
Fernando,
Você não conheceu, mas te garanto que era espetacular, o piso da varanda da minha casa. O chão ornamentado com arabescos amparava meus pés e os arabescos fluíam numa mescla de verde esmeralda, verde musgo, amarelo-canário, lilás e violeta. As cores faziam cintilar minhas pegadas através dos detalhes e sulcos dos ladrilhos hidráulicos e eu rodopiava com meu vestido de algodão branco, rodopiava com os braços abertos e convidativos, os fios dos cabelos bailando livres ao vento, girava, girava, sorrindo farto até ficar tonta e caía para me perder no infinito das carícias do vento e nas linhas dos desenhos daquele chão guardião do mundo.
Um chão de linhas e cores infinitas que eu preciso reencontrar. O infinito é minha casa e minha casa não é mais aqui. Já me apropriei de tudo o que existe nesse território, todas as visões, texturas e cheiros, todas as alquimias e combinações. Minha morada foi verdadeiramente habitada. Mergulhei em todos os lugares. Agora pulsa vibrante a vontade do desconhecido que eu preciso reencontrar. A vida é um eterno reencontro e minha memória tem sede e fome. Por dentro chove uma inquietação com nome de chamado-intuição-pressentimento e é por isso que eu vou embora.
Deve ter sido por isso que cortei os cabelos: para marcar o momento. Vi que você ficou desapontado com esse atentado ao estereótipo da feminilidade padrão, mas sinceramente, Fernando, me vejo agora mais bonita, mais guerreira. Os fios já pesavam demais e eu precisava cortar algumas linhas para me libertar das prisões invisíveis que entramos sem perceber. Encare como um ritual de passagem, como Jovita Feitosa, Joana D’arc, Frida Kahlo ou Diadorim. Quem sabe, estou saindo finalmente do casulo. Quem sabe as cores dos arabescos do chão da minha morada infantil migrem para as minhas asas nascentes e eu voe bonito e colorido por aí.
Saiba que você estará sempre no meu coração.
Joana.
imagem: pintura de Frida Kahlo