terça-feira, 28 de abril de 2009

Rolam as pedras


Como tocar a vida, quando a vida não te toca?
Paro, porque não sei para onde ir.
Qual caminho seguir?
O que fazer quando se está “entre” caminhos?
Vejo as pedras coloridas que guardei rolarem, rolarem.
Apenas observo os movimentos que acontecem além de mim.
Sei que caem do penhasco lá no fundo de algum lugar.
Criarão estradas?
imagem: foto de Paulo Amoreira

sexta-feira, 17 de abril de 2009

No quarto branco


Fui caminhar na praia e a areia que o mar lambia estava toda rendada.


Em meu quarto branco desenho com inédita disciplina, as linhas úmidas do que vi, crio retratos.


Uma ocupação diária que aos poucos revela minha cartografia íntima.


Fio por fio, fio de ovos, fios de ouro, cordões entretecidos de almas, fios de filhos, fitilhos cor de rosa, vestido de casa de abelha, picolé de creme-holandês.


Ponto de cruz, labirinto.


Sou bordadeira de memórias!

sábado, 11 de abril de 2009

Vovó, o amor e o brilho das estrelas


”Vovó, você precisa apagar todas as luzes para ver o brilho das estrelas”.
Joana me falou essas palavras com os olhos mais tristes que eu já vira em todos os olhares que me fitaram durante minha longa vida. Eu, que já tenho 80 anos.
Colocamos nossas almofadas perto do lago e apagamos todas as luzes do sítio. Joana deitou, aconchegando a cabeça em meu colo e passou quase uma hora em silêncio, concentrada no que lhe falavam as luzes do mundo das estrelas. Enquanto Joana refletia, eu acariciava seus cabelos, como costumava fazer desde que Joana era bem pequenininha.
Aliás, no mundo das vovós, as netas nunca crescem.
“Foi o amor, vovó, que me fez ver o real brilho das estrelas. Conheci a luz do amor através do brilho daquele olhar. Quando meu olhar encontrou o brilho daquele olhar tudo fez sentido. Aquele brilho me enfeitiçou. Foi perdição, foi encantamento. Fiquei prisioneira do sentimento. Eu só tinha olhares para aquele olhar, me perdi pelos labirintos das sombras daquele olhar que eu amei. Entende porque dói vovó? Porque aquele olhar não quis mais olhar pra mim e não querendo mais olhar pra mim o amor me fez ver o brilho das estrelas. Eu passei a navegar pelo mar escuro ou a caminhar pelas sombras e lá não existiam velas, candeeiros nem faróis. Todo espaço na Terra estava incerto pra mim. Então fui obrigada a olhar para os céus e na escuridão da Terra vi como é o realmente o brilho das estrelas”.
Depois Joana ficou novamente em silêncio. No sítio som não existia. Nada fluía das árvores. Nenhum barulho de mato. E nunca ninguém falou tanto quanto aquele silêncio. Um silêncio de prece. Uma tormenta afônica, castrada, e a avó de Joana desejou a cura do coração partido da neta com a potência de um coral de mil vozes, com a força de uma orquestra de mil instrumentos, “vai passar, Joana, vai passar, daqui a pouco não doerá mais”.
Depois de ter chorado tudo o que tinha para chorar, Joana pegou sua almofada, acendeu as luzes do jardim e entrou em casa levando a foto da avó nas mãos.

Amor de pele e sonho



Dói feito impacto de foice.
Foi-se.
Não é dor leve.
É dor que jorra feito correnteza.
Dor de saudade de amor de pele e sonho.


imagem: obra de Auguste Rodin.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

As cores dos arabescos


Fernando,

Você não conheceu, mas te garanto que era espetacular, o piso da varanda da minha casa. O chão ornamentado com arabescos amparava meus pés e os arabescos fluíam numa mescla de verde esmeralda, verde musgo, amarelo-canário, lilás e violeta. As cores faziam cintilar minhas pegadas através dos detalhes e sulcos dos ladrilhos hidráulicos e eu rodopiava com meu vestido de algodão branco, rodopiava com os braços abertos e convidativos, os fios dos cabelos bailando livres ao vento, girava, girava, sorrindo farto até ficar tonta e caía para me perder no infinito das carícias do vento e nas linhas dos desenhos daquele chão guardião do mundo.


Um chão de linhas e cores infinitas que eu preciso reencontrar. O infinito é minha casa e minha casa não é mais aqui. Já me apropriei de tudo o que existe nesse território, todas as visões, texturas e cheiros, todas as alquimias e combinações. Minha morada foi verdadeiramente habitada. Mergulhei em todos os lugares. Agora pulsa vibrante a vontade do desconhecido que eu preciso reencontrar. A vida é um eterno reencontro e minha memória tem sede e fome. Por dentro chove uma inquietação com nome de chamado-intuição-pressentimento e é por isso que eu vou embora.


Deve ter sido por isso que cortei os cabelos: para marcar o momento. Vi que você ficou desapontado com esse atentado ao estereótipo da feminilidade padrão, mas sinceramente, Fernando, me vejo agora mais bonita, mais guerreira. Os fios já pesavam demais e eu precisava cortar algumas linhas para me libertar das prisões invisíveis que entramos sem perceber. Encare como um ritual de passagem, como Jovita Feitosa, Joana D’arc, Frida Kahlo ou Diadorim. Quem sabe, estou saindo finalmente do casulo. Quem sabe as cores dos arabescos do chão da minha morada infantil migrem para as minhas asas nascentes e eu voe bonito e colorido por aí.


Saiba que você estará sempre no meu coração.


Joana.
imagem: pintura de Frida Kahlo