sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Ricardo, por gentileza, outro café!

Adoro perambular pelas ruas aparentemente desinteressantes da cidade. Caminho como uma investigadora atenta a qualquer detalhe despercebido. As minúcias constroem mundos, às vezes. Entro num boteco, acomodo-me no banco em frente ao balcão e peço um café para o atendente do bar, dono de um bigode enorme e que usa um uniforme que num passado distante, já foi branco. Como é seu nome, amigo? Ricardo. Ele me diz o nome sem muita simpatia na voz ou no semblante. O café chega pra mim num copo americano. Que delícia tomar café num copo americano! Já estampo um sorriso escancarado da mais genuína felicidade. Uma vez uma amiga olhou espantada pra mim quando algo similar aconteceu e disse – você fica feliz com pouca coisa, né? - Fico. É fácil me fazer feliz. Enquanto sinto a cafeína acender meu corpo, vou viajando pelos meandros de uma citação do Clifford Geertz que nunca sai da minha cabeça: “O real é tão imaginado quanto o imaginário”. Desde então fico matutando que a vida pode ser, afinal, o que a gente quiser que ela seja, basta ter o olhar disposto a transformar a vida em uma sucessão de descobertas. Sei que o “basta” não é fácil, pois as criaturas humanas teimam em criar receitas e fórmulas gerais para a vida ideal. Como humana que sou, confesso que tenho meu ideal de vida, que consiste justamente em estar com a alma aberta para resignificar. Provavelmente por isso, pela alma aberta, é que seja tão difícil o encaixe na “realidade”. Cada grupo tem seu consenso, sua realidade comprometida, sempre é assim, do mais oficial dos grupos ao mais alternativo. Os grupos alternativos talvez sejam os mais contraditórios, justamente porque negam o que praticam. Criticam as pessoas que compram a felicidade em free shop, mas os alternativos também têm suas fórmulas, existem os que vivem com aquele ar intelectual de desinteresse, de tédio absoluto pelo mundo, sempre armados com respostas ácidas e normalmente nunca falam a partir de seus próprios sentidos de vida, sempre é o que aquele intelectual francês afirmou, então é muito estranho conviver com a pessoa e aquele mundaréu de intelectuais franceses mediando a conversa. Com os artistas contemporâneos é parecido, sempre vão buscar conceitos exteriores para fundamentar a arte que realizam e acaba sendo uma construção meio falseada, quase sempre sinto uma súplica na obra como se pedisse uma dose de sinceridade do dono para poder se manter em pé. Nessa hora minha consciência tributa uma dose, - de autocrítica-, pois eu estava pensando agora a partir da tal citação do Geertz, então não sou muito diferente de quem eu critico! Sei não, o ser humano é mesmo meio caótico e contraditório. Vejo um movimento no boteco que me arranca de meus pensamentos, um cara alto entra com um jornal nas mãos, coloca fita crepe no dito cujo e prega uma página de classificados na parede encardida do lugar. Então outros caras se aproximam e ficam fuçando a página, anotando detalhes nos guardanapos ásperos e eu pergunto para o Ricardo o que é aquilo e ele me diz, agora simpático, que tem uns três anos que o cara alto faz isso, coloca as ofertas de emprego para quem não tem acesso ao jornal e que um amigo dele conseguiu emprego assim e eu fico com os olhos marejados de novo da mais autêntica felicidade. Ricardo, por gentileza, outro café! Meu coração explode em sorrisos com esse dia lindo e humano demais.

6 comentários:

M. Pires disse...

Eu simplesmente ADOREI o comentário sobre os grupos alternativos e artistas contemporâneos. Eu acho insuportável ar blasê (é assim que se escreve ?) dos primeiros a insinceridade dos últimos.
E ainda fico pensando que o chato sou eu!

Aline Lima disse...

Ei.
Eu lendo teu post e visualizando teu sorriso e teus olhinhos brilhantes. =)

glória disse...

Mulher, somos muito parecidas. Muitas pessoas se irritam com minha estranha felicidade por táo pequenas coisas. É isso mesmo, somos nós que já sabemos que tatear o que a vida nos oferece todo dia é uma forma de sentir o mundo, e de nos dirpormos a sorver cada pedacinho "criado" de felicidade. bejim

Joice Nunes disse...

agora eu faço que nem a glória
tu é igual a mim
tão bom olhar as pessoas e reconhecê-las.
ainda bem que tenho todas vocês aqui comigo.
um abraço de mim pra você
:*

eDu disse...

Caramba!! agora que me toquei que sou o único homem que posta aqui no blog. Vejo tantas mulheres tão sentimentais juntas e eu, bem aqui, no meio de todas heheh.
Não sei se são as mulheres que explicitam demais seus sentimentos ou os homens que de menos. Taí, está bem visível agora as relações de poder ainda existentes, mas que bom que anos de repressão que as mulheres passaram e ainda passam estão acabando e vcs criando novos significados. E eu, me sinto bem vindo e bendito entre vocês mulheres.
Abraço pra você a Ana, para as Anas, as Alines, Glórias e Joices. Novamente, me sinto confortavelmente bem vindo entre vocês.

Ana Valeska disse...

Edu, você não é o único homem que posta por aqui, mas você é ÚNICO!!!!
Bjs, bjs.