro de sí essencias de outrora, que não foram perdidas.. mas o fama (como bom fama que é!), sem saber descrever o que sente, pensa que isso nada significa. Os cronópios também não conseguem descrever, mas eles se deixam levar pelo sentir..

Beijos Ana, seu blog continua lindo como sempre.

Anônimo disse...

Lindo, "CRIANÇA OUTRA VEZ". Fique adulto e esqueci da criança que existe dentro de mim, por isso agora digo:

Perdoa-me, minha criança!
Eu joguei duro demais com você por ignorância.
Liberto-a agora!
Esteja feliz!
Esteja em paz!

Parabéns Prof(a). ANA VALESKA

EDILBERTO NOBRE

serafim disse...

O grande escritor português Raul Brandão:

" O que sei de belo, de grande ou de útil, aprendi-o nesse tempo: o que sei das árvores, da ternura e do assombro, tudo me vem desse tempo...
Depois não aprendi coisa que valha.
Confusão, balbúrdia e mais nada"

Raul Brandão

A minha mulher pendurou este poema no quarto da minha filha...
Um abraço desde o Porto, Portugal.