domingo, 20 de junho de 2010

A viagem de Saramago

O impacto da partida foi percebido aos pouquinhos. Como a chuva que começa tímida, escondendo seus propósitos em tênue umidade, e quando damos conta dela não temos abrigo, já estamos encharcados por seus arroubos e intensidades. Partida percebida como paisagem de outono, quando as folhas se desprendem lentamente dos ramos das árvores, acumulando-se no solo, e então, ao caminharmos, nossos pés mergulham nesta paisagem ressecada, numa simbiose farfalhante. Nossos olhos encantam-se com o alaranjado desbotado das folhas mortas, que continuam vivas em quem tem a sensibilidade não apenas para olhar a cena, mas para lhe dar sentido, vendo, reparando, sentindo. Neste instante, algo nos invade, estamos indefesos, entregues, não temos palavras para traduzir o que a língua do coração profere, não encontramos palavras que articulem a fala do sentimento.

Sinto-me assim, desprovida de palavras adequadas e vou tateando no escuro, procurando encontrar alguma tradução para manifestar o que sinto. Vejo as lembranças que antes apenas garoavam, ficaram nítidas na memória: revi minha imagem no sofá, agarrada ao Memorial do Convento, um dos livros selecionados para o vestibular da UFC e que eu faria em breve, buscando uma vaga na faculdade de Direito. Era 1991. Lembro-me da fisgada, como se eu fosse um peixe que tivesse abocanhado a isca: estava enlaçada pelas palavras do escritor português e pela Blimunda Sete-Luas, mulher que tinha o poder de enxergar as pessoas por dentro. Na seqüência, o evangelho, com ele um tremor que me tomava em cada sentença pronunciada, um olhar para cima sempre multicor, alaranjado, vermelho desmanchado em vários tons de rosa, uma auréola violeta como os olhos de Liz Taylor, linhas verde esmeralda e uma dose de cerúleo também, por que céu é céu, mas sempre além, como se a cauda do pavão-real povoasse o firmamento. Depois, os ensaios, desconfortáveis, invasores, fortes como a verdade, e caminhamos num túnel de cegueira a cata de uma nesga de lucidez, a pulsação da vida materializada na eterna busca de nós mesmos, jornada, caminho, Viagem de Salomão, vida.

Eu sedenta, ao encontrar cada nova obra, percorria as linhas até a exaustão, como caminhante no deserto, para, com o cansaço que impedia meus olhos de permanecerem abertos, sentir finalmente que estava saciada e clamasse pelo breu dos olhos fechados, entrada do mundo do sonho, onde eu encontraria a continuidade da narrativa interrompida.

Na sexta pela manhã, quando meu amigo João telefonou para dar a notícia da morte de Saramago, imediatamente surgiram as palavras de defesa, fui elaborando justificativas: “é isso mesmo, ele já estava velho, viveu uma boa vida, deixou muitos livros maravilhosos para a humanidade” e outras palavras do tipo que utilizamos para consolar o inconsolável. O fato é que venho sentindo o impacto da partida aos pouquinhos, da partida do escritor ateu que adorava escrever sobre Deus, cumprindo a sina, o barro ao barro, o pó ao pó, a terra a terra, nada começa que não tenha que acabar, tudo o que começa nasce do que acabou. Volto, saudosa, as obras, e releio o início da viagem de Salomão: sempre chegamos ao sítio que nos espera. Vou equilibrando o rumo e encontro uma palavra para traduzir: viagem. Outra ainda: continuidade. Sinto que Saramago viajou, agora retorna para o lar que o espera. Uma viagem de retorno que todos nós faremos, José, Salomão, Iup, Ana. E que, será o caso de dizer, uma vez mais, com a milenária experiência dos povos, que, apesar das decepções, frustrações e desenganos que são o pão de cada dia dos homens e dos elefantes, a vida continua*.


* em itálico, títulos ou trechos de obras do autor.

6 comentários:

Aline Lima disse...

LINDO Ana!!!

Steven Douglas disse...

É.. uma viagem.. feliz quem (viaja) em vida!.. rs.. bom, realmente, Saramago se foi, mas deixou sua marca registrada nesse mundo. Indo velhinho ou não.. o mais importante são as pegadas que ficam. E quando essas são verdadeiras e feitas com os próprios pés.. ficam registradas pra sempre. Certamente Saramago ficaria (ficará) feliz em ler o teu texto, por saber que cativou uma jovem em 91.. que hoje tem na base de sua arte tijolos de Saramago. Pode apostar.. ele continua vivo.. :]

bjos.

glória disse...

Oh! Ana! Nós duas postamos quase ao mesmo tempo escritos sobre Saramago. O teu é uma obra literária densa e luminosa. Que nem você!

bjs

Cássio disse...

Concerteza muito lindo
"[Saramago] dizia que a morte é simplesmente a diferença entre o estar aqui e já não mais estar. Combatia as religiões com fúria, dizia que elas nos embaçam nossa visão. (...) Mesmo assim não consigo deixar de pensar que adoraria que neste momento ele estivesse tendo que dar o braço a torcer ao ser surpreendido por algum outro tipo de vida depois desta que teve por aqui." Fernando Meireles.

como a senhora, muito sedento por ler cada mais e mais obras de Saramago.

Tatiane Lemos disse...

Sentiremos muito sua falta*

maira disse...

Aodrei o texto. Também sinto saudade