segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Narrativas de tempo e olhar

Começo de noite, uma lua cheia e encantadora habita o céu. A beleza é tamanha que não resisto: meu olhar foi enlaçado. Suspendo os passos, encontro um cantinho para sentar na calçada e contemplo o espetáculo por alguns minutos. Depois, um pouco antes de iniciar a aula, um estudante pergunta, com ar curioso, o que eu estava fazendo sentada na calçada em frente à faculdade. “Admirava a lua”. A decepção ficou nitidamente desenhada no semblante dele: “Ah, professora, eu não tenho tempo para isso, existem coisas mais importantes para fazer”.

Quase todos os dias encontro pessoas muito ocupadas, sempre atrasadas e apressando o passo como o Coelho de Alice. “Agora não dá para conversar”, “estou com pressa”, “estou muito cansado” e “não tenho tempo”. Atravessando o tempo, correm as transformações tecnológicas migrando para os ritmos do corpo, a conectividade ostensiva entrelaçando os rumos, coração acelerado, a vida fragmentando-se em múltiplas tarefas, papéis, obrigações e contas a pagar. Acúmulo.

A pressa visível na contemporaneidade propiciou um despertar sobre a necessidade da contemplação. Perceber os detalhes escondidos, ver o invisível, observar o movimento da natureza, o vento promovendo o diálogo das árvores, o olhar para si. O tempo do olhar contemplativo proporciona a consciência do raro no cotidiano e é nesse tempo que desabrochamos. Para o tempo do sentido, precisamos de tempo.

Semana passada, durante a exibição de um filme na faculdade, percebi que, enquanto o filme fluía, um estudante acessava as redes sociais em seu tablet, recebia mensagens pelo celular, vez ou outra conversava com um colega, degustava um salgadinho. Tudo ao mesmo tempo. Lembrei de Fernando Pessoa, da importância de ser inteiro. Com as palavras de seu heterônimo, Alberto Caeiro, concluo o tempo deste texto: “Não tenho pressa. Pressa de quê? / Não têm pressa o sol e a lua: estão certos. / Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas / Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra. / Não; não tenho pressa.”


(artigo publicado no jornal O Povo, edição de 26/09/2011)

5 comentários:

Imelidiane disse...

Belo artigo!

Sérgio Costa disse...

Perfeito!
Essa pressa de ser e de viver realmente acaba com a gente.

Rodrigo Cavalcante disse...

Excelente texto, professora. Parabéns!!
Rodrigo Cavalcante

Anônimo disse...

Ana Valeska, li no jornal O Povo, "Narrativas de tempo e olhar", essa obra de arte só poderia ser sua. Recortei do jornal e passei a mostrar meus irmãos e meus amigos com grande orgulho, dizendo "ela é minha professora", Parabéns nobre professora. Cordial abraços
Edilberto Nobre

mychael disse...

Muito bom. Parabéns.