segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

As paredes e os sonhos


Vivo até hoje na casa onde nasci. Desde meu nascimento o sonho sempre andou acompanhando minha vida: sou uma adulta sonhadora porque fui uma criança que sonhou demais. Mas nem sempre a gente lembra de tudo o que sonhou, até que algum reencontro inesperado nos faz lembrar de nossos esquecimentos. Um dia desses estava em uma parte de casa que hoje é meu escritório, mas que já foi meu quarto na infância. Aliás, todos os quatro quartos da casa já foram meus quartos, um em cada período da minha vida.
O escritório foi meu quarto na minha primeira infância, só que eu não lembrava disso.
E estava eu procurando o livro do desassossego do Fernando Pessoa, pelos esconderijos das minhas estantes sem encontrar. “Não entendo porque não sou organizada, como os virginianos costumam ser”. Não sou, apesar de às vezes ser. Mas procurando pelo livro encontrei algo que procurava sem saber que procurava. Talvez direcionada pela força do poeta que recomenda que a gente raspe a tinta com que pintaram nossos sentidos, para despir e libertar nossa alma vestida e amordaçada, eu percebi um buraco na parede por trás da estante.
Afastei os livros, depois a estante e percebi que a tinta da parede, ao lado do buraco, estava estufada. Puxei a pontinha e com suavidade uma grande placa de tinta se desprendeu. Senti um arrepio percorrer o corpo inteiro, uma pontada, um frio na barriga, um marejar de olhos, o coração rasgando o peito. Estava diante de uma revelação. Cores antigas, cores da minha infância silenciosa, cores do quarto de bebê, cores que me fizeram lembrar de coisas esquecidas, de imensidões que pintaram muitos sonhos meus. Num impulso, arranquei toda a tinta que consegui. Alguns trechos eram descolados da parede suavemente, outros estavam tão grudados que para arrancá-los vinha o reboco junto, e para cada pedaço que eu arrancava e machucava as pontas dos meus dedos, eu encontrava um trecho perdido da minha vida, uns tinham a cor azul, outros rosa, alguns estavam pintados de amarelo, alguns eram crus e brutos, outros estavam tão fundidos numa miscelânea de cores que era impossível precisar o período e depois que a parede estava toda descascada vi minha história representada ali, vi as dores, as alegrias, os amores, as transformações, vi períodos da minha vida nitidamente representados nas cores descascadas da parede. Pelo chão, os pedaços de tinta, a poeira das tintas da minha vida que não precisavam mais existir. Algumas memórias vividas não precisam existir para sempre, você olha para elas, para que elas não tenham o mistério dos fantasmas, você olha para que não te assustem mais, e coloca no lixo o que merece ter esse destino e fica apenas com o que merece permanecer. Varri o chão consciente de que raspei a parede para ver quem eu fui. Naquela parede estava meu passado. Encontrei minhas cores antigas e chorei, sorri, sofri, amei, vivi e agora, com a memória fresca pelo reencontro com minhas cores íntimas, meus abrigos, refúgios, cavernas, paredes, muralhas, conchas, ninhos, então entendo que fica mais fácil escolher cores presentes, novas e vibrantes quando se rememora essências e das paredes brotam portas e chaves que te abrem novos caminhos e eu vou, saber o que tem depois da porta, porque a vida é movimento, sempre.
imagem: foto de Paulo Amoreira

10 comentários:

genetticca disse...

Tudo nosso redor é um descascar de capas superpostas.
A vida mesma é uma superposiçäo de
feitos e atos. As tintas,os cheiros, as imagens,os sabores...as vezes reconstruimos o pasado num rapido flas que conten tudas as lembranças num resumen ja vivido.
Nois somos la lembrança da nossas lembranças , é tudo mesmo.

Por cima de tudas as capas, o presente, tintado,mixturado con todas as cores do pasado,novas e vibrantes .


Um bejo,beleza.

Joice Nunes disse...

que casa bonita, a tua.
essa de que eu falava lá no meu blog, obviamente uma metáfora, não existe mais.
a tua, que é de verdade, existe e eu fiquei com vontade de entrar nesse quarto e sentir o cheiro da tua infância.
ah! eu também sou virginiana e não sou nada organizado. é tudo uma bagunça. cá dentro, cá fora.
um beijo

R.Vinicius disse...

Nossa Ana, quanta sensibilidade e ternura! Não sei o que dizer! Realmente corro o risco do meu comentário não ser digno as suas palavras. Sua infância correndo nas suas linhas, caindo de letra em letra. E as paredes que guardavam sua vida, seus sonhos, seu quarto. Todas as cores, e os traços que te compõe.

Abraço,

R.Vinicius

glória disse...

é estranho estar diante de cores, formas e cheiros do passado de uma maneira tão nítida e absoluta né? quanto mais cavamos, de algum modo, mais nos desencontramos. essas cores desbotadas, muitas vezes, não coincidem com as que permanecem pintadas nos vãos da memória. teus escritos, de uma sonhadora de imagens compartilhadas, nos trazem um gosto de banquete. uma mesa posta e degustamos com você esses sabores tão raros. eu revivo minha cores quando te leio. bjs

Daniel Simões disse...

Isso é muito intenso!

Aline Lima disse...

Ana que lindo! O mais lindo até hoje (na minha opinião, se vc permite claro!)...

Esses dias fui visitar o local exato, no sítio do meu pai, onde ele msm enterrou um pedacinho do meu umbigo (tradição interiorana). Foi bonito emocionante tbm perceber uma parte de mim ali naquele solo sagrado.

Lembranças mil, tbm, da infância com casa na árvore, balanço sob a enorme mangueira que tá lá até hj, alembrança das esculturas em argila que sujavam até a alma com a criatividade... eu tbm fui uma criança que sonhou muito. Sonhos que dão cores até hj na vida.

Te lendo e pensando (ao mesmo tempo que agradeço) que belo presente a força sublime do Universo nos deu ao nos presentearmos com uma coisa mágica, intensa e eterna que chamamos de MEMÓRIA.

Na memória somos e estamos para sempre NO sempre.

Muito amor.
.aline.

Ana Valeska disse...

Ô povo lindo!!!!!! todos vocês.
Bj no coração.

Anderson disse...

Eu ainda tenho acesso a casa que vivi na infancia. Acho interessante ver como elas "encolhem" com o tempo.

Franzé Oliveira disse...

Desde a minha tenra idade sou um sonhador, mas onde chegamos assim? Hoje estou triste pq vejo meu sonho distante, mas quero, quero, quero. Sei q querer ñ é poder. E meu desejo não vai se transformar em realidade agora. Quem sabe algum dia. Quem sabe...

Bjos com muito carinho amiga.

eDu Almeida disse...

Ah Ana, sinceramente gostei do texto, mas tb quando terminei de ler, percebi que meus olhos estavam marejados de lágrimas. Adoro a idéia da memória, mas queria que ela fosse ao nosso favor quando queiséssemos esquecer algum fato. Ultimamente tenho tentato esquecer algo que insistentemente fica martelando na minha cabeça e ainda me machuca lembrar. Pq essas coisas acontecem? Um dia passa? Vou conseguir gostar ou confiar em um outro alguém? As vezes sinto minha alma meio que dilacerada por não ter alguém para compartilhar vida. Não desmerecendo meus amigos, pois todos (e vc está inclusa) são preciosidades raras que quero manter perto de mim sempre. Sei que isso deveria ser somente um comentário, mas acabou sendo um desabafo. talvés seja disso que minha alma precisa.
Bjos.