quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O tempo do amor

Já não consigo precisar desde quando carrego a sensação de que não deu tempo. Com as férias acabando o relógio reinicia sua tirania. Corro de um lado para o outro, passo horas em engarrafamentos e reuniões, algumas vezes chego atrasada para os compromissos, outras tantas espero ser atendida em consultórios, hospitais, supermercados, bancos. Contas a pagar e haja paciência para horários, tabelas e relatórios.

Então parei para pensar no sentido disso tudo, no fato de direcionarmos uma quantidade imensa de energia para objetivos financeiros e práticos, em um mundo que parece ordenar que a felicidade só é possível recheada de sucesso e dindin*. Refletindo sobre essas questões tão contemporâneas lembrei da passagem de um livro que adquiri recentemente, chamado “Os livros e os dias”, de Alberto Manguel.

“O verão no jardim carrega implicitamente todas as mudanças do ano: os galhos secos caídos no inverno antes de brotarem as folhas da primavera, o lugar onde as frutas caem no outono, a sequencia das flores. O ir e vir regular das estações, o envelhecimento e a morte dos amigos, o desgaste das paredes de nossa casa e a minha perda progressiva de memória são um fato, mas são também a confirmação e a prova da constância das coisas. O tempo é circular, dizem esses eventos; depois da morte de alguém, converso com outro alguém que se lembra dele, ou que quer saber algo a seu respeito; construímos o muro do jardim com as pedras que caíram do celeiro; o que não lembro mais está ali, em algum lugar, em uma das páginas cuidadosamente numeradas de meus livros. E eu, claro, vou desaparecer; o novo muro também vai desmoronar; os livros se dispersarão. Mas aquilo de que todos nós fazemos parte, uma parte pequena que seja, vai continuar, estável sob as estrelas. E, aos olhos de um escultor cinzelando a pedra, o todo ficará tanto mais belo com a nossa ausência”.

Esse algo que continua acelera meu coração. Será que estou aproveitando bem o tempo que tenho? Posso responder um sonoro sim se invisto meu tempo com as pessoas, principalmente com as pessoas que amo mais e percebo que preciso melhorar muito nesse ponto, do amor, da generosidade, da paciência. Quando minha avó morreu deixou, sem saber, uma última grande lição: sempre devemos tratar com afeto quem amamos, pois chegará um tempo do adeus, e a pessoa, (ou nós mesmos,) voará como a folha de outono, invernando, para que o ciclo cumpra seu rumo, a primavera chegue mais florida ainda e a humanidade brilhe como um lindo raio de sol.

A sensação de que não deu tempo passou. Há tempo. Aproveite o tempo com quem você ama. Mesmo que as cobranças, compromissos e ponteiros dos relógios indiquem o contrário, sempre há tempo para o amor.

Referência:

MANGUEL, Alberto. Os livros e os dias: um ano de leituras prazerosas. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, pág. 55.



* Dinheiro.

10 comentários:

pEdrooo disse...

Aproveite o tempo com quem você ama.
aproveite!

Joice Nunes disse...

que bonito,ana!

Anônimo disse...

Que dom mágico você tem de tocar o coração das pessoas com palavras Ana, e que belas palavras. Espero que com esse tempo que voa, e esses ponteiros que tictacam sem parar você não esqueça da sua fã número um! beijos Camila Fonteles

Ana Valeska Maia disse...

Bjs!!!!!!

Anônimo disse...

Amigo ajuda a ver. Você é mais que amiga e mais que irmã. Amo muito você! Beijos, tua loirinha

Ana Valeska Maia disse...

Loirinha!!!!
Que bom te ter também por aqui!
Também te amo muito.
Val.

karime disse...

IF tomorrow never comes.... Will he know how much I loved him.. Did I try in every way to show him every day that he's my only one??

Ana Valeska Maia disse...

Hi Karime!
I listen this music every time!

Carlos Eduardo Leal disse...

Ana,
Adoro Alberto Manguel, mas acho que agora adoro muita mais sua avó. Sábia lição que a neta aprendeu bem.
Bjs

Ana Valeska Maia disse...

Que lindo Carlos!!