domingo, 14 de dezembro de 2008

Olhos de mar revolto

Ele olhou-me olhos adentro. Como se tivesse o poder de colocar fogo dentro de mim. Olhou-me por alguns demorados segundos, suficientes para acelerar o coração, provocar tremores de pernas e frio na barriga. Em seguida, com um ar intrigado, disparou a pergunta:
- Qual a cor dos teus olhos?
- Castanhos eu acho, respondi insegura.
Procurei desconcertada pelo espelho perdido na bagunça da bolsa, num movimento bobo para verificar o que eu já sabia.
- São castanho-acinzentados, falei com voz firme, tentando disfarçar o nervosismo que se apossava de mim.
- Eu vi, têm uma cor estranha neles. Olhou-me agora com uma atenção maior ainda, como se fosse um médico procurando encontrar a causa da dor que o paciente sentia, como se quisesse desvendar o mistério do defeito da máquina, depois que vários especialistas falharam em suas tentativas.
Ele fala com a voz segura, típica de quem têm um diagnóstico preciso a oferecer:
- É difícil olhar para ti, Joana. O cinza do teu olhar assusta. É perturbador.
“E os seus olhos têm cor de mar revolto, assustam mais do que os meus”, ela pensou sem ter coragem de verbalizar os pensamentos. E quanto mais pensava nos olhos de mar, mais uma seqüência de pensamentos inconfessáveis ia tomando conta dela, querendo sair dela, para que ele soubesse, para que ele soubesse, que ele estava rompendo suas fronteiras e quanto mais ele olhava desavergonhadamente para ela mais ela se inflamava e tentava ocultar o fogo, mas fogo não é coisa fácil de se disfarçar e Joana começou a suar, o rosto vermelho, ai que calor está fazendo nesses dias, ai como eu tenho vontade de navegar nesse teu mar para encontrar tua calmaria escondida, mas antes quero toda a turbulência, quero a violência do desejo, quero conhecer o efeito dos teus poderes no meu corpo, que você me desorganize inteira, sim, eu sei, meus quereres são perigosos, podem trazer danos futuros, mas existe dano maior do que passar a vida navegando em águas calmas e seguras? tenho um amor passional pela vida, estou entregue às correntezas, de quando em vez vêm uma enchente , uma inundação inesperada que quase me mata, mas eu sobrevivo, eu sobrevivo, sou urgente como os melhores arrebatamentos, não se assuste comigo, não tenha medo de mim, me ame livre, livre, livre, que eu sei mergulhar no teu oceano, mas também vôo, vôo, que nem você, sou borboleta, sou pássaro e qualquer coisa a gente escapa daqui, vai para um lugar melhor, mas vamos, porque a vida é urgente e passa rápido, rápido, rápido demais.
Joana ainda não sabia, mas os olhares dos dois teciam caminhos recíprocos, ocultos apenas pela ausência da fala e dos gestos. Ele também incendiava por dentro e pensava:
“tudo o que eu quero na minha vida é amar intensamente essa mulher”.

11 comentários:

glória disse...

è tão raro encontrar esse alguém com a força de nos des-organizar. eu sei que Joana busca esse frenesi. e os olhos vão ganhando as cores desse desassossêgo ne? Oh mulher para escrever lindo! lindo! bjs

joao disse...

Amor é feito de coisas sem nome, Joana. Feito de afogamentos e naufrágios, mas também de águas internas que se escrespam com o mais leve rubor.

Sei, porque navego. Mas em mar de olho não se pode bússula nem sextante. Navegar em mar assim é coisa pra marinheiro antigo. Conhecedor das águas perdidas que estão além dos mapas e das rotas conhecidas.

A boa notícia é que dentro toda gente tem sempre um velho lobo do mar do afeto. Esperando para ser resgatado e apresentado para novo leme.

Boa viagem, Joana. Tuas ondas te merecem viajante.

Anônimo disse...

"As minhas palavras aqui são como palavras escritas num papel branco que se mantém branco com essas palavras invisíveis de alguém que as leia, palavras a envelhecerem por não haver quem as compreenda (...) a misturarem-se imperceptíveis numa brisa em que ninguém repara (...)Todo o meu olhar é inútil no teu silêncio, todo ele se torna nesse silêncio que recorda (...)Sou o que espera (...)espero uma palavra a nascer dos teus lábios ..." (Nenhum Olhar, José Luis Peixoto)

sociologiaparaprincipiantes disse...

Muito interessante. Parabéns. Concerteza que voltarei.

eDu disse...

Vendo Joana assim, se permitindo novas desorganizações percebo que estou crescendo junto com ela. No momento meus olhos castanhos...castanhos, não encontraram o brilho de um outro olhar que possa me tirar o foco e o fôlego, mas sei que em algum lugar esses olhos que eu tanto espero estão também, por ai a me buscar.
Joana, te desejo sorte nessas águas turbulentas que estão por vir, mas que sem elas, a vida seria muito sem graça.
Bjos.

Anônimo disse...

Para Juana:
Teu escrito me lembrou deste poema de uma grande poeta cubana.
Desordenado tambien,
Ernesto.

Me desordeno, amor, me desordeno
cuando voy en tu boca, demorada;
y casi sin por qué, casi por nada,
te toco con la punta de mi seno.

Te toco con la punta de mi seno
y con mi soledad desamparada;
y acaso sin estar enamorada
me desordeno, amor, me desordeno.

Y mi suerte de fruta respetada
arde en tu mano lúbrica y turbada
como una mala promesa de veneno;

y aunque quiero besarte arrodillada,
cuando voy en tu boca, demorada,
me desordeno, amor, me desordeno.

Fernando Bacelar disse...

"...sou urgente como os melhores arrebatamentos, não se assuste comigo, não tenha medo de mim, me ame livre, livre, livre, que eu sei mergulhar no teu oceano, mas também vôo, vôo, que nem você, sou borboleta, sou pássaro"

Nossa... parece que está me descrevendo!!! rsrsrs

Lindo, tia Val. Lindo!

Beijo no coração.

Wellington Pereira disse...

Lindo texto. I'm jealous...

fiz o blog:
http://serinsensato.blogspot.com/

bjs...

Tainá Facó :) disse...

Aaaaaaaaaaaaah, o amor! VIVA AO AMOR! :)

Como escreves bem, Deus do céu! Me ensina?

AMEI, AMEI, AMEI!

Beeeeeeijos ;*

Tainá Facó :) disse...

HAHAHAHAHAHAHAHAHA!

Essa foi boaaa! hahahahaha!

Eu que aprendo com suas belas palavras, flor.

Beeeijos ;*

Anônimo disse...

Guantanamera
Raices de América

Composição: Joselito Fernandez

Guantanamera, guajira guantanamera
Guantanamera, guajira guantanamera

Yo soy un hombre sincero
De donde crece la palma
Yo soy un hombre sincero
De donde crece la palma
Y antes de morir me quiero
Echar mis versos del alma

Guantanamera, guajira guantanamera
Guantanamera, guajira guantanamera

Mi verso es de un verde claro
Y de un jazmín encendido
Mi verso es de un verde claro
Y de un jazmín encendido
Mi verso es un ciervo herido
Que busca en el monte amparo

Guantanamera, guajira guantanamera
Guantanamera, guajira guantanamera

Por los pobres de la tierra
Quiero mis viersos dejar
Por los pobres de la tierra
Quiero yo mis viersos dejar
Por que arroyo de la tierra
Me complace más que el mar

Guantanamera, guajira guantanamera
Guantanamera, guajira guantanamera

Yo soy un hombre sincero
De donde crece la palma
Yo soy un hombre sincero
De donde crece la palma
Y antes de morir me quiero
Echar mis versos del alma

Guantanamera, guajira guantanamera
Guantanamera, guajira guantanamera